reflexões sobre a arte de fluir a vida
Artigos com o marcador yoga
Yoga Integral de Sri Aurobindo
18/01/12
A Yoga Integral de Sri Aurobindo
Todos os livros de yoga que encontrei no meu caminho, todas as práticas que experimentei nos rastros desses antigos mestres; todas as vidas que repeti o mesmo movimento de isolamento, afastamento do mundo só me fizeram ver os equívocos enraizados nessas tradições transcendentais
Então, encarna Sri Aurobindo, cuja prática mais universalista e viva do yoga ilumina milênios que passaram na evolução da cultura em realizar uma yoga integral.
Dizer da união com o Divino não basta se elevar os mundos celestiais das deidades, no panteão Hindu, sejam os paraísos de vishnu, shiva, kali ou na própria consciência repousando em bramam.
Elevar-se parcialmente, em corpos sutis aos mundos transcendentais, mergulhar em estase ou mesmo dedicar-se ao karma yoga da assistência não se comparam ao abrir-se à luz e deixar baixar pelo corpo a consciência e os estágios mentais que nos esperam no futuro da nossa humanidade.
Sri Aurobindo manifestou essa grande realização, mas não para termos mais um guru, swami, mestre ou iluminado, mas para nos convidar a encarnar, homens e mulheres, o divino no pensamento, estabelecendo uma relação amorosa que não busca, mas recebe, que não transcende mas também encarna que não eleva mas que baixa, incorpora e escorre pelas esferas luminosas através dos mundos e do tempo para que o brilho de cada gesto, seja uma manifestação mais ampla, conectada, genuína e verdadeira do deleite amoroso da relação com o divino.
Mas não se trata de atitude devocional, ao contrário, mais próximo da tradição pentecostal, Aurobindo propõe uma receptividade feminina ao amor da grande mãe na sua imagem. Assim, não vamos ao divino, convidamos o infinito a vir nos visitar nas nossas células, nas nossas moradas interiores, na nossas palavras e gestos de forma a só de agora em agora, sejamos mais próximos do chão onde o céu se encontra.
Sri Aurobindo tampouco ignora as consciências humanas do astral, em diálogos com seus mestres translúcidos, redescobre o sentido das escrituras védicas ao mesmo tempo que prepara sua atividade que baixar sabedoria de um saber que é próprio e nasce em diálogo com essas inteligências que se aproximam para ensinar como o próprio Vivekananda principal discípulo de Ramakrishna, que lhe transmitiu as práticas nos anos de cárcere.
Assim, Aurobindo encarna uma atitude integral, de cuidado e vigilância para se manter aberto à relação com o Divino, mas não faz isso sem despreocupar-se com o mundo, ao contrário. Cria-se em torno de sua obra e seu trabalho uma enorme ecovilla onde cidadãos do mundo atualizam seus ensinamentos em condições talvez mais inteiras.
Quando ensinamentos como esses encarnam, tanto na relação com os deuses, devas, quanto na relação com os seres recém desencarnados, uma integração ainda maior nos aparece.
Um homem e uma mulher receptivos ao divinho, ao infinito ao mistério e ao transformador influxo de luz e lucidez que desce e escorre até os corações e reanima toda palavra justa.
Quero deixar esse registro de yoga como uma gratidão e síntese do que aprendi com os registros de Aurobindo e dos seus discípulos.
A certeza que a humanidade um dia vai ver a mente, tal como hoje vê o corpo, objeto-sentido, aí podermos falar de um ponto supramental, onde repousa a nossa inteligência conciliadora e pacífica.
Enquanto isso nos resta conspirar para que mais e mais dessa luz possa chegar a todos os cantos escuros e desconformados de rastros que arrastamos sem precisão.
Porque fazer Yoga?
28/12/10
Porque fazer Yoga? Você ainda não sabe?
Yoga é uma saber-arte-prática de milhares de anos. É uma forma de movimentar o corpo de forma muito especial, uma forma orientada para cultivar a saúde. Da mesma forma como cuidamos de flores no jardim, podemos também, como faziam os sábios da Índia, cuidar do corpo para que ele alcance um encontro máximo consigo mesmo, ou com a vida a grande vida.
