Inspirado nas idéias de Ken Wilber gostaria de deixar algumas reflexões sobre o tratamento baseado na medicina oriental e tantas falácias que as acompanham.

Recentemente fui banido temporariamente de uma comunidade de acupuntura por dar ênfase à idéia de que a teoria dos cinco elementos na acupuntura tinha pouca aplicação prática,  isso despertou muitos comportamentos pré-racionais porque muitos praticantes de acupuntura estão ainda situados dentro do movimento da nova era. Para eles os cinco elementos são doutrinas fundamentais para a prática da acupuntura, sem ela não se pode praticar acupuntura. Discordo disso, mas vou deixar o assunto para outra reflexão e os que quiserem saber mais sobre os cinco elementos podem assistir meu DVD sobre os cinco elementos.

Eu mesmo fui muito influenciado pela cultura da “nova era” nas úttimas décadas, mas no estudo da psicologia e da filosofia perene pude perceber que não há nada de novo no conhecimento trans-racional, intuitivo e holístico. Há uma diferença da crença no pensamento mágico que resolve tudo com uma agulha mágica e milagrosa e na intuição pós-racional que percebe a sincronicidade e intepreta símbolos e sentidos nas manifestações e sintomas patológicos.

Assim, acupuntura, sendo baseada em uma abordagem holística do céu, do homem e da terra, é na relação entre essas três dimensões que ocorre a desarmonia, o adoecimentos isso implica em muitas questões relevantes.
Primeira crença comum: Adoecemos pelo nosso estilo de vida, pela nossa atitude mental e pela nossa crença no mundo ou pelo estado do nosso espírito, ainda na acupuntura clássica pelo efeito de demônios e outras influências metafísicas.

Em resumo há quem diga que “você está doente porque escolheu estar doente.” Essa afirmação gera uma enorme culpa e não ajuda em nada.
Mudar atitude perante uma doença, encontrar o caminho que a doença aponta, reorientar o sentido, o desejo que as doenças nos provocam, os desvios, a busca pelo sentido, tudo isso é importante para o sujeito, mas para o terapeuta é preciso estar atento às armadilhas desses pressupostos.

Ok, esses elementos contribuem e podemos dividir as causas das doenças em físicas, emocionais, mentais e espirituais. Mas o grande problema neste tema é que há os que dão ênfase aos temas espirituais e estão sempre querendo curar o espírito ou colocá-lo em harmonia com a natureza, as estações do ano e as estrelas ou mesmo o Yi Jing.

Acredito que esses elementos podem causar doenças, mas diferente do pensamento da Nova Era e certo espiritualismo brasileiro essas não são as únicas causas das nossas doenças e talvez nem mesmo as mais importantes. Dar ênfase ao espírito em detrimento do corpo é uma atitude tão narcisista como ficar horas numa academia cuidando do corpo sem interioridade, sem cuidar da alma.

Adoecemos não apenas por nosso karma, mas por ações dos outros, de acidentes, das relações interpessoais, temos doenças bio-psico-sociais como quer a OMS.

A medicina materialista e racionalista dá ênfase a natureza material da doença e é muito importante considerarmos começar de baixo para cima. Cuidar do corpo e examinar todas as possibildades, cuidar do emocional, do mental e do espiritual. Se ficamos apenas em um desses níveis, perdemos a visão do todo.

Ao invés de pressupor que as doenças começam no nível mais alto, celestial, causal, kármico para se manifestar no mundo. Há no mínimo uma interação entre esses níveis de baixo pra cima e de cima pra baixo e a atitude mais inteligente é acertar no diagnóstico desse nível.

Assim, uma perna quebrada pode alterar psiquicamente, bem como, psiquicamente podemos adoecer o corpo abaixando nosso sistema imunológico, comendo demais, estressados. A neuroimunologia já comprova os efeitos psíquicos sobre o corpo e há milênios os mestres orientais nos falam dessa condição do Shen, espírito-vitalidade sobre o corpo e o prognóstico das doenças.
Assim, ficamos mais seguros indo do corpo para as emoções, para a mente, para o espírito. Começar do espírito e cuidar apenas do espírito é uma atitude terapêutica tão parcial quanto procurar doenças apenas nos exames laboratoriais.
Do contrário, podemos gerar, segundo Wilber e sua esposa que morreu de câncer, duas emoções muito negativas. De um lado, ao adoecemos nos culpamos por estarmos doentes ou então, quando estamos psiquicamente ou espiritualmente doentes e somos tratados num nível errado como apenas no corpo, criamos desespero e desordem total.
Como psicólogo praticante de medicina chinesa, reconheço a materialidade da abordagem chinesa bem como as sutilezas de conceitos como Qi, sopro, ou mesmo como hun, alma etérea e tantos outros aspectos imateriais na relação com as patologias.
Mas há uma enorme diferença entre considerar a psicossomática, a relação mente corpo como a psicogênese das doenças. Achar que está resfriado porque você está muito triste ou melancólico é uma visão muitíssimo estreita e que comumente acontece numa interpretação reducionista do sistema de correspondências oriental baseada nos cinco elementos. Neste sistema o pulmão se relaciona com a tristeza e melancolia.
Assim na abordagem holística ou integral da terapia devemos estar atento ao nível da demanda de cada paciente e de manifestação e causa de cada enfermidade.
Como psicólogo, fico mais atento à dimensão emocional e mental das enfermidades, mas como praticante de acupuntura preciso entender que o paciente tem apenas uma torcicolo ou dor de cabeça e que aquilo não necessariamente se traduz numa atitude equivocada perante o mundo ou em uma somatização.
Já recebi muitos pacientes se sentindo enormemente culpados por apresentarem um sintoma complexo em busca de psicoterapia e ao final, migraram para uma terapia energética com ênfase em acupuntura onde os resultados, mesmo que lentos, chegaram para ficar.
Por mais que visualização criativa e tantas outras técnicas que operam com símbolos possam ter enorme efeito, é preciso estar atento ao nível do adoecimento. Dar a cada um o que precisa na medida da sua necessidade nos ensinava Aristóteles sobre a justiça. Uma terapia justa deve estar atenta a essa dimensão.

Mário

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