curador e curadores

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Curador e curadores

Em busca da palavra perdida.

Em português ficamos capturados em termos que nos definem.

A palavra inglesa healer, curador, não nos empresta sentido, pois fizemos da cura um objeto impossível diante do poder divino e da culpa. Quem cura é Deus (dizem os descrentes), mas o que fazemos nós, que não somos médicos, nem psicólogos, que não somos fisioterapeutas nem terapeutas holísticos? Nós os sem nome, os inominados?

Nós que somos assim: curadores mesmo.

Quero retomar palavras mais justas, como a de SANADORES em espanhol. Queria encontrar uma palavra mais plena de sentido do que fazemos todos os dias, talvez encontradores, ou encantadores, ou encontadores.

Nós que encaramos o sofrimento como ilusão porque o olhamos de frente, sem palavras no meio, nós que lembramos todos os dias que tudo no mundo tem cura, porque não procuramos nos livros, mas nas pessoas, em nós mesmos, ao nosso redor e esse redor é infinitamente infinito ao que tudo indica.

Nós que contrariamos as estatísticas, nós que driblamos os nomes de todo mal em busca de um nome mais justo para o sofrer de cada um de nós todos.

Nós que desatamos nós, que não acreditamos em exames e diagnósticos fechados. Nós que apostamos na saúde sempre, nós que ficamos junto quando ninguém mais acredita e rimos diante do impossível e por isso essa palavra não se impõe mais do que possível.

Nós que transcendemos a fé, pois a fé cega é aquela que acredita nas histórias de outrem; nós acreditamos na vida, apostamos na vida, trabalhos com ela e para ela, nós que nos colocamos a favor de tudo que bom, belo e verdadeiro, pois assim é aos arredores do cosmos.

Não há mal que perdure e bem que não acabe e vida que não sobreviva.

Quando todo sentido se esvai, quando somos chamados a dar mãos à loucura e pânico do outro. Seja porque não temos mais medo da nossa própria loucura ou da certeza de que tudo que tem um começo termina. A morte é nossa conhecida íntima e Deus e o Diabo estão reconciliados já fizeram as pazes em nossas almas.

Já não temos medo de definições, aceitamos todos os nomes com o mesmo sorriso de quem já compreendeu e se aninhou no coração do inominado.

Assim, me chame como quiser. Diga que sou curandeiro, curador, cuidador, macumbeiro ou santo, diga que sou psicólogo, advogado ou médico, diga que sou doutor em logias que nunca ouviu falar antes, mestre ou pós-graduado, nenhuma dessas palavras apontam para onde estou, nenhum curso da vida pode me dar o título que meu coração já não tenha.

O que cura por começo, meio e fim é o encontro, encontro de duas mentes em uma, encontro de corações em tantos corações, um que abre e outro que verte. Um que inverte e outro que reverte, um que diverte e outro que desperte.

Uma lágrima, duas lágrimas, tantas lágrimas nos afogam no coração da criação.

Doença, dor, disfarce, desmanche, desmame, tudo é dor e adoecimentos, aconhecimentos, em durecimentos, cimentos mesmo em torno do coração encouraçado.

Para que nos colocamos de pé? Se sorrimos com o mesmo calor diante da cura e da dor? Esse é nosso exercício, essa é nossa prática, nossa arte, nossa única possibilidade de todas as possibilidades.

O que nos move, o que nos faz brilhar é ver, poder ver mais uma vez seu brilho, o seu sorriso, que é o mesmo brilho que ilumina quando também me vejo.

Ser terapeuta é carregar uma fagulha na noite escura, é ascender em ferro, fogo os batimentos do coração um caminho novo para a lágrima voltar aos olhos, para voltar a valer a pena experimentar toda a caminhada sobre a terra, seus mistérios, sua diversidade, seus amores, seus infinitos caminhos em busca do melhor caminho que é apenas e totalmente aquele que tem um coração mais e mais aberto para o maior número e o melhor e mais belo.

Pra você que se curou, se cuidou, se jogou nesse rio e do rio para o oceano, para você que desperta para o mistério, para você que viu o sorriso e a esperança num movimento, para você que sente o movimento quando nada se move diante dos olhos físicos. Para você que sente e respira junto com o sopro do outro, quando esse encontra uma abertura, uma transbordamento, um rastro, um faixo, um feixe de esperança como uma estrela na noite escura.

Para você que cura com água, cutucadas e pontadas e breves brasas sobre a pele invisível.

E para você que sabe que tudo isso é para lembrar, só pra te lembrar de ti mesmo.

Eu compartilho essas palavras perdidas e reencontradas.

Mário Fialho – 21/09/2013
É curador na multiversidade.com

 

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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