medicina e psicologia integral
Artigos com o marcador psicologia transpessoal
O nível turquesa
23/11/09

“A divindade é uma esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte alguma.”
Upanishades
Vou tentar descrever minha percepção do nível turquesa de consciência. Embore em geral eu me sinta bem amarelo e integrado em vários aspéctos da vida e claro, outros não . Como em todas as mudanças de níveis de consciência a mudança do amarelo para o turquesa são muitas e vou tentar destacar algumas tal como as percebo.
Como todos os níveis da espiral as estruturas anteriores tem que ser TRANSCENDIDAS E INCLUÍDAS, assim sendo. os principais problemas do nível amarelo que é o excesso de estruturas inclusivas no pensamento precisam ser transcendidos.
O amarelo é o último nível que vai operar com conceitos de desigualdade. Parece uma grande conquista realmente rever níveis, linhas, quadrantes e tudo mais que o pensamento integral permite, mas como toda estrutura também vai ser transcendida pelo nível turquesa para um nível transracional intuitivo.
No nível turquesa, todo o espaço se torna perpectiva, tudo se torna ponto de vista equidistante de qualquer objeto e qualquer objeto se torna sujeito de todos os demais. A fusão entre sujeito e objeto, a não dualidade agora não se percebe apenas como experiência mental mas como experiência imediata no mundo.
Redes e teias de energias-pensamentos-karma, nexos de sentimentos, ondas, qi, forças, campos, teias, redes, links entre todas as coisas começam a se tornar realidades sensíveis e um uma nova experiência para nomear essas novas realidades que emergem e se difereciam precisam ser construídas.
Novas pelavras e conceitos precisam ser construídos para que possamos falar de todos esses níveis seguintes e não temos ainda uma realidade consensual desses níveis para que possam ser assim facilmente comunicados.
Então, para as relações afetivas, para as ligações entre as pessoas essa experiência no campo sutil se torna uma percepção sensorial muito mais ampla, podemos tocar, ver e sentir esses níveis energéticos, assim chamados por falta de um nome melhor.
O mais impressionamente mesmo e por isso um nível inferior sempre resiste ao nível superior é que toda a estrutura mental que sustenta o nível amarelo tem que ruir para que o nível turquesa possa se manifestar.
Ai, ai, boa sorte pra nós. Eu apavoro de pensar em tanto tempo lendo e tentando entender tudo e ainda restam entender as questões básicas da vida. Quem somos nós? Quem nos criou, quem criou o criador (se é que existe um), quem deu início a esse grande jogo cósmico e porque? É tudo lindo demais, tudo maravilhoso demais, mas ainda estamos apenas navegando no grande oceano de sentidos celestiais e terrestres.
Viva o grande globo azul turquesa, viva as teias de luz que envolvem toda a vida na terra, viva todos os pensamentos harmoniosos, viva o amor, viva a dança e viva as crianças.
Mais sobre o nível turquesa e a dinâmica da espiral.
Tantra e a Arte do Encontro e da Alquimia com ou Outro
22/09/09
Sexo é uma dos aspectos da vida mais mostrados na TV, bancas de jornais, internet. A prioridade humana com relação ao sexo é enorme mas poucos conseguem ter prazer com isso, ou pelo menos fazer dessa relação íntima à dois, ou três, ou seja lá com quantos, se dê de forma saudável e se converta em alegria, saúde e energia em todos os outros aspectos da vida.

Freud foi realmente genial ao colocar a libido ou a pulsão que é normalmente sexual no centro da vida psíquica e na constituição do sujeito. Os símbolos, como Jung os descreve, sendo aglutinações de energias psíquicas que tratam do sexo, também são muito presentes em sonhos e nas religiões do mundo. De fato, dificilmente vamos além das nossas fixações eróticas originais e é bem conhecido todos os tipos de doenças e distúrbios psíquicos que podem surgir deste movimento da energia ou da libido pelo corpo em desenvolvimento. Nesse sentido, a psicanálise e, por exemplo, a terapia reichiana tem uma contribuição importantíssima para nos oferecer.
Ainda no ocidente, eu poderia lembrar que no cristianismo, por exemplo, o sexo está cheio de tabus e que os papeis arquetípicos da mulher na bíblia é em geral de mães “virgens” ou prostitutas. Não há um papel central para a mulher no movimento das energias sutis e sexuais como na tradição tântrica, tanto taoísta, budista ou védica. Mas ainda há um longo caminho para que tanto homem quanto mulheres encontrem uma relação harmoniosa e verdadeiramente saudável.
Em geral, sexo desgasta energia e desorienta a vida, é um fato. Na medicina chinesa e na alquimia em geral sexo pode causar doenças se praticado em excesso e os níveis de doenças associadas ao sexo também são muitas.
Ao buscar uma vida integral e integrada, a sexualidade e essa relação radicalmente intima entre duas pessoas precisa também ser considerara, mas como resgatar as tradições orientais que desenvolveram essas artes de amar sem que isso se torne mais um fetiche?

Textos como o Kama Sutra ou Rig Veda ou até mesmo o Yoga Sutra de Patanjali trazem descrições dessa arte de intimidade radical não apenas como algo muito positivo que nos “descarrega” tensões, mas fundamentalmente algo que pode nos conduzir ao êxtase, à transformação do fogo em luz da consciência, à evolução.
Na alquimia taoísta os canais de energia envolvidos na relação sexual, nos órgãos sexuais, Lingam e Yoni como chamam os tantristas é fundamental, claro que vez ou outra todos praticamos tantra. Tantra no sentido de que todos temos uma relação cuidadosa e total, em que o tempo de contato de trocas de energias de palavras de carícias é tão importante como o ato em si e o prazer da relação dos olhares da energia que circula entre hormônios e músculos entre suor, cheior e sabores, tudo isso, pode ser uma forma de cultivo integral, quero dizer tanto do corpo físico , sutil ou causal. Sim é possível amar em todos esses níveis e nem sempre os papeis masculinos e femininos estão harmonizados em todos esses níveis.

Energeticamente, temos no ocidente principalmente, uma busca de religiosidade e filosófica vertical e ascendente. Para ter uma idéia, o próprio Freud parou de ter relações sexuais aos 35 anos para se dedicar a escrever. Seu sintoma compulssivo que o fazia escrever mais de 30 laudas diariamente e “Cada orgasmo era um livro que se perdia” .
Ou seja, a busca o uno, o pai, o criador o divino acima de nós, ou mesmo os pensamentos mais abstratos se opõe a tudo que é mundano, tudo que faz descer a energia que passa a ser considerado negativo. O movimento ascendente se traduz, no corpo sutil, pela subida da energia pela coluna, pelos chacras e pelos diversos níveis de consciência. Em alquimia taoísta e ayurveda essas práticas também são enfatizadas como modos de realização espiritual.
O que nos falta é mesmo aprender a ascender e descender essa energia. No caminho para a baixo ao invés do uno se encontra a pluralidade de todas as manifestações sensações, emoções e pensamentos é o caminho em direção à Terra, ao alimento ao corpo com saúde e alegria. Talvez encontremos no caminho uma sexualidade polimórfica, uma capacidade de sentir prazer em todos os poros do corpo, alegria, êxtase em cada toque seja possível e não apenas pelo prazer em si mas porque implica numa vitalidade que se transmite para todas as outras áreas de vida, enfim, sexualidade e vida integral.
Outra relação vertical importante que se estabelece são as imagens arquetípicas de Grande Pai, Shiva e de Grande Mãe, Shakti, de Céu e Terra, de Urano e Gaia que divide o pensamento e as práticas espirituais em geral. Mas podemos também estabelecer relações horizontais entre essas polaridades, e até mesmo internamente como já escrevi aqui no artigo sobre Yin e Yang, e também na relação intima amorosa e sexual.

Como psicólogo, o que mais escuto na prática clínica são queixas sobre problemas na relação. As pessoas se dizem capturadas e não mais “cativadas”, se sentem prisioneiras e claro, níveis muito sutis de justificar e buscar uma causa pra essa situação, todo tipo de “encaixe” neurótico se estabelecem.
Basicamente, neurose se estabelece quando você para de falar a verdade para você mesmo sobre você mesmo, quando você mente pra si sem saber que está mentido. O sintoma que convoca a escuta é perceber a consequencias numa vida que perde a alegria e a graça de viver. Assim, o sentido mais simples da terapia seria encontrar o caminho da sua verdade ou como queiram, do seu desejo. Numa para a relação, encontrar como podemos fazer com o outro uma dança, uma dança que fica mais e mais bonita quando um sabe perceber a maestria com que homens e mulheres desempenhando papeis diferentes podem se harmonizar.
O mesmo se dá com relação ao sexo e aos relacionamentos, podemos ser muito desenvolvidos na nossa relação conosco mesmo, na nossa relação com nosso próprio ego, podemos ser até muito bons na relação com o divino transcendental, mas conseguir desenvolver maestria no campo dos relacionamentos íntimos parece ser uma dificuldade generalizada. Não temos ainda uma forma saudável e aceitável de viver a maravilha que é uma relação que inclua todas as outras dimensões na intimidade do amor e do sexo.
Assim, confio que é possível, se você já tem uma relação amorosa, inclua essa dimensão alquímica e transformadora e poderosa das práticas Tântricas. Faça sexo com o corpo, mas também com todos os outros corpos, com as emoções, com os pensamentos, com suas energias e até mesmo com a dimensão causal ou não-dual, ou seja um enamoramento radical da subjetividade com o objetividade e vice-versa.
Na relação somos assim: sujeito-objeto/objeto-sujeito/ sujeito-sujeito/ objeto-objeto/ Sujeito (8) subjetividade infinita……..~
Quem ama quando dois seres humanos se encontram senão a natureza que se encontra, o divino que se enamora. Tão comum é relacionarmos as imagens de Deus como uma relação amorosa, mas não conseguimos fazer o inverso, trazer o divino para a relação amorosa.