Os movimentos do yoga, adequados a cada um, busca antes de mais nada, consciência, movimento e respiração juntos em busca de uma forma que faz com que o próprio corpo encontro um caminho de beleza e harmonia.. Não é um movimento que apenas modele o corpo, mas um movimento que preserva a vida mantendo-o flexível e cheio de vitalidade.
Uma das ideias por trás do ásanas ou posturas do yoga é a simplicidade, harmonia e beleza do movimento. Ele traz uma intensão e cada postura, praticada a milhares de anos, nos coloca em contato com atitudes mentais próprias, encontramos atitudes para o sagrado, já se disse que yoga é religação com o divino, união consigo mesmo, enfim, samadhi, ou êxtase transcendental.
As posturas de yoga são para todas as idades, deixar a coluna flexível, os músculos fortalecidos com seus próprios movimentos, sem aparelhos, é sempre o mais natural e o mais próximos de nós mesmos. Em muitos momentos experimentamos a alegria e o prazer da prática, quando afrouxamos os músculos movemos também nossas formas de estar no mundo e nossas emoções, assim também, yoga é se manter menos sisudo, flexível e emocionalmente mais alegre. Sorria agora, experimente, isso mesmo, sorria…. Já sorriu? Bem se você sorriu podemos dizer que você fez uma pequena prática para relaxar os músculos da face, e percebeu os benefícios? Então, imagine isso no seu corpo todo!
Além dessas possibilidades todas, yoga inclui um relaxamento profundo uma forma própria de entrar em contato com estados mentais “alfa”, ou de relaxamento, onde podemos ter insights sobre a vida, e nossa experiências, isso é o início da meditação, raramente simplesmente paramos para estar relaxados observando nossos pensamentos. E já sabemos, sábios há milhares de anos e cientistas recentemente confirmaram o quanto meditar faz bem para todo o nosso sistema vital.
Tudo isso, se parece pouco, é só o começo, qualquer um que comece a praticar pode perceber esses benefícios, mas é claro que ao longo dos anos acumulamos muitas e muitas mais formas de nos relacionarmos com nosso próprio corpo-mente-espírito, que começa a se tornar mais sensível essa relação do yoga com o sutil, devido aos desbloqueios energéticos que a prática desencadeia. Você já deve ter ouvido falar de chacras e centros de energia, a prática de yoga desencadeia suas aberturas e com isso, estados mais amplos de consciência aparecem. Entre tantas práticas, recitar mantras e cantar o famoso Om também fazem parte do charme do yoga, e dos modos e estilos. É isso, yoga é um estilo de vida, mais zen, mais inteiro, mais si mesmo, mais aberto, com mais espaço entre um pensamento e outro, com mais espaço entre as articulações com mais espaço no coração.
Mas uma das coisas mais interessantes pra além de tudo que já foi dito é que yoga é uma ótima forma de entrar em contato com a cultura indiana, uma das mais antigas do mundo, cujos textos como upanishades e vedas, seus tantos cantos, sutras e palavras de sabedoria criaram uma das culturas mais antigas sábias e perenes no mundo que convoca milhares de pessoas todos os anos a conhecerem seus templos, ashrams e lugares sagrados.
Então, o que você está esperando? Yoga é prática, prática de êxtase, prática de flexibilidade alegria de viver.
Onde praticar no Rio:
BOTAFOGO
ESPAÇO SER EM MOVIMENTO
Rua Voluntários da Pátria, 257 – Botafogo (perto da rua Sorocaba)
2537-2200
Terças e quintas às 18:30h e 19:30h
FLAMENGO
ESPAÇO COMPANHIA DO SER
Rua Machado de Assis 71 / 202 (Pertinho do metrô Largo do Machado)
Tel: 2205 7675
Segundas e quartas 19h
LARANJEIRAS E COSME VELHO
Clube Fluminense segunda à quinta 11h
Academia Júlio Veloso
terças e quintas às 9h
Arte e Relacionamento – no palco da existência e o teatro do(s ex)tremos
27/12/09
O que te faz tremer? Perguntava Campbell, o autor do herói de mil faces. O que te faz tremer? Recentemente, depois de alguns meses de profunda meditação vivi e sigo vivendo um relacionamento incrível. Talvez seja saturno passando e e “revoando” pela minha vênus, uma consideração astrológica.