Certa vez perguntei a uma amante: como é ser vista como uma Deusa? Ela respondeu que era muito bom enquanto eu ria e chorava de êxtase. Ela me perguntou se eu sentia dor e lhe expliquei que era amor demais, mais do que eu conseguia suportar.
Se há amor demais, mais do que consegue suportar, distribua, sorria, cuide, faça comida, escreva textos, cuide da casa do corpo da mente e do espírito e esteja engajado tanto no céu quanto na terra, tanto com o sol como com a lua, tanto com yin quanto com o yang.
Tantra radicalmente quer dizer engajar-se com o mundo, perceber que Samsara é Nirvana e que Nirvana é Samsara que o uno e a diversidade são o mesmo.
Mas como tudo na vida demanda prática, então boa prática!
Cuidando da vida – como o sentido da doença implica no sentido da cura
24/08/09

Muitas doenças hoje não tem cura ou pacientes não melhoram são crônicas. Diabetes, câncer, chron, cardiopatias e tantas outras. Não sabemos o que as causa em que nível estão, e no mundo inteiro, estamos tentando soluções para esses problemas.
Eu mesmo, por mais amplo que sejam os recursos da medicina chinesa, sei que há campos que se avança pouco. Pela primeira vez em minha prática acompanho dois pacientes que tem enfermidades muito difíceis de tratar.
Anos atrás recebi uma paciente, mãe de um amigo muito querido, eu tinha dois anos de prática apenas, mas ele me confiou sua mãe. Ele e suas irmãs e pranto me levaram uma senhora idosa com muitas dores e dificuldades para andar. Ele me dizia que ela estava tomando cogumelo do sol e que tinha metástase. Eu olhava pra aquelas agulhas e para seu corpo sobre a maca a tudo que podia fazer era lhe olhar profundamente nos olhos e dizer que estava ali com ela. Fiz toda a cena e prometi lhe visitar logo depois, indiquei florais pra toda a família e não cobrei nada. Não havia nada a fazer, mas de alguma forma talvez tenha podido ajudar.
Um terapeuta é em parte um mágico das esperanças, das formas misteriosas como lidamos com nossa cura. Da forma como os outros entendem e dão sentido ao sofrimento. Como tenho uma profunda vivência espiritual. Sinto-me sempre compelido a apontar nessa direção, apontar para o espírito perante a falta de sentido.
Existem pelo menos quatro atitudes nessa condição.
1- Posso chegar à mesma conclusão dos médicos que acompanham o paciente que disseram que na sua condição não há mais o que fazer. Porque os livros de acupuntura afirmam que tratamento oriental não oferece recursos nesses casos.
2- Posso me contentar com toda uma “melhora geral” do paciente, emocionalmente principalmente que acupuntura também ajuda muito. Isso sempre acontece no tratamento com acupuntura e embora eu sinta como um consolo, percebo que é uma melhora real.
3- Posso chegar investir meu tempo e energia para continuar buscando uma solução, tanto movido por um narcisismo de achar que posso tratar tudo, quanto uma profunda motivação de fazer tudo que estiver ao meu alcance para ajudar o outro. E acho que esse exercício do que podemos doar é sempre uma questão difícil de dosar.
4- E posso, principalmente, estar junto, acompanhar e escutar profundamente o paciente na forma como ele vive para além da doença e servir de esponja para suas emoções. Para o psicólogo isso é o fundamental no seu tratamento, saber receber e metabolizar as descargas emocionais que não ocorrem em nenhum outro espaço.
Mas a doença, qualquer que seja, tem pelo menos dois aspectos. Um aspecto são os sintomas em si, objetivamente considerados. Em outro nível estão as representações sociais da doença, o imaginário da doença e as explicações que o paciente encontra para a questão fundamental: Por que eu? Por que estou doente, por quê?
Acompanhar um paciente apenas objetivamente é uma tarefa mais simples. Basicamente existe um conhecimento estabelecido e se aplica aquela técnica no tratamento da doença. Mas existe uma dimensão hermenêutica da doença que só descobrimos escutando o imaginário e os sentidos que a doença evoca na tentativa de responder ao porquê.
Ontem fiz uma profunda reflexão sobre o que eu faria se soubesse que iria viver apenas um ano. Por mais doloroso que seja, é uma reflexão muito poderosa. Realmente mergulhar na finitude, realmente olhar a morte. Debatemos-nos, criarmos religiões, cremos na reencarnação do ego, na salvação da alma e nos recusamos a investigar se existe algo além do ego, algo em nós que possa realmente ser eterno e precioso. Não foi a primeira vez que fiz esse exercício, toda filosofia existencial coloca a morte como uma questão fundamental. Assim como os ensinamentos de Castaneda e Dom Juan.
Os budistas falam da preciosa vida humana e ela, a nossa vida a nossa existência só se ilumina perante a morte. Imagine o que farão nossos bisnetos vivendo 1000 anos? Eu prefiro imaginar o que eu faria vivendo um ano e anotando num papel todas as coisas importantes que eu realmente gostaria de fazer. Felizmente não muita coisa diferente do que estou fazendo.
O que quero dizer finalmente é que nem sempre, por mais que todos os nossos esforços no coloquem na direção da busca de superar os sintomas, conseguimos este feito. Mas existe uma enorme e poderosa função terapêutica de cuidar da alma e devolver à vida para além de qualquer doença. De ajudar o paciente a conviver com suas limitações, sem que a doença seja considerada um castigo por um pecado, um castigo por um desvio para ajudar a evoluir ou fruto de um karma, ou mesmo na tradição oriental um castigo porque você não está seguindo o Tao, está em desarmonia com o universo.
*Discuti esse tema antes no artigo Acupuntura e os Níveis da Doença.
Sabemos que toda doença pode ser uma benção, não porque festejamos a crise, mas porque toda a vida, que inclui nascimentos, sofrimentos, decepções e a morte. Uma das minhas resoluções para esse ano de vida é agradescer profundamente aos meus pais por terem me ofertado essa possibilidade de desfrutar da vida, de viver todo espectro da minha consciência e aos poucos me abrir para o infinito.
Deixo aqui alguns dos sentidos das doenças com que normalmente reagimos numa tradução livre do livro Grace and Grit de Ken Wilber.
1. Cristão- A mensagem fundamentalista: doença é basicamente uma punição de Deus por um tipo de pecado. Quanto pior a doença mais grave o pegado.
2. Nova era – A doença é uma lição. Você está atraindo pra si a doença porque existe algo importante que você tem que aprender com ela para continuar no seu crescimento e desenvolvimento espiritual. A doença é apenas uma criação da sua Mente e basta a Mente apara cura-la.
3. Medical – doença é fundamentalmente uma desordem biofísica, causada por fatores biofísicos (vírus, traumas e disposição genética, ou agentes ambientais que servem de gatilho) Você não precisa se preocupar com tratamentos psicológicos ou espirituais para a maioria das doenças porque esses tratamentos alternativos trazem poucos benefícios e podem muitas vezes evitar que você receba tratamento médico adequado..
4. Karma – doença é o resultado de karma negativo, ou seja, uma parte não virtuosa das suas ações anteriores se converteu em uma doença. A doença é “má” no sentido que representa um kama passado, mas é boa no sentido que permite que você se purifique e se livre das dívidas passadas, é uma purgação uma “limpeza”.
5. Psicológica- As Woody Allen diz, “Eu não fico irritado; eu desenvolvo tumores.” A idéia é pelo menos na psicologia “pop” de que as doenças são fruto de emoções reprimidas. A forma mais extrema é que as doenças são fruto de um desejo de morte.
6. Gnóstica -doença é uma ilusão. Todo o universo manifesto é um sonho, uma sombra e o sujeito está livre da doença apenas quando está livre da ilusão de toda a manifestação, apenas quando acorda do sonho e descobre o Uno, a realidade além do universo manifesto. O espírito é a única realidade e no espírito não existe doença. Uma versão extrema de misticismo.
7. Existencial -a doença em si mesma não tem sentido. Pode-se adotar qualquer sentido, eu escolho qual sentido dar a doença e sou responsável por essa escolha. Homens e mulheres são finitos e moretais e uma resposta autêntica é aceitar a doença como parte de finitude mesmo quando isso envolva dar um sentido pessoal.
8. Holistico- doença é um produto de fatores físico, emocional, mental e espiritual, nenhum deles pode ser isolado um do outro, nenhum pode ser ignorado. O tratamento deve envolver todas as dimensões embora na prática isso normalmente se traduz por evitar tratamentos ortodoxos mesmo quando eles pode ajudar.
9. Mágico – Doença é um retribuição. “eu mereço porque eu desejei eu desejei tanto que eu morreria. Do tipo, é melhor eu não ficar muito feliz porque uma coisa ruim vai acontecer. Tantas coisas boas me aconteceram então uma coisa ruim vai acontecer.
10. Budista – a doença é uma parte inescapável do mundo manifesto, parte do mundo manifesto, perguntar porque há doença é como perguntar porque existe o ar, o nascimento e a velhice, doença e morte – essas são as marcas do mundo, todos os fenômenos se caracterizam pela impermanência, sofrimento e egoísmo. Apenas na iluminação a doença é transcendida porque todo o mundo fenomênico é transcendido também.
11. Cientifica – Qualquer que seja a doença tem uma causa específica ou algumas causas,. Algumas são determinadas, outras são simples acaso ou puro azar. Não existe um “sentido” para a doença, apenas o acaso ou necessidade.
Não se trata de escolher um ou outro sentido. Todos nos atravessam de uma forma ou de outra, percorremos esses sentidos quando estamos doentes mesmo sem querer. Mas de ver que podemos transitar e aproveitar todos esses e tantos outros sentidos a serem desvelados.
Um forte abraço a todos os meus leitores e se tem algo essencial, que ainda não fez e está adiando, se dê um horizonte de um ano, de um mês de um dia e responda sinceramente,” o que você faria se só te restasse esse dia”, se te restasse um ano, se te restasse uma vida, uma única vida.
Antigos e Novos Mitos – Como o Passado Impede o Presente
19/08/09

Muitas influências que recebi nos últimos anos tinham como fonte o conhecimento tradicional mítico que afirmava que antes, na era de ouro é que sabíamos como viver, hoje em dia estamos todos degradados e não sabemos mais como viver em harmonia.
1- O livro do imperador amarelo afirma que vivíamos pouco porque perdemos o Dao e que na alta antiguidade os homens viviam 120 anos.
2- A bíblia afirma que o homem vivia no paraíso e as interpretações desse símbolo indicam uma queda do paraíso como conseqüência de um pecado original.
3- Os vedas falam da Kali Yuga, a era de trevas em que os Avatares e a virtude não habita mais entre os homens.
4- As culturas ameríndias viviam em um estado paradisíaco e de harmonia com a natureza que precisamos aprender com eles como viver nessa harmonia.
5- A homeopatia fala de um estado original perdido que é reconquistado ao se encontrar o similium e assim restaurar a saúde, o mesmo com os florais, cuja origem mítica vai até a Grécia antiga.
6- Conhecimentos esotéricos nos falam de civilizações anteriores muito mais desenvolvida espiritualmente e culturalmente.
7- Os maias por exemplo teriam sido um exemplo de uma grande cultura desenvolvida e que chegou a prever o fim do mundo!!!!
Não desconsidero o mérito de alguns indivíduos nessas culturas terem alcançado níveis altíssimos de entendimento espiritual e verdadeiros insights que ainda, na média da nossa cultura global atual, não conseguimos assimilar. Mas não podemos com isso achar que toads as pessoas na índia são iluminados, ou que cada chinês é um mestre de Tai Chi Chuan.
O Nei Jing, o Tao Te King, os Vedas, os místicos de todas as tradições não podem ser romanticamente confundidos com a médica cultural dos seus povos. Há 3000 anos na china a expectativa de vida, como na índia ou na América pré Colombiana não passava dos 35 anos.
Essa percepção equivocada dos mitos nos aponta para uma regressão tremenda e de equívocos que acompanhei e repeti muitas vezes e percebo muito comum nos romantismos pós-modernos.
Veja algumas das conclusões que decorrem dessas idéias:
Na china antiga é que se sabia realmente como praticar acupuntura.
Que o conhecimento espiritual antigo era muito mais autêntico do que o nosso.
Que os índios têm muito a nos ensinar sobre como organizar a sociedade e mais, como enfrentar os problemas ecológicos atuais.
Existem conhecimentos secretos perdidos para sempre e formulas mágicas de longevidade que só os mestres detêm.
Com o devido cuidado, pois de certa forma algumas considerações a esse respeito podem ser aproveitadas, o fato é que esses mitos nos impedem de viver o nosso tempo. Único e o mais valioso não só na história evolutiva da humanidade até hoje, como o único, como ensinam os mestres Zen, em que podemos viver e participar.
Se existe um grande momento na história, um ponto ômega para onde as consciências e os saberes se encontram, não estão no passado, mas no futuro.
Assim, por mais importante que seja se alimentar dessa cultura tradicional, ainda mais importante é trazer ao nosso tempo. E quando falo de nosso tempo não me refiro ao modelo hegemônico de cultura racionalista e de ciência monológica. Estou me apoiando no modelo integral, que considera ciência e hermenêutica, sujeito e objeto, eu, você e nós como instâncias a serem integradas de saberes e práticas. Também chamada de abordagem holística.
Psicologicamente, o mito da criança interior e tantos outros mitos regressivos são na cultura romântica um grande impasse para o crescimento. E aqui, todas as criticas não são re reprimir ou negar a existência desse movimento, mas de integrá-los para permitir que abram espaço para novas formas trans-racionais e não limitadas pelos mitos regressivos. Em suma, cultural e mítico não implica em transpessoal e espiritual.
* Esse texto ainda não passou por revisão.
Relacionamentos e evolução
17/08/09

ImagoDei – óleo sobre tela Mário Fialho
Relacionamentos, encontros foram na minha experiência sempre extremamente transformadores. Um analista junguiano certe vez, ao relatar a força de uma relação e a postura de uma parceira em terapia me afirmou: Que anima poderosa.
Ele se referia a função psíquica que Jung atribui como uma força integradora e transformadora em direação ao self no psiquismo feminino.
Realmente eu tive muitas experiências de amor a primeira vista, alguns duraram mais outros menos. Não quero entrar na discussão do que seria de fato esse amor a primeira vista. Se projeção da anima ou qualquer outro modelo neuroquímico que explique o amor.
O fato é que relacionamentos podem nos levar a suportar conteúdos inconscientes e transcendentes que não podemos ou não temos a coragem de suportar sozinho. E nesse sentido, a melhor coisa que pode nos acontecer é chegar ao fim de uma relação. E o motivo de celebrar o fim de uma relação ou um ciclo de crescimento é mesmo ter que lidar com o impacto dessa amplificação de consciência que uma relação nos deixa.
Claro, não são todas as relações que nos provocam isso, e falo principalmente da minha experiência, embora a própria vida de Jung seja um testemunho dessa questão.
Quando uma relação se desfaz, principalmente as que nos levam além de nós mesmos. Somos convocados a percorrer e integrar todos aqueles aspectos (projetado ou não) na relação que passou.
E muito comum hoje com tantos discursos feministas e machistas de um lado e de outro, encontrarmos uma possibilidade integral num relacionamento. Como em tantas outras áreas da vida estamos acelerando demais nosso crescimento e formas de contato para estabilizar algo por muito tempo.
Quando jovem estudante de direito, eu me imaginava correndo, estudando, passando num concurso e me estabilizando aos 30. Mas que desgraça é achar que a vida cresce para chegar a um platô aos 30 anos e fico feliz de ter vivido tantas intensidades afetivas que me movem sempre adiante e não me deixa parar. Que alegria poder reconhecer isso com a lucidez que me assalta agora.
Eu me sinto hoje em dia mais feliz e integrado do que em qualquer outro momento na minha vida e sou muito grato a todos os encontros e desencontros que tive, principalmente as despedidas abruptas que me convocaram ao encontro comigo mesmo ainda mais radical.
Claro, que como em qualquer crise podemos ter duas atitudes básicas: Ou nos tornarmos amargos e ressentidos, culpando narcisisticamente outros por tudo, ou podemos nos responsabilizar por todas as nossas escolhas. Eu prefiro a segunda opção, mas percebo que nem sempre se consegue.
Então, como um relacionamento evolutivo, o encontro clínico é assim também. Uma possibilidade de ir além de nós mesmos com ênfase, no caso da clínica que pratico, de assumir responsabilidade radical pela nossa existência.
Cultivo de si e evolução retomando o caminho
13/08/09
Uma das coisas que me atraiu ao estudo da acupuntura era sua relação com a tradição filosofia oriental, especialmente o taoísmo.
Quais as implicações de uma prática medicinal inserida num sistema de valores e ética em contraste com as práticas medicinais modernas. Um problema da modernidade foi ter colapsado todos os valores e padronizado toda a interioridade. Assim, saúde é quem não tem sintomas e feliz é quem trabalha e ter seu lugar na sociedade, no sistema.
Essa questão da modernidade nos colocou numa situação em que pra mim, quando mais estudava acupuntura, menos encontrava o que buscava no início como psicólogo. Uma prática de desenvolvimento pessoal para atingir níveis mais elevados de consciência, saúde e organização psíquica. Em termos tradicionais chineses, uma prática de cultivo, no sentido de cultivo de si, cultivo de boas ações, virtude, saúde e alegria de viver como a meditação.
Tive uma inspiração enorme com a leitura feita pelo professor Padilla da Espanha, mas não suficentes para convocar a uma transformação. Acho, porém, que se não fosse a contribuição da escola neijing eu não teria me aproximado da acupuntura enquanto técnica, mas me afastei primeiro fisicamente e em seguida teoricamente das práticas propostas por vários motivos, entre eles um nível mítico literal da interpretação dos clássicos. Algo que escreverei no futuro.
Porém, o tema que quero discutir é muito importante. Uma das pacientes que já acompanho há bastante tempo, chegou esses dias num encontro terapêutico e percebi que todos seus sinais estavam saudáveis. Não tinha nada que pudesse perceber no diagnóstico oriental que me pudesse tratar e a questão colocada é qual o alcance da terapêutica em acupuntura? Até onde pode nos levar o tratamento. Tudo bem que talvez sem os encontros semanais ela não permanecesse assim tão harmoniosa, mas o que fazer neste ponto? É esse o limite?
Se fosse um terapeuta convencional eu, como comentei francamente com ela, diria para ir para casa, que não havia nada que pudesse fazer, ela provavelmente estava mais saudável que eu.
A minha intuição, embora não veja isso sendo tratado nos livros. É que um organismo livre de bloqueios energéticos é capaz de alegria, de sentido e de pertencimento no universo. Um ser energeticamente livre é um ser capaz de trazer luz, qi, energia, sopro, alento a todas as partes da sua vida e do seu corpo e ressoar com essa energia ao seu redor. Seu shen, espírito, brilha nos olhos e suas palavras são carregadas de energia e vibração. Todos sabemos bem o que é isso.
Infelizmente acupuntura, como todas as demais práticas modernas vem sendo reduzida a uma técnica para aliviar dores e sintomas, mas não coloca mais temas como virtude, bem-aventurança ou bem-viver na pauta de suas possibildiades. Algo que um psicólogo é comumente convocado a fazer, principalmente se trabalha numa abordagem existencial, humanista ou mesmo transpessoal.
Dissociado do seu sistema de valores a acupuntura pode para aí, na ausência de sintomas. E aqui dou ênfase ao taoísmo, entendendo que existem influências de diversas escolas filosóficas orientais como confucionismo ou budismo.
Em síntese, acupuntura e sua terapêutica está limitada ao nível grosseira e físico? Não, há evidências de que ela alcança níveis sutis, psíquicos, mental-emocional. E além?
Esse além, a dimensão espiritual da acupuntura foi então totalmente usurpada e achatada e as práticas de qi gong se tornam cada vez mais uma ginástica destituída de seus sentidos artísticos e éticos ou energéticos. O mundo plano, reduzido mecanicista teve o mérito de superar os níveis míticos da acupuntura, mas jogou com isso a água com a criança fora. A criança é a possibilidade continua de evolução. A criança é o Dao a experiência causal de não-dualidade descrita em todas as tradições e que está além da razão.
Mesmo considerando todos esses aspectos, no meu curso de acupuntura, escolhi ensinar intensivamente o básico da acupuntura. Agulhamento dos pontos com ênfase nos tratamentos. Não podemos exigir sob a égide da modernidade que num curso de acupuntura seja o espaço para se colocar o sentido da vida, ou práticas de cultivo. Acho que isso merece um curso à parte, para os que estão dispostos a questionar suas motivações para além da questão que me vem sendo feita muitas vezes pelos alunos que me ligam querendo aprender: – Acupuntura dá dinheiro? Eu posso praticar acupuntura legalmente? Posso funcionar dentro do sistema?
Pra mim as questões boas seriam, acupuntura pode me ajudar a viver melhor e aos que estão ao meu redor? Pode me ajudar e me transformar? Pode me ajudar e encontrar um sentido? Pode me ajudar seguir minha viagem em direção ao infinito de nós mesmos?
Se você ainda não sabe a respostas pra essas questões procure alguém pra alinhar suas energias. Procure alguém para te colocar em equilíbrio. Somos um todo-parte, um holon, muito misterioso ainda, e cuidar desse mistério, e se inclinar com humildade sobre ele, é a atitude fundamental de qualquer terapeuta.
Não sei bem o que é curar, não sei bem o que é saúde, mas sei que posso me dedicar ao outro, ao cuidado, ao estar com o outro no seu sofrimento e se consigo ver além, se consigo ampliar os sentidos, se consigo ampliar o espaço para energia circular e se manifestar, então posso me considerar um terapeuta integral. E radicalmente, sei que isso não é a cura, mas a tarefa infinita de ir nos curando, ir nos cuidado aos poucos e isso espalha luz, razão e compreensão mais vasta e integrada.
Quanto a questão que me motivou a escrever essas linhas, acupuntura pode te ajudar a evoluir? Por si só, como é comumente praticada, percebo que não, mas é possível cria um terreno fértil e facilita que possa aí sim, permitir que se cultive uma atitude mais ética e mais plena perante o Céu e a Terra.
Dinamica da Espiral – Excertos
24/07/09
Spiral Dynamics, a dinâmica da espiral é uma teoria do desenvolvimento humano introduzida no livro Spiral Dynamics por Don Beck and Chris Cowan baseada nas pesquisas de Clare W. Graves.
1º nível – Bege – O Instintivo