Não foi algo público, foi secreto, como um acontecimento interno, como algo que não se partilhe e mesmo que vê de fora não entende. Isso Freud nunca conseguiu entender entender, porque o ego em busca de estrutura não suporta a arte, não suporta os extremos da alma humana e não percebe que a menos que seja você um ator se na sua vida afetiva não tiver arte, não tiver expressão e fluxo de vida, rompantes de extremos que te fazem querer largar tudo, que te colocam de joelhos como indicam os chineses.
Vou fazer uma pausa, pra explicar 爱 o ideograma chinês de amor. Ele tem um teto de um templo, sobre um 心 coração e um homem de joelhos. Assim, o amor é uma força que desce sobre o templo do coração e coloca os homens de joelhos. Poético não? Sintese dessa dimensão artística da relação amorosa, seja com o divino, seja com o outro que no fundo são a mesma coisa, luz.
A história que revivi com minha amante realmente eletrizou a minha vida. Foi tão intensa que abalou todas as áreas da vida, trabalho, relacionamentos com amigos, familiáres, pacientes, enfim, são aquelas pessoas que passam pela vida e exatamente porque não podem ficar te transformam tanto e em tão pouco tempo.
Podemos separar pelo menos 3 funções das relações sexuais. Veja bem, se você tem questões terapeuticas pra resolver com sua sexualidade, seu corpo e seu prazer, procure um terapeuta freudiano, reichiano sejam lá de que ordem forem as questões. Por exemplo, se vc tem dúvida se é amado ou não e precisa ouvir isso pra encontrar sentido na sua relação precisa de um terapeuta. E terapia é ótimo, mas não é arte e essa mistura pode ser positiva ou não.
Outra coisa diferente é você fazer da arte a sua relação e da vida arte. Assim, yoga e práticas sexuais e amorosas numa relação ganham uma outra dimensão, que foi o que vivi. Extremos teatrais (com suas funções transformadoras, mas não terapeuticas), porque não estávamos preocupados em cuidar e dar acolhimento sempre, mas fundamentalmente ir ao encontro da vida que flui em nós. E quando as demandas terapeuticas são muitas certamente uma coisa pode atrapalhar a outra.
O brilho, a alegria o amor nessas condições “artísticas” são extremos e muitas vezes insuportável para quem está ao redor. Assim como qualquer “extressão artística” não é pra todo mundo. Não é todo mundo que quer levar arte para sua vida sexual e assim para toda a sua vida. Mas como quem pinta um quadro, ou quem dança, as emoções, as paixões, as intensidades é que nos provoca. Menos que isso é perder o contato com a fonte de nossa criatividade.
Tenho aprendido, nas fogueiras da paixão, a cultivar o fogo interior. Não são as imagens dançantes fora de mim que me movem, mas o fogo que brilha e pode irradiar ao redor. Em suma, habitar ao mesmo tempo quem percebe e observa todo o manifesto (masculino) como brilhar no meu coração e perceber os movimentos e dinâmica desse fogo (feminino). Eis o caminho de integração que percorri nos últimos tempos, e talvez se ler os últimos artigos possa entender um pouco mais.
Eu encontrei uma deusa, não sabia se o encontro era com a minha alma ou com uma deidade, e realmente tudo mudou. Minha Anima, minha alma agora dança na fogueira no centro do mundo, na clareira do meu coração e já não se tem nada a perder, o fogo já não pode te queimar, se você já é luz e irradia tudo ao seu redor. O mais que ardeu e queimou é o que precisava convertido nas cinzas do shiva nataraja, o “destruidor de ilusões”.