Âmago do Bege
“Minha existência está centrada na sobrevivência e na satisfação das minhas necessidades físicas para que eu não tenha fome nem sede. Devo reproduzir a minha espécie, por isso reajo aos meus insintos sexuais à medida que eles ocorrem. Não percebo o que querem dizer com “futuro”, fazer planos, poupar dinheiro para uma emergência ou por “eu”. O meu corpo diz-me o que fazer e sou levado por sentidos dirigidos ao meu cérebro, não por uma mente consciente”.
(Fonte: Beck e Cowan in Dinâmica da Espiral. Ed.: Sociedade e Organizações. Portugal. Pg. 243)
Dados
0.1% da população – 0% do poder
Início de População Expressiva (coletivo): há 100 mil anos.
Fase da Vida (individual): 0 aos 18 meses
Características Gerais
>Hábitos instintivos.
>A distinção do Self é pequena.
>Necessidades biológicas (comida, água, calor, conforto, sexo, segurança).
>Vida focada na sobrevivência física.
>Impacto mínimo no ambiente natural (é como mais um animal do ecossistema).
>Impulsionado por instintos e genética.
>Emoções raras (o instinto/automatismo biológico predomina).
Exemplos
>Crianças recém nascidas.
>Velhos senis ou Alzhaimer.
>Doentes mentais.
>Massas famintas.
2º nível – Púrpura – O Tribal-Animista

Âmago do Púrpura
“Procuramos a segurança para nossa raça através da confiança nas relações de sangue, nos extensos laços familiares e nos poderes mágicos que alcançam o mundo espiritual. Veneramos como sagradas as tradições de nossos antepassados, pois eles são iguais a nós. A nossa tribo está repleta de rituais sazonais, ritos de passagens, músicas e danças tradicionais. Procuramos viver em harmonia com a natureza e os seus modos, através das nossas cerimônias.”
(idem. Pg. 251)
Dados
10% população – 1% Poder
Início: Há 50 mil anos.
Fase da Vida: 1º ao 3º ano.
Características Gerais
>Crença em espíritos mágicos
>Pensamento Animista
>Organizam-se em tribos étnicas
>Procuram harmonia com poderes da natureza (naturalismo animista: muito diferente de pensamento ecológico!!)
>Respeito aos mais velhos
>Veneração aos ancestrais
>Ritos de passagem
>Sentido mistificado de causa e efeito (superstições)
>Talismãs, objetos de sorte ou sagrados (Pingentes, figas, buquês de casamento, dentes de leite, cordão umbilical, álbum de família)
>Preservação de lugares, objetos e rituais sagrados
>Obediência aos desejos dos seres espirituais
>Crianças percebem que as pessoas (e animais) são seres sensíveis em vez de meros objetos
>Real e fantasia estão muito próximos.
>Histórias e canções transmitidos oralmente
>Desenhos, danças, trabalhos manuais passados de geração em geração
>”Um por todos, todos por um”
>Bruxaria é respeitada e temida
>Narcisismo indiferenciado freudiano
>Apego a pessoas e objetos
>Sentimento de “pertencer”
>“Somos ‘O POVO’, os outros são forasteiros, não-pessoas, demônios estranhos”
Exemplos
>Índios americanos
>Gangs
>Tribos Corporativas
>Kamikazes, Homens-bomba
>Nazismo de Hitler
>Socialismo/humanismo africano (Ubuntu)
>“Harry Potter”
3º Nível – Vermelho – O Egocêntrico-Impulsivo
Âmago do Vermelho

”A vida é uma selva. É a sobrevivência do mais apto. Sou duro, e espero dos que me rodeiam que também o sejam. Comando pessoas e posso vencer a Natureza, submetendo-a à minha vontade. O respeito e a reputação têm mais importância do que a própria vida, por isso faço o que for necessário para evitar ser envergonhado e humilhado. Se tivermos algum valor, não precisamos de tirar nada de ninguém. As coisas vêm ter conosco. Seja lá o que for que precisarmos fazer, fazemo-lo sem culpas. Nada nem ninguém vai interferir na nossa vida. O agora é tudo o que existe, por isso, farei apenas o que me faz sentir bem. Não nos podemos preocupar com o que ainda não aconteceu. Sou tudo o que tenho, e alcançarei meus objetivos, ou morrerei a tentar”.
(idem. Pg.265)
Dados
20% da População – 5% de poder
Início: Há 10 mil anos
Fase da Vida: 3 aos 6 anos
Características Gerais
>Egocêntrico
>Defesa da honra
>Corajoso
>Libertador
>Criativo
>Inconseqüente, sem culpa.
>Forma-se um Ego definido.
>Crianças dizem “eu”,”meu”.
>As coisas e pessoas pertencem às crianças nessa fase
>“Senhores da Guerra”
>Rompem as tradições Púrpuras.
>“Natureza existe para ser conquistada” (explorações)
>Raiva, ódio, fúria.
>Manipulação com crueldade
>Impõe a vontade pela força
>Satisfação imediata dos desejos.
>Sobrevivência do mais forte. (A vida é uma selva).
>Dificuldades e fracassos são colocados fora do ‘eu’ (“A culpa não é minha!”).
>Não consegue poupar recursos ou manter compromissos diários.
>Organizações Vermelhas trabalham naturalmente com subornos e “coices”.
>Não há altruísmo, só troca de favores.
Exemplos
>Guerreiros medievais
>Bolsões de violência nas grandes cidades
>Idi Amin Dadá
>Estrelas do Rock
>William Wallace
>Líderes de Gangs
4º Nível – Azul – O Mítico-Conformista

Âmago do Azul
”Uma simples força dirige e controla o mundo e determina o nosso destino. A verdade permanente estrutura e ordena todos os aspectos da vida na terra, para além governar também os Céus. A minha vida tem sentido porque o fogo da redenção arde no meu coração. Sigo o caminho que está traçado, que me liga a algo superior (uma causa, crença, tradição, organização ou movimento). Defendo o que é correto, decente e bom, sujeitando-me sempre às diretivas da devida autoridade. Sacrifico de boa vontade os meus desejos no presente, na certeza de encontrar algo maravilhoso no futuro”.
Dados
40% da População – 30% do Poder
Início: Há 5 mil anos
Período da Vida: 7 a 8 anos
Características Gerais
>Existe um “certo” e um “errado” absolutos (mandamentos: “farás” ou “não farás”)
>Julgamento constante
>Se estou certo, serei recompensado por alguém (autoridade)
>Se estou errado, a punição é justa (culpa)
>Pessoas divididas em “certas, justas e boas” ou “erradas, cruéis e más”
>Existe um poder superior que controla e regula a existência humana
>Expurgação dos pensamentos impuros
>Conversão (ou eliminação) dos que pensam “errado”
>As regras são inflexíveis e devem ser seguidas rigorosamente
>Surgimento do Monoteísmo
>“O Livro” traz toda a verdade
>Sacramentos
>Fé cega
>Mentalidade de Rebanho (As “ovelhas” e um “pastor”)
>Moral rígida (estoicismo)
>Os dogmas são inquestionáveis
>Impor a Justiça e a Ordem
>”Lei, direito e Justiça”
>Disciplina
>Regras e horários
>Leis de um país
>Cordialidade
>Burocracia
>Sistema de castas
>Sofrimento físico é inspiracional
>Geralmente, o sexo é visto como sujo (deve ser estritamente reprodutivo)
>O mundo é categórico e hierárquico
>A autoridade deve ser respeitada (conformismo)
>”Foi porque Deus quis assim”, “Está ruim, mas Deus ajuda”
>Capacidade do pensamento abstrato e linear (alfabetização infantil)
>A vida tem um propósito que deve ser seguido
>Sacrificar o ‘eu’ para posterior recolha de prêmios – “Sacrifícios inspiracionais”
>Impulsividade controlada pela culpa
>“Culpa, culpa, minha máxima culpa”
>Luta da luz contra as trevas (interna e externamente)
Exemplos
>Hierarquias clericais
>Organizações militares
>Extremistas religiosos
>Beatos
>Maioria dos sistemas Absolutistas
>Monarquias Hereditárias
>Organizações Teocêntricas
>Sistema de Castas Indiano
>Pirâmide Social na Europa Medieval
>Monismo
>Religiões que lutam contra os “demônios” ou o “diabo”
>Empresas com regras e hierarquias rígidas
>Estoicismo (Zenão de Cício)
>China Confucionista
>Puritanismo americano
>Singapura
>Fundamentalismo Islâmico
>Escoteiros
5º Nível – Laranja – O Ousado-Estratégico