Transforme sua vida em arte, assim como aprender a cantar ou tocar um violão, experimente graves e agudos, altos e baixos e componha uma sinfonia, cante, cante, cante… “quem sabe a sua canção acalme a fera que espera devorar o pássaro”.
Uma ode ao psicodrama da existência ou ao cosmodrama da vida.
Mas terapia é terapia, arte é arte, na vida há espaço para tudo.
Terapia acolhe, arte/yoga liberta e flui e as práticas espirituais te lembram que somos todos luz.
Então, brilhe, flua e acolha com compaixão tudo o tempo todo!
HA-(mo-re)amo a re
Mar Rio
25-dez-2009
Tantra – quando a morte é uma benção
06/10/09
Tenho aprofundado cada vez mais minha prática de meditação e tenho também me colocado em situações que realmente testam essa condição contemplativa da vida em especial relacionamentos de toda sorte, amizades, amores, mesmo amores platônicos podem ser uma benção na vida.
Dois aspectos básicos da relação entre o masculino e o feminino são: A capacidade do homem de permanecer firme e a capacidade da mulher de lhe retirar dessa posição. (hehehe)

Claro que cabem muitas interpretações pra essa frase, mas num certo sentido, estou falando da capacidade de não se alterar perante o oceano de emoções que são as mulheres.
O feminino não sabe o que quer, precisa de direção, o masculino sabe o que quer e precisa ser retirado de si mesmo e essa dinâmica pode ser muito positiva, ou ser o drama que vemos por aí.
Mas além dessa dinâmica onde o feminino testa a todo esforço a capacidade do homem permanecer ao seu lado, apesar de todas as barbaridades que é capaz de cometer de todas ondas, as tsunamis emocionais e essa capacidade de viver num mundo instantâneo de emoções. Basicamente diante do oceano, o que um homem precisa fazer é permanecer na mesma posição, firme e inabalavelmente ao lado do feminino. Parece simples? Ela vai te testar sempre, dizer o que não quer, pedir o que não suporta e se você fizer o que ela está pedindo ainda vai ficar frustrada com você.
Para além dessas polaridades clássicas e reconhecer essa polaridade como algo extremamente positivo e que anima a relação. existe uma dimensão boa na relação com o feminino que aterroriza homens, mulheres, crianças e adultos em todos os cantos. Qual seja a dimensão morte do encontro com o feminino, claro, se algo merece morrer é mesmo nosso eu separado, nosso eu contraído o que chamamos de ego. Não que um ego saudável não seja bom pra um monte de coisas, mas se ainda resta algum sofrimento e ele emerge na relação com o outro, uma boa mulher vai te matar. Vai te colocar em contato com suas contradições até o limite da sanidade e por incrível que pareça, isso também é amor.

Poucas mulheres tiveram capacidade de me matar, mas são elas as mulheres que eu mais amo, que mais me marcaram, que mais me transformaram fisicamente, afetivamente, cognitivamente e espiritualmente.
Assim o sagrado e o profano estão intimamente ligados o amor mais profundo e a traição o íntimo e o publico, o carnal e o transcendental. Isso é tantra, isso é o engajamento com o real na lama e no lótus, no céu e no inferno, no terror e no amor, na vida e na morte.

Claro que pode não ser uma coisa fácil de se entender, ver uma mulher, uma mãe, uma presença feminina destruir a criação do seu amor, das suas fantasias, dos seus desejos. Mas se conseguir ver, além disso, perceber o divino dessa dimensão pode-se acordar para um amor, uma abertura, uma alegria, um êxtase, uma luz tão acolhedora que é difícil compreender sem lágrimas correndo e sem correntes de energia percorrendo todo o corpo.

Se sua mulher consegue te matar, talvez ela seja mesmo uma mulher para você, se não, vai ser mais uma amiga que nunca vai ter a coragem pra cortar a sua cabeça como nas iconografias tradicionais da índia e do tibet.
Tudo bem, não se pode ter tudo e uma boa amiga ainda é um presente raro da vida.
Tantra e a Arte do Encontro e da Alquimia com ou Outro
22/09/09
Sexo é uma dos aspectos da vida mais mostrados na TV, bancas de jornais, internet. A prioridade humana com relação ao sexo é enorme mas poucos conseguem ter prazer com isso, ou pelo menos fazer dessa relação íntima à dois, ou três, ou seja lá com quantos, se dê de forma saudável e se converta em alegria, saúde e energia em todos os outros aspectos da vida.

Freud foi realmente genial ao colocar a libido ou a pulsão que é normalmente sexual no centro da vida psíquica e na constituição do sujeito. Os símbolos, como Jung os descreve, sendo aglutinações de energias psíquicas que tratam do sexo, também são muito presentes em sonhos e nas religiões do mundo. De fato, dificilmente vamos além das nossas fixações eróticas originais e é bem conhecido todos os tipos de doenças e distúrbios psíquicos que podem surgir deste movimento da energia ou da libido pelo corpo em desenvolvimento. Nesse sentido, a psicanálise e, por exemplo, a terapia reichiana tem uma contribuição importantíssima para nos oferecer.
Ainda no ocidente, eu poderia lembrar que no cristianismo, por exemplo, o sexo está cheio de tabus e que os papeis arquetípicos da mulher na bíblia é em geral de mães “virgens” ou prostitutas. Não há um papel central para a mulher no movimento das energias sutis e sexuais como na tradição tântrica, tanto taoísta, budista ou védica. Mas ainda há um longo caminho para que tanto homem quanto mulheres encontrem uma relação harmoniosa e verdadeiramente saudável.
Em geral, sexo desgasta energia e desorienta a vida, é um fato. Na medicina chinesa e na alquimia em geral sexo pode causar doenças se praticado em excesso e os níveis de doenças associadas ao sexo também são muitas.
Ao buscar uma vida integral e integrada, a sexualidade e essa relação radicalmente intima entre duas pessoas precisa também ser considerara, mas como resgatar as tradições orientais que desenvolveram essas artes de amar sem que isso se torne mais um fetiche?

Textos como o Kama Sutra ou Rig Veda ou até mesmo o Yoga Sutra de Patanjali trazem descrições dessa arte de intimidade radical não apenas como algo muito positivo que nos “descarrega” tensões, mas fundamentalmente algo que pode nos conduzir ao êxtase, à transformação do fogo em luz da consciência, à evolução.
Na alquimia taoísta os canais de energia envolvidos na relação sexual, nos órgãos sexuais, Lingam e Yoni como chamam os tantristas é fundamental, claro que vez ou outra todos praticamos tantra. Tantra no sentido de que todos temos uma relação cuidadosa e total, em que o tempo de contato de trocas de energias de palavras de carícias é tão importante como o ato em si e o prazer da relação dos olhares da energia que circula entre hormônios e músculos entre suor, cheior e sabores, tudo isso, pode ser uma forma de cultivo integral, quero dizer tanto do corpo físico , sutil ou causal. Sim é possível amar em todos esses níveis e nem sempre os papeis masculinos e femininos estão harmonizados em todos esses níveis.

Energeticamente, temos no ocidente principalmente, uma busca de religiosidade e filosófica vertical e ascendente. Para ter uma idéia, o próprio Freud parou de ter relações sexuais aos 35 anos para se dedicar a escrever. Seu sintoma compulssivo que o fazia escrever mais de 30 laudas diariamente e “Cada orgasmo era um livro que se perdia” .
Ou seja, a busca o uno, o pai, o criador o divino acima de nós, ou mesmo os pensamentos mais abstratos se opõe a tudo que é mundano, tudo que faz descer a energia que passa a ser considerado negativo. O movimento ascendente se traduz, no corpo sutil, pela subida da energia pela coluna, pelos chacras e pelos diversos níveis de consciência. Em alquimia taoísta e ayurveda essas práticas também são enfatizadas como modos de realização espiritual.
O que nos falta é mesmo aprender a ascender e descender essa energia. No caminho para a baixo ao invés do uno se encontra a pluralidade de todas as manifestações sensações, emoções e pensamentos é o caminho em direção à Terra, ao alimento ao corpo com saúde e alegria. Talvez encontremos no caminho uma sexualidade polimórfica, uma capacidade de sentir prazer em todos os poros do corpo, alegria, êxtase em cada toque seja possível e não apenas pelo prazer em si mas porque implica numa vitalidade que se transmite para todas as outras áreas de vida, enfim, sexualidade e vida integral.
Outra relação vertical importante que se estabelece são as imagens arquetípicas de Grande Pai, Shiva e de Grande Mãe, Shakti, de Céu e Terra, de Urano e Gaia que divide o pensamento e as práticas espirituais em geral. Mas podemos também estabelecer relações horizontais entre essas polaridades, e até mesmo internamente como já escrevi aqui no artigo sobre Yin e Yang, e também na relação intima amorosa e sexual.

Como psicólogo, o que mais escuto na prática clínica são queixas sobre problemas na relação. As pessoas se dizem capturadas e não mais “cativadas”, se sentem prisioneiras e claro, níveis muito sutis de justificar e buscar uma causa pra essa situação, todo tipo de “encaixe” neurótico se estabelecem.
Basicamente, neurose se estabelece quando você para de falar a verdade para você mesmo sobre você mesmo, quando você mente pra si sem saber que está mentido. O sintoma que convoca a escuta é perceber a consequencias numa vida que perde a alegria e a graça de viver. Assim, o sentido mais simples da terapia seria encontrar o caminho da sua verdade ou como queiram, do seu desejo. Numa para a relação, encontrar como podemos fazer com o outro uma dança, uma dança que fica mais e mais bonita quando um sabe perceber a maestria com que homens e mulheres desempenhando papeis diferentes podem se harmonizar.
O mesmo se dá com relação ao sexo e aos relacionamentos, podemos ser muito desenvolvidos na nossa relação conosco mesmo, na nossa relação com nosso próprio ego, podemos ser até muito bons na relação com o divino transcendental, mas conseguir desenvolver maestria no campo dos relacionamentos íntimos parece ser uma dificuldade generalizada. Não temos ainda uma forma saudável e aceitável de viver a maravilha que é uma relação que inclua todas as outras dimensões na intimidade do amor e do sexo.
Assim, confio que é possível, se você já tem uma relação amorosa, inclua essa dimensão alquímica e transformadora e poderosa das práticas Tântricas. Faça sexo com o corpo, mas também com todos os outros corpos, com as emoções, com os pensamentos, com suas energias e até mesmo com a dimensão causal ou não-dual, ou seja um enamoramento radical da subjetividade com o objetividade e vice-versa.
Na relação somos assim: sujeito-objeto/objeto-sujeito/ sujeito-sujeito/ objeto-objeto/ Sujeito (8) subjetividade infinita……..~
Quem ama quando dois seres humanos se encontram senão a natureza que se encontra, o divino que se enamora. Tão comum é relacionarmos as imagens de Deus como uma relação amorosa, mas não conseguimos fazer o inverso, trazer o divino para a relação amorosa.

Certa vez perguntei a uma amante: como é ser vista como uma Deusa? Ela respondeu que era muito bom enquanto eu ria e chorava de êxtase. Ela me perguntou se eu sentia dor e lhe expliquei que era amor demais, mais do que eu conseguia suportar.
Se há amor demais, mais do que consegue suportar, distribua, sorria, cuide, faça comida, escreva textos, cuide da casa do corpo da mente e do espírito e esteja engajado tanto no céu quanto na terra, tanto com o sol como com a lua, tanto com yin quanto com o yang.
Tantra radicalmente quer dizer engajar-se com o mundo, perceber que Samsara é Nirvana e que Nirvana é Samsara que o uno e a diversidade são o mesmo.
Mas como tudo na vida demanda prática, então boa prática!