Âmago do Laranja
“Eu quero realizar, e ganhar, e chegar a algum lado na minha vida. O mundo está cheio de oportunidades para aqueles que agarrem-nas e que corram alguns riscos calculados. Nada é certo, mas se formos bons, jogamos com as probabilidades e encontramos as melhores escolhas entre muitas. Temos de acreditar em nós mesmos em primeiro lugar, e tudo o mais se encaixará nos devidos lugares. Não nos podemos atolar em estruturas ou regras se elas atrasarem o processo. Em vez disso, por aplicações práticas de experiências já testadas, podemos melhorar as coisas e torná-las melhores para nós. Tenho confiança nas minhas capacidades e pretendo fazer diferença neste mundo. Reunir dados, construir um plano estratégico, e depois avançar para a excelência.”
(idem. Pg. 299)
Dados
>Na Europa emerge com: a) Economia de mercado; b)Filosofia política unitária (Estado-nação); c) Ciência; d)Tecnologia (teares, imprensa); e)Emergência do Indivíduo.
>O Laranja herda do Vermelho: Poder pessoal e satisfazer os desejos do ‘eu’
>Herda do Azul: Existência determinada e reconhecimento das regras
> Esforço pela autonomia e independência
> “A boa vida” e a abundância material
>Procura das melhores soluções
>Melhorar a vida pela ciência e tecnologia
>Competição
>Um ‘eu’ ilimitado e de possibilidades sem limites
>Jogar para ganhar
>Aprender pela experiência testada
>Atuação segundo o interesse pessoal
>Maximização de lucros
>Bens de consumo e prazer materiais
>Definir metas
>Quantificação de processo
>Consumismo
>Materialismo
>Estresse
>Tecnologia
>Realização pessoal
>Manipulação (dados, pessoas, sentimentos)
>Pessoas começar a ler e ficam com fome de informação
>“Arrogante” e “salafrário”
>Subalternos vistos como incompetentes, desmotivados e estúpidos
>O elitismo cria distância interpessoal
>“É com a mudança, e não com a permanência, que a natureza funciona”
>Acredita deter o domínio sobre todas as coisas (principalmente através da tecnologia e informação)
>Há muitos caminhos possíveis, mas um é melhor
>Fé e dogma Azuis, substituídos por dados experimentais
>Oportunidades
>Autonomia
>Autoconfiança é normal
>Ganância
>Pragmático
>Dinheiro e status são provas de “sucesso na vida”
>A vitória e a realização são as verdadeiras recompensas
>Competitividade
>“A vida é um jogo; o segundo lugar é o primeiro entre os perdedores”
>Capacidade analítica na otimização de soluções
>Materialismo sobre espiritualismo
>Pragmatismo sobre o princípio ou a tradição
>Vitórias a curto prazo sobre garantias a longo prazo
>Estar diretamente envolvido (e ser creditado) pelo progresso
>Imagem contra, freqüentemente, mais que substância
>Calculistas
>“Espionagem, ligações e aliados”
>Viver está baseado na relação custo/benefícios
>Criticismo tem sangue frio e é insensível, mas honesto
>Luta-se para ganhar e ficar no topo
>Calor superficial para aqueles que são úteis, enquanto são úteis
>Dificuldade de concentração em alguém que não ele próprio
>Podem ser inescrupulosos
>O Laranja nunca é apenas cruel, já que não compensa a longo prazo
>Novidades e melhoramentos
>Avanço econômico
>Dados e inúmeros gráficos para aumentar possibilidade de boas decisões
>“Cada um é responsável por si próprio”
>Investe-se nas pessoas: não lhes dá caridade
>Ocorrem pancadas de solidão trazidas pela competição constante
>Diante do fracasso, “levanta-te, tira-te o pó e começa tudo de novo”
Exemplos
>Adam Smith
>Galileu
>Bill Gates
>O Iluminismo
>Mecanicismo
>O Método Científico
>Era Industrial
>A vida “moderna”
>Moda
>Indústria de Cosméticos
>Liberalismo e Neoliberalismo
>Colonialismo
>Iniciativa privada
>A Guerra Fria
>Classe média emergente em todo o mundo
>Despertar da China
30% da População – 50% do Poder
Início: 300 anos atrás
Fase da Vida: 9 aos 14 anos
6º Nível – Verde – O Comunitário-Relativista

Âmago do Verde
“A vida é para experimentar cada momento. Todos nós podemos compreender quem somos e o extraordinário que é ser-se humano, se aceitarmos que toda a gente é igual e importante. Todos podemos partilhar a alegria da proximidade e da realização. Cada espírito está ligado a todos os outros na nossa comunidade; todas as almas viajam juntas. Nós somos seres interdependentes à procura de amor e envolvimento. A comunidade cresce através da sinergia de forças da vida; as dimensões artificiais tiradas de toda a gente. Há uma ordem permanente no universo para aqueles que lhe estão receptivos. Atitudes más e crenças negativas dissolvem-se assim que olhamos para dentro de cada pessoa e revelamos a sua riqueza interior. Paz e amor a todos.”
(Idem. Pg. 319)
Dados
10% da População – 15% do Poder
Início: 150 anos atrás
Período da Vida: 15 aos 21 anos
Características Gerais
>Comunitário
>Igualitário
>Consensual
>Relacionamentos afetivos
>Aceitação
>Empatia
>Diálogo
>Consenso
>Proximidade
>Pluralismo
>Harmonia
>Compaixão
>Ecologia
>Espiritualidade
>Inclusão
>Filiação
>Ética situacional
>Relativismo cultural
>Relações humanas
>Anti-hierárquico
>Democracia Social
>Competitividade dá lugar à partilha, entendimento, apreciação e tolerância
>Pode ser rígido em sua exigência por “mente aberta”
>Metafísica e sentimentos começam a substituir velhas análises científicas
>A necessidade de ser aceito pode sufocar sua vontade individual
>Partilha tanto emoções como bens materiais
>Prefere o simples, e não o luxo
>Sacrificar o ‘eu’ por amor
>Inaltenticidade
>Ser amado e aceito é mais importante que vencer, ou ter ganhos materiais
>Da arrogância individualista Laranja (Sou superior a vocês), vai para a arrogância coletiva (Cada um de nós pode ser o que quiser. Todos nós temos potencial ilimitado. Nós somos o número 1!).
>Soluções homogeneizantes (Toda a educação será resolvida com mais amor).
>Análise igualitária. “Todas as pessoas são boas”. Pode se tornar bastante ingênuo.
>Todos podem falar e contribuir na troca de emoções e idéias na equipe de trabalho (a busca por resultado pode esperar).
>Pode ser bastante dissolúvel (ou cego) para o resto da espiral, na crença de que sua forma é a forma.(Não existe uma melhor forma de pensar que a outra, a não ser a idéia de que todas as formas são boas)
Exemplos
>Greenpeace
>Feminismo
>Hippies
>Patch Adams
>Carl Rogers
>Psicologia Humanista
>ONG’s
>Revolução New Age
>Direitos Humanos
>Bob Marley
>Martin Luther King
7º Nível – Amarelo – O Flexível-Sistêmico

Âmago do Amarelo
“A viabilidade deve ser devolvida a um mundo em desordem posto em perigo pelos efeitos cumulativos dos primeiros seis sistemas no ambiente e nas populações da terra. O propósito de viver é ser independente de forma razoável; acumular tanto conhecimento quanto possível; e ter preocupação com os outros, tanto quanto seja realista. E contudo, eu sou meu próprio dono, responsável por mim próprio, uma ilha num arquipélago de outras ilhas. Continuarmo-nos a desenvolver ao longo do caminho natural é mais valorizado do que lutar para ter ou fazer. Estou preocupado com as condições do mundo por causa do impacto que elas têm em mim como partes desse sistema vivo”.
(Idem. pg. 336)
Dados
1% da população – 5% de poder
Início: 50 anos atrás
Características Gerais
• Aceitar a inevitabilidade dos fluxo e formas da natureza
• Concentrar na funcionalidade, competência, flexibilidade e espontaneidade
• Descobrir misturas naturais de “verdades” e “incertezas” conflitantes
• Descobrir a liberdade pessoal sem prejudicar os outros ou os excessos do interesse pessoal
• Experienciar a plenitude de viver numa Terra com tanta diversidade em dimensões múltiplas
• Exigir sistemas integrativos e abertos
8º NÍVEL: TURQUESA (HOLÍSTICO)

Sistema holístico universal, hólons/ondas de energias integrativas; une sentimento e conhecimento; múltiplos níveis interconectados num sistema consciente. Ordem universal, mas num modo vivo e consciente, não baseado em regras externas (azul) ou ligações de grupo (verde).
Dados
0,1% no nível turquesa, 0% no poder
Características Gerais
É possível uma “grande unificação” em teoria e na prática. Algumas vezes envolve a emergência de uma nova espiritualidade como uma teia de toda a existência. O pensamento turquesa usa a espiral completa; vê múltiplos níveis de interação; detecta harmônicos, as forças místicas e os estados de fluxos que permeiam todas as organizações
A diretriz fundamental é a saúde da espiral completa e não o tratamento preferencial para algum nível específico.
Onde é encontrado: com apenas 1% da população no pensamento de segunda-camada (e somente 0,1% no nível turquesa), a consciência de segunda-camada é relativamente rara, sendo, atualmente, a “ponta de lança” da evolução coletiva da humanidade.
Como exemplos, Beck e Cowan mencionam itens como a noosfera de Teilhard de Chardin e o crescimento da psicologia transpessoal, com aumentos na freqüência definitivamente a caminho – e mesmo níveis mais elevados em futuro próximo.
(Excertos do livro Integral Psychology de Ken Wilber)
Self holístico
Pensamento meditativo
misticismo natural
auto-transcendência
visão psíquica
alma do mundo
individualismo coletivo
hyper-lógica mente iluminada
percepção transpessoal autêntica
estruturas globais
reconciliação global
todos os seres vivente sem exceção
Além do turquesa, haveria níveis corais e formais ainda mais elevadas de consciência.
Reflexões sobre o livro A Dimensão Espiritual do Eneagrama
22/07/09
Peço perdão aos meus visitantes, pois não consta aqui nenhum outro texto sobre o eneagrama e vou fazer referências em “eneagramês”, mas acho que para os que já leram o livro, poderá servir de reflexão. Vou assumir uma postura crítica com relação ao livro, já que os pontos fortes do estudo do eneagrama são muitos, vou me ater aos pontos que considero fracos ou perigosos, uma atitude tipicamente 1 e 6.
Comecei a ler o livro A Dimensão Espiritual do Eneagrama de Sandra Maitri com uma grande expectativa. Uma década atrás o eneagrama tinha sido uma das ferramentas mais poderosas que entrei em contato, junto com homeopatia, florais, budismo e um monte de coisas que aos poucos foram me convertendo de estudante de direito em terapeuta.
A introdução do livro começa com uma idéia de que não é a experiência familiar de cada tipo que vai definir sua tipologia, mas que esse é um problema mais complexo segundo a autora, por exemplo, isso não explica quando irmãos têm experiências parentais completamente diferentes. Ou sejam são filhos dos mesmos pais, mas são tipos diferentes. Vale a célebre frase de Sartre: “não importa o que nos acontece, mas como reagimos a ela.” Ela levanta uma hipótese genética da tipologia que me parece ser possível dentro das pesquisas de psicologia evolutiva e da moderna neurociência. Complicado isso, mas diferente da proposta por Naranjo e me pareceu bem origina. Infelizmente não durou a minha animação, logo depois ela vai e afirma que a personalidade vem na “idéia da mãe sobre o filho” e vem no “leite manterno”, uma pena.
Ela introduz rapidamente, ainda no ínício do livro, a noção de idéia divina, que parece nova, e diz ter vindo do Almaas, pra Idéia divina do Ser parece ainda está dentro do sistema do eneagrama, sendo uma extrapolação das “virtudes do tipo”, é uma visão muito ainda dentro do eneagrama, não é uma superação apenas uma dimensão literalmente idealista do tipo.

Mesmo superando o sofrimento original do tipo, ainda é preciso superar o nível de progamação do eneagrama, partindo para sistemas de leis mais amplas do que as leis que regem o eneagrama. No exemplo do quarto caminho, caminha-se entre os mundos e leis de complexidade, sendo o eneagrama expressão dessas leis numéricas. Quando mais leis, mais restrita a experiência de mundo, ou seja, menos ação livre.
Não vejo nada demais no conteúdo em si, ela simplesmente pegou o que Naranjo ensinou e não publicou, mas a sua experiência no grupo de trabalho do eneagrama com Naranjo e explorou com idéias meio “nova era” do tipo, essência, alma, Ser, idéia, natureza da alma, sem definir o que vem a ser essas coisas. Mas a intenção pareceu-me ser muito boa, embora supeficial.
Uma idéia apresentada no livro que eu não gosto é essa de identificar com a infância os estados transpessoais da experiência. A idéia de paraíso perdido, de queda do ser, que o Naranjo chama de obscurecimento ôntico, ou esquecimento do ser, embora ache que são noções com nuances bem diferentes eu passei a compreender que são bem problemáticas. Eu durante muito tempo cultivei essa idéia de paraíso perdido, (sobre o tema recomendo um livro do Pierre Weil chamado a neurose do paraíso perdido) de perda da essência. Em Freud, por exemplo, a idéia de viver essa experiência do Ser, está ligada a noção de regressão infância, ao narcisismo primário, facilmente confundido com o que a autora apresenta, mas pra Freud, e eu concordo com ele em parte, isso é uma experiência narcisista, ou seja volta-se sobre si mesmo e retorna a experiências pré-egoicas descritas como oceânicas ou uterinas, de indiferenciação. Jung vai pro extremo oposto, considera que todas as imagens emergentes são transpessoais, ou seja, arquetípicas. Enquanto Freud leva todas as experiências para o nível pré-egoico, infantil, Jung as considera trans-egoicas, acho que os dois extremos são precisam ser diferenciados e podem ocorrer durante o estudo do eneagrama ou seu uso na prática clínica.
A idéia do texto, de retorno ao ser perdido, reencontro da criança anímica, do eu verdadeiro perdido em algum momento é muito ingênua. É claro que os níveis transpessoais da experiência são níveis de organização mais complexos e profundos, ou altos se preferir, e não se tratam de regressões narcisistas a estados de indiferenciação. Ao contrário, são processos de diferenciação e integração com o corpo, com emoções com pensamentos e depois com a emergência de um pensamento transverbal e não-dual. Eu reafirmo essa crítica porque anos atrás, eu confundia muito esse tema e não percebia essas nuances.
Outra questão séria, que pra mim é um erro perigoso e “nova era” é querer desintegrar o Ego, essa abordagem é extremamente perigosa e pode gerar graves estados de desequilíbrios psicológico. É praticamente uma proposta e convite a pessoa entrar num estado psicótico, a idéia de destruir o ego, ver o ego como inimigo, como falso eu. Não há porque “desintegrar” o ego, mas colocá-lo a “ser-viço do Ser”, capaz de refletir a dimensão noética, transpessoal, cósmica, ir além do ego. Cuidado com isso de desintegrar o ego, o que pode acontecer de verdade é isso acarretar uma cisão da personalidade, enquanto o caminho da ampliação da consciência é um caminho de reintegração e integração, ou até “entregação”,
Concordo muito com idéia de que o 9 é a porta de entrada e de saída do eneagrama. Embora ela não chegue a afirmar isso, dá pistas nesse sentido. Em geral a apresentação e a importância dada dos tipos triangulares na gênese das fixações é bem interessante, mas fica faltando descrever o caminho pra fora disso que na minha opinião passa também pelo triangulo também.

Outra percepção equivocada se dá na noção que a “queda” do tipo, se dá por uma perda da idéia divina, no caso do 9 do amor divino. Isso não faz sentido, nós só reconhecemos esses estágios mais complexos e ampliados depois, não há que se perder uma idéia de divina se ainda nem temos algo chamado idéia. No caso do budismo, um mestre reconhecido, não sai ensinando tudo quando é criança (por mais sensibilidade e brilho que ele possa demonstrar), ele precisa educar a mente para se tornar o veículo de manifestação de uma sabedoria transcendental.
Na minha auto-análise, o que define e organiza o tipo 9 na sua percepção equivocada da realidade, sua “queda”, é a idéia de “mudança do mundo” que se opõe a inércia do tipo. A compaixão (no sentido budista do termo) como abertura de sentido radical perante a realidade, ou mesmo o voto do Bodisatva, de que se recusa a sair de Sansara enquanto todos não estiverem libertos e por isso mesmo, abre mão da iluminação, como condição para conquistá-la, é o passo mais nobre do caminho 9 e também o passo para fora do eneagrama em direção a estados mais elevados de consciência que podemos chamar de nirvana, embora não ache que nenhum nome possa descrever essa etapa, pois seja o que for, é apenas mais uma etapa, a evolução da consciência é infinita, não tem essa de dizer, cheguei, estou no topo da montanha, daqui não tenho mais nada o que vivenciar, encontrei a verdade ultima do universo, mesmo os mais iluminados, estão todos em evolução.
Aqui o tipo 9 tem uma outra coisa muito importante pra ensinar, é um equivoco achar que em estados elevados de consciência você sofre menos. É a promessa de todos os profetas, mas o fato é, que quanto mais consciente, mais sensível, mais você sofre, a diferença, que faz toda a diferença é só que não se identifica mais com esse sofrimento.
Acho totalmente desnecessário pegar pessoas com as quais não se convive para fazer uma leitura eneagramática. Claro que existem ícones estereotipados, mas só mesmo a pessoa pode descobrir seu tipo investigando ou se colocando em análise. Essa coisa de dizer fulano é isso ou aquilo é uma bobagem e serve pra que? Eneagrama só funciona olhando pra dentro, não pra fora.
No texto, aparece um mix total de níveis. É minha principal dúvida com relação aos avanços do eneagrama nos últimos tempos é se foi possível organizar por níveis de consciência. Se ficou claro os níveis em que os tipos podem estar, um tema que pra mim ainda está faltando, não encontrei.
O problema desses livros que li, de alunos do Naranjo, é que falta a descrição estrutural do tipo e o insight profundo e detalhado do professor chileno, isto é, se você entende o mecanismo básico de condicionamento do comportamento, não é a exterioridade objetiva desses comportamentos que determina o tipo. Em tese, todos os tipos podem ter todos os comportamentos – em tese – mas a motivação de deficiência que origina esse comportamento é aparece para o agente, seu equivoco, sua fixação, seu tipo, sua estrutura que fica com uma ferida original, para onde sempre volta.
Vale fazer então, para que isso não vire uma monte de comentários desarticulados, uma reflexão sobre estados e estágios. Os “estados” são efêmeros, todos podem experimentar a fé, amor, sobriedade, visão intuitiva, perfeição, coragem, desapego ou mesmo experiências não duais de estar mergulhado no instante e sentir-se um com o universo; pode acontecer com qualquer um.
A questão é, a meu ver, mudarmos o nível ou “estagio” de consciência que se torna então referência para sua visão de mundo mesmo dentro de qualquer tipo. Gosto pessoalmente da dinâmica da espiral para pensar essa questão, principalmente por propor níveis emergentes de consciência e por ofertar pesquisas estatísticas sobre seus estágios.
Sigo minhas críticas com a afirmação da autora de que iluminação é só se desidentificar com o ego, alcançar a idéia divina do tipo, me parece uma noção ainda muito restrita. Infelizmente, com o eneagrama fora da tradição, sufi, budista ou do quarto caminho, não temos como saber o que fazer, na prática, porque não temos um grupo pra nos dizer que o que estamos percebendo não é nada de muito importante, pois no caminho, cada nova emergência que surge é mais um ponto de identificação. Essas idéias “divinas” são um ESTADO superior vividos principalmente pelos próprios tipos dessas idéias, não parece em nenhum momento caracterizar um ESTAGIO superior.

Outra problemática com relação a idéia divina, muito comum e perigosamente sedutora é a descrição dos estados “superiores” de consciência dentro do que a autora chamou de idéia divina. O problema com a ênfase nesses estados é uma contradição com noção fundamental apresentada inclusive no início do texto, de que o Ser está pronto que basta retirar o condicionamento que ele emerge.

Ora, se isso é verdade, não faz sentido ficar descrevendo essas “idéias divinas”. Pra mim, isso parece uma concepção de influencia religiosa cristã que permeia o estudo do eneagrama. Assim, acabamos por querer esses estágios ou ficar orgulhosos do nosso potencial superior, ou “querer” esses estados superiores, se identificar com eles o que seduz.
Principalmente nesse contexto de que nós devemos todos nos aprimorar, nos tornar melhores, nos aperfeiçoar, essa cultura do “investir em si mesmo é o grande negócio” que permeia o estudo do eneagrama. Pode-se facilmente, principalmente para os tipos 1, ficar achando que dentro do próprio tipo, é possível encontrar a PERFEIÇÃO DIVINA. Parece mesmo um platonismo e o mundo das idéias divinas.
No caso do Naranjo, seu livro cita os pecados capitais, que considero muito preciso a forma como ele faz isso, mesmo porque ele situa dentro de uma tradição que encara o trabalho sobre si, o trabalho de autoconhecimento dentro da tradição ocidental cristã.

Tal como na divina comédia, o capítulo sobre o purgatório é muito maior do que as descrições celestiais. Assim também no eneagrama devemos passar mesmo mais tempo encarando o tipo e sua prisão existencial do que querer fugir para paraísos ou estados de narcotização tipicamente 9, mas que se aplicam a todos os tipos. Jung falava que não é olhando para o ouro que se transforma chumbo em ouro, mas olhando para o chumbo e vendo que o chumbo é chumbo. Eis a chave a da alquimia, da transformação interna da energia psíquica.

Uma das coisas que me provocou risos, dentro dessa crença de que podemos exteriormente classificar qualquer pessoa. Esse uso do eneagrama em empresas na área de recursos humanos, do marketing, foi a afimação de que Krishnamurti seria um tipo 6. Imagine que uma figura que se apresentava para além de um pensamento dual, uma radicalidade absoluta da observação de si, poderia estar qualificado como um tipo.
Quero, entretanto, abrir um parêntesis, numa meta-discussão, séria para falar uma coisa sobre o eneagrama. Se me perguntam, você é um tipo 1? Eu digo sim, sou muito perfeccionista e detalhista. Se me dizem, eu te saquei, você é um tipo 7, eu digo, com certeza eu me vejo no 7. Se me acusam de autoritário afirmando que sou um tipo 8 eu também afirmo que sim e se por fim reclamam de mim porque sou nerd e não vou pras farras com os amigos, eu digo, é porque sou um tipo 5, se trato muito bem as pessoas e me perguntam se sou um tipo 2 que ando carente eu digo claro que sim e aproveito todo carinho do mundo.
Se não me perguntam, não digo meu tipo, e nem recomendo que digam fora de um contexto terapêutico, porque a visão que as pessoas tem sobre o eneatipo normalmente é centrado numa posição egoica que não suporta se confrontar com sua condição de prisionairo, isso contamina as relações, estreita o olhar e levanta todos os preconceitos. Pois é muito mais fácil ver o pecado alheio e atirar pedras. Assim, mesmo aqueles que têm pecados, todos atiram pedras nos seus próprios pecados.
O eneagrama se torna uma ferramenta de tortura de si e do outro, uma forma não de facilitar com que o outro se liberte, mas profundamente, uma forma de reforçar os condicionamentos e causar alienação existencial. Por isso, o eneagrama não era ensinado ou transmitido fora de uma tradição oral, nas correntes mais profundas do misticismo pré-islámico. Por isso eu parei há anos de ensinar o eneagrama ou mesmo a pensar com ele sobre as pessoas.
Voltando ao livro, ele só se justifica no contexto onde o eneagrama chega e se populariza. Na hora que o Naranjo decidiu, sob juramento dos membros de não divulgar as idéias, formar o grupo SAT nos Estados Unidos. Daí, em seguida, Helen Palmer e seus outros alunos começaram a publicar seus estudos e livros sobre o eneagrama baseadas no ensinamento do Naranjo e Oscar Ichazo. Na tradição, isso não tem nenhum problema, porque você transmite tal como aprendeu, com seu mestre, e pronto, não tem que ser original, principalmente num símbolo e situado na tradição perene do sufismo, embora nem todos os sufis concordem com isso.
Enfim, quando Naranjo publica seu livro. Os autores que vieram depois e foram seus alunos, tiveram que “inventar” algo novo. O que na tradição seria um absurdo completo! Claro que os discípulos transmitem o seu entendimento e a profundidade que alcançaram dentro da tradição e muitas vezes trazem novos dados, mais atualizados, dentro dos seus “estilos”. Mas no campo do comércio e dos direitos autorais, isso muda muito. Veja um link sobre essa questão escrito por Ichazo que foi o criador dessa leitura toda do eneagrama da personalidade discutindo argumentando direitos autorais com Helen Palmer.
Em termos de psicanálise, a autora claramente não está familiarizada profundamente com nenhum dos pressupostos psicanalíticos no campo da constituição do ego nem mesmo da personalidade. Tudo vira uma coisa só, uma confusão teórica típica. As principais idéias, embora diluídas, são TODAS, trazidas de Naranjo e da escola de Arica. Até mesmo os autores citados como Karen Horney são apresentados como se fossem uma relação feita por ela.
Gosto tanto do eneagrama, é uma ferramenta tão preciosa, que fico triste ao ver que o que eu achava há 10 anos atrás continua valendo para o estudo do eneagrama, mas eu vou continuar buscando. Na época, havia pesquisas bem interessantes no campo da inteligência artificial e outros temas que parecem muito promissores. Mas pelo que andei percorrendo nos sites que consultava nos primórdios da internet, todo mundo criou seu grupinho, escreveu seu livro e vendeu como se fosse algo novo, fiz um passeio pelos sites e realmente, várias novas organizações dizendo ser as fontes do verdadeiro eneagrama.
Bem, outra coisa que me incomoda profundamente é o uso dos anéis e dos buracos. Isso é uma clara referência aos anéis das couraças musculares de Reich que Naranjo mais uma vez já apontava a relação. Aqui eles aparecem como um ente metafísico associado aos tipos. Sério mesmo, o nome disso é “tipo 3”, marketing, maquiagem, roupagem nova pro mercado mais fácil de engolir, tudo bem, tem gente que gosta de andar na moda, eu mesmo quando comecei a ler o livro queria me atualizare ficar “in”.
Eu tentei uma vez apresentar o eneagrama pra ser estudado no mestrado em psicologia. Meu projeto não passou apesar de eu ter o orientador certo e tudo mais e por quê? Por causa dessa roupagem de auto-ajuda que os livros sobre o eneagrama ganharam depois de Naranjo. O argumento era exatamente o de não poder legitimar uma coisa “new age pop” na universidade. Claro que não é o melhor agumento, mas pra um ramo da psicologia que já desconstruiu a noção de sujeito e subjetividade, falar de personalidade é uma coisa do século passado. Que só serve mesmo pra esse uso discriminatório que vem sendo feito com eneagrama no ambiente de trabalho. Anos atrás, muitos anos atrás, eu dei cursos em grandes empresas como a Ponte S/A, ensinando o eneagrama, era um esforço tremendo. Alguém vinha me dizer, eu sou um tipo 8, eu virava sério, olhava nos olhos e dizia: Eu não acredito,você não me engana, você é um ser humano!
Aliás, pra mim, foi o capitulo mais interessante o do tipo 3. Termina bem escrito e com um certo grau de inspiração. Talvez porque a sociedade americana esteja tão identificada com o tipo que foi mais fácil para a autora abordar o tema. Essa identificação é tão forte, a ponto de não aparecer como um desequilíbrio, segundo Naranjo, nos manuais psicométricos americanos, enfim, não se consegue enxergar seu próprio estilo como destoante. Nossa percepção parcial da realidade parece sempre ser a mais correta.
O capítulo sobre o tipo 1 tem um equivoco enorme de considerar a virtude do tipo uma noção de perfeição. Isso é péssimo, a idéia que libera o tipo 1 pra mim é a aceitação e não a percepção de que está tudo perfeito que geraria uma enorme inércia perante o mundo. Enfim, eu acho que vou era pra ser um simples resenha e eu vou acabar reescrevendo o livro. [Xiii, tô no tipo 1.:-)]
Entre vários, um exemplo do caos conceitual descrevendo a “idéia divina do tipo 4”:
“Neste caso, não nos vemos como produtos que nascem do Ser, mas como o Ser Mesmo. Não estamos ligados ao Ser — somos o Ser. Somos a Origem. Nesse nível, pois, identificamo-nos com o próprio Ser, e não com a encarnação isolada que o manifesta. Assim como a compreensão da Origem Divina alcança níveis cada vez mais universais, assim também a compreensão que temos do Ser torna-se progressivamente mais profunda. Nossa experiência do Ser começa com a experiência da Essência, da natureza íntima de cada um de nós, e culmina com a experiência do Absoluto, de um estado que está além de todas as possibilidades de concepção e até mesmo da consciência.”
Uma total falta de precisão conceitual. O uso da noção de ser, ser mesmo, origem, próprio ser, encarnação isolada, personalidade, ego, fixação é usada uma pela outra com a mesma imprecisão.
Há referências constantes no texto ao “Caminho do Diamante”, o nome é bom, parece ser algo precioso, mas eu vou ter que ler a fonte. Pois a exposição no texto dos conceitos ficam totalmente sem sentido o que não significa que a fonte dos ensinamentos não possa ser muito boa.
Em síntese.
O livro vale a pena ser lido embora as principais idéias não sejam novas e as áreas que tenta ampliar pra mim faltam profundidade, porém achei a leitura proveitosas e não foi cansativa.
A parte que mais gostei do livro é o epílogo que transcrevo em parte, e acho que deve ser a coisa mais importante pra quem se dispõe a estudar o eneagrama como ferramenta de autoconhecimento.
Para concluir, gostaria de voltar à idéia de Gurdjieff, discutida no começo do livro, de que o eneagrama é um símbolo multidimensional que engloba “tantos significados quantos são os níveis dos homens”. Parece-me importante reiterar esse ponto, para que ninguém fique com a impressão de que as coisas que eu disse no livro são a última palavra sobre as diversas nuances desse símbolo. Muito pelo contrário: meu objetivo terá sido atingido se eu tiver dado aos leitores temas de reflexão e indicado certas vias de investigação pelas quais possam eles mesmos aprofundar a sua compreensão do eneagrama e de si próprios. O eneagrama assemelha-se a um código; precisamos conhecer algumas das chaves para podermos penetrá-lo e decifrá-lo de modo que sua sabedoria possa revelar-se a nós, e foi com esse objetivo que escrevi o livro. Em segundo lugar, como Gurdjieff também dizia, o eneagrama nos dá um grande poder. As informações nele comidas podem nos afetar e até nos abalar profundamente, e por isso quero repetir o que já disse na Introdução: não o use descuidadamente, nem consigo mesmo nem com os outros. Já vi muitas pessoas sentir-se tratadas como objetos enquanto outras discutiam em alta voz as características delas na tentativa de determinar-lhes o tipo. A outra pessoa pode sentir-se ferida se você começar a analisá-la sem que ela lhe peça, ou pode sentir-se atacada se você, sem consideração alguma pelas vontades dela, procurar conscientizá-la de algo que é, por enquanto, subconsciente. Acima de tudo, é absolutamente errado usar o eneagrama como munição para criticar ou julgar outra pessoa. Ao usá-lo consigo mesmo, lembre-se que o objetivo dele não é dar mais força ao superego. É, isto sim, ajudar você a compreender-se de maneira mais profunda e, mediante essa compreensão, abrir o seu coração à compaixão por você mesmo e por todos os outros seres. Em terceiro lugar, o eneagrama não passa de um mapa. Tanto ele quanto as informações que ele nos dá acerca da alma humana e do seu progresso não são fins em si mesmos. Por mais fascinante que se afigure a tarefa de extrair e decifrar mais conhecimentos do eneagrama, essas informações não nos farão bem nenhum se não forem colocadas em segundo plano, atrás da experiência direta, e se não servirem à função de colaborar para o nosso desenvolvimento pessoal. Por si sós, as informações contidas no eneagrama e neste livro não são uma panacéia — não podem, de modo algum, dar respostas a nossas perguntas, solucionar nossos problemas ou fazer-nos entrar de novo em contato íntimo com as profundezas da alma. Não passam de informações cuja função é a de nos orientar no trabalho interior; e, a menos que esse conhecimento seja posto a serviço da prática, de nada nos beneficiará. Se permanecer somente intelectual, poderá até nos estimular a mente e transformar-se num gostoso tema de conversas e diversões, mas nada disso pode ser confundido com a verdadeira obra de transformação. Essa empreitada não é rápida nem é fácil. Não tive dificuldade para resumir em poucas páginas as diretrizes que cada tipo precisa seguir em seu trabalho interior a fim de lograr uma verdadeira transformação pessoal. Porém, a obra concreta de trabalhar e retrabalhar a personalidade, de modo a tornar cada vez menos turva e cada vez mais transparente a nossa alma, leva muitos anos, por maiores que sejam a nossa dedicação e o nosso empenho. Além disso, não é trabalho que se faça sozinho. Como a transformação verdadeira exige a superação da força inercial de identificação com a personalidade, em geral é necessário o apoio de uma fraternidade espiritual ou de um Grupo de Trabalho. E na maioria das vezes a orientação de um mestre é imprescindível para o bom sucesso da Jornada, uma vez que tornar-se consciente significa passar a ver as coisas para as quais somos cegos. Nessa Jornada, cada qual precisa encarar certos aspectos dolorosos de si mesmo, às vezes até aspectos profundamente assustadores, que permanecem escondidos nos recessos da alma. Em definitivo, as coisas parecem piorar antes de melhorar, na mesma medida em que nos aproximamos de algumas faixas mais profundas da personalidade, com seus abismos e energias primitivas que às vezes nos dão a impressão de que vão nos engolir e arrastar. Não é uma caminhada fácil, e exige um grau de franqueza e sinceridade que só é possível para quem se sente pessoalmente motivado a conhecer o seu verdadeiro ser, para quem a revelação da verdade — por mais dolorosa que seja — dá alegria ao coração. Para os que optam por empreendê-la, traz ela recompensas infinitas. Um universo inteiro nos espera dentro de nós, infinitamente vasto, cheio de paradoxos, de requintes e de surpresas.
Eis abaixo um pouco de Krishnamurti, pra mim, a personificação do pensamento integral.
Tratamento com Acupuntura e Níveis da Doença
13/07/09
Inspirado nas idéias de Ken Wilber gostaria de deixar algumas reflexões sobre o tratamento baseado na medicina oriental e tantas falácias que as acompanham.
Recentemente fui banido temporariamente de uma comunidade de acupuntura por dar ênfase à idéia de que a teoria dos cinco elementos na acupuntura tinha pouca aplicação prática, isso despertou muitos comportamentos pré-racionais porque muitos praticantes de acupuntura estão ainda situados dentro do movimento da nova era. Para eles os cinco elementos são doutrinas fundamentais para a prática da acupuntura, sem ela não se pode praticar acupuntura. Discordo disso, mas vou deixar o assunto para outra reflexão e os que quiserem saber mais sobre os cinco elementos podem assistir meu DVD sobre os cinco elementos.
Eu mesmo fui muito influenciado pela cultura da “nova era” nas úttimas décadas, mas no estudo da psicologia e da filosofia perene pude perceber que não há nada de novo no conhecimento trans-racional, intuitivo e holístico. Há uma diferença da crença no pensamento mágico que resolve tudo com uma agulha mágica e milagrosa e na intuição pós-racional que percebe a sincronicidade e intepreta símbolos e sentidos nas manifestações e sintomas patológicos.
Assim, acupuntura, sendo baseada em uma abordagem holística do céu, do homem e da terra, é na relação entre essas três dimensões que ocorre a desarmonia, o adoecimentos isso implica em muitas questões relevantes.
Primeira crença comum: Adoecemos pelo nosso estilo de vida, pela nossa atitude mental e pela nossa crença no mundo ou pelo estado do nosso espírito, ainda na acupuntura clássica pelo efeito de demônios e outras influências metafísicas.
Em resumo há quem diga que “você está doente porque escolheu estar doente.” Essa afirmação gera uma enorme culpa e não ajuda em nada.
Mudar atitude perante uma doença, encontrar o caminho que a doença aponta, reorientar o sentido, o desejo que as doenças nos provocam, os desvios, a busca pelo sentido, tudo isso é importante para o sujeito, mas para o terapeuta é preciso estar atento às armadilhas desses pressupostos.
Ok, esses elementos contribuem e podemos dividir as causas das doenças em físicas, emocionais, mentais e espirituais. Mas o grande problema neste tema é que há os que dão ênfase aos temas espirituais e estão sempre querendo curar o espírito ou colocá-lo em harmonia com a natureza, as estações do ano e as estrelas ou mesmo o Yi Jing.
Acredito que esses elementos podem causar doenças, mas diferente do pensamento da Nova Era e certo espiritualismo brasileiro essas não são as únicas causas das nossas doenças e talvez nem mesmo as mais importantes. Dar ênfase ao espírito em detrimento do corpo é uma atitude tão narcisista como ficar horas numa academia cuidando do corpo sem interioridade, sem cuidar da alma.
Adoecemos não apenas por nosso karma, mas por ações dos outros, de acidentes, das relações interpessoais, temos doenças bio-psico-sociais como quer a OMS.
A medicina materialista e racionalista dá ênfase a natureza material da doença e é muito importante considerarmos começar de baixo para cima. Cuidar do corpo e examinar todas as possibildades, cuidar do emocional, do mental e do espiritual. Se ficamos apenas em um desses níveis, perdemos a visão do todo.
Ao invés de pressupor que as doenças começam no nível mais alto, celestial, causal, kármico para se manifestar no mundo. Há no mínimo uma interação entre esses níveis de baixo pra cima e de cima pra baixo e a atitude mais inteligente é acertar no diagnóstico desse nível.
Assim, uma perna quebrada pode alterar psiquicamente, bem como, psiquicamente podemos adoecer o corpo abaixando nosso sistema imunológico, comendo demais, estressados. A neuroimunologia já comprova os efeitos psíquicos sobre o corpo e há milênios os mestres orientais nos falam dessa condição do Shen, espírito-vitalidade sobre o corpo e o prognóstico das doenças.
Assim, ficamos mais seguros indo do corpo para as emoções, para a mente, para o espírito. Começar do espírito e cuidar apenas do espírito é uma atitude terapêutica tão parcial quanto procurar doenças apenas nos exames laboratoriais.
Do contrário, podemos gerar, segundo Wilber e sua esposa que morreu de câncer, duas emoções muito negativas. De um lado, ao adoecemos nos culpamos por estarmos doentes ou então, quando estamos psiquicamente ou espiritualmente doentes e somos tratados num nível errado como apenas no corpo, criamos desespero e desordem total.
Como psicólogo praticante de medicina chinesa, reconheço a materialidade da abordagem chinesa bem como as sutilezas de conceitos como Qi, sopro, ou mesmo como hun, alma etérea e tantos outros aspectos imateriais na relação com as patologias.
Mas há uma enorme diferença entre considerar a psicossomática, a relação mente corpo como a psicogênese das doenças. Achar que está resfriado porque você está muito triste ou melancólico é uma visão muitíssimo estreita e que comumente acontece numa interpretação reducionista do sistema de correspondências oriental baseada nos cinco elementos. Neste sistema o pulmão se relaciona com a tristeza e melancolia.
Assim na abordagem holística ou integral da terapia devemos estar atento ao nível da demanda de cada paciente e de manifestação e causa de cada enfermidade.
Como psicólogo, fico mais atento à dimensão emocional e mental das enfermidades, mas como praticante de acupuntura preciso entender que o paciente tem apenas uma torcicolo ou dor de cabeça e que aquilo não necessariamente se traduz numa atitude equivocada perante o mundo ou em uma somatização.
Já recebi muitos pacientes se sentindo enormemente culpados por apresentarem um sintoma complexo em busca de psicoterapia e ao final, migraram para uma terapia energética com ênfase em acupuntura onde os resultados, mesmo que lentos, chegaram para ficar.
Por mais que visualização criativa e tantas outras técnicas que operam com símbolos possam ter enorme efeito, é preciso estar atento ao nível do adoecimento. Dar a cada um o que precisa na medida da sua necessidade nos ensinava Aristóteles sobre a justiça. Uma terapia justa deve estar atenta a essa dimensão.
Mário
para mais informações sobre acupuntura:


últimas discussões