Bhakti e Ananda – A Devoção Amorosa e a Bem-Aventurança
20/09/09
Meu primeiro contato com Bhakti (ou prática devocional) foi nos Estados Unidos. Morei lá e vivenciei na juventude o movimento gospel americano quando cantávamos todos os dias pela manhã cantigas de devoção e doçuras divinas, de bem-aventurança, de êxtase perante o divino. Jesus era o grande mestre, rei dos reis, a imagem de amor de alegria de perdão, de brilho e transbordamento e na juventude foi uma grande converssão.
Atualmente, eu faço uma prática diferente dessa prática devocional. Tenho feito práticas de meditação budista, especialmente zen e budismo tibetano, tenho feito práticas em busca da não-dualidade, de um sujeito sem objeto, de um sujeito que nega os objetos para encontrar o espaço infinito onde tudo emerge que é o próprio espírito.
Assim, nessa perspectiva, eu-eu, essa busca interna que na India se expressa na tradição de Shankara divide muitos caminhos filosóficos que tento sintetizar aqui. Pois não se trata de uma prática teísta a prática meditativa, e se há de alguém descobrir Deus, esse Deus, esse “D+eus” somos nós mesmos, além de qualquer identificação.
Do outro lado, temos o Gita com a doçura e misericórdia de Krishna, na luz dourada de Goranga, na personificação do amor que acolhe toda a sombra e mergulha tudo no seu êxtase divino de primores, formosuras e ananda.
Essa última relação com o Divino é uma relação Eu-Tu, onde somos convidados a estabelecer uma relação amorosa com o divino. Tal como na tradição cristã, onde Teresa d´Avila nos fala da possibilidade de estabelecermos um casamento. Onde o mais nobre quarto das suas moradas, do seu castelo interior é o quarto de núpcias, onde nos encontramos numa relação amorosa de abertura para o outro para o Bem-amado.

Infelizmente nas tradições os que estabelecem uma relação eu-tu com Deus são considerados ilusórios e projetivos. Diz o ditado zen: ” se você encontrar Buda no seu caminho, mate-o”, para que possa nascer dentro de você. Então se uma presença luminosa de Deus chega à sua consciência ela deve ser desidentificada, “assassinada”, para que nasça dentro de você. Assim na índia o caminho budista é considerado um caminho ateísta. E de certa forma é verdade também, relatvia, mas também verdade.
Assim, como aprendi que está todo mundo certo eu tento integrar essas dimensões o que quase me leva a loucura, mas eu sou teimoso! Pois para alguém estar totalmente errado é preciso estar muito certo.
Voltando a falar de Bhakti, meu segundo grande encontro devocional foi com os discípulos de Sai Baba, cantávamos bajans, às vezes por 24h e era um tremendo êxtase, cantava e tocava violão e tabla. As práticas devocionais desse período foram as que tiveram o maior impacto na minha vida, foi o momento que mais me transformei, ou seja nessa relação devocional com o o Divino e suas personificações, tinha uns 18 anos nessa época.
Percebidas essas diferenças, eu confio e sinto profundamente no meu coração e na minha sabedoria que o caminho da meditação, eu-eu. e o caminho de bhakti. eu-tu. são complementares. São formas de estabelecer relação (real-ação) com o divino.
Ontem, estive no Templo de Gora Nitai em Teresópolis. Ao chegar lá para surpresa encontrai um grupo de niteroienses que visitava. Eu me sentei e praticando minha meditação de abrir espaço tentei manter a alegria e o desapego de sempre na tal prática budista. Mas depois de muitas histórias e de prática de Yoga depois do Satsang, abriram-se as cortinas das Deidades e começaram os kirtans (cânticos devocionais).

Goranga se manifestou então na sua qualidade mais pura, é uma manifestação da divindade na sua forma mais abrangente, mais amorosa, mais misericordiosa, na sua radiância dourada em todas as direções convidando a todos para ser acolhido nesse amor. Claro que mesmo se eu fosse um grande poeta não poderia descrever a luz e a alegria desse encontro.
Aos poucos a energia do pequeno templo, comparado com seu vizinho Vrajabuhmi inundou meu coração. Lágrimas correram e desceram pela minha face e também pela minha alma.
Correntes em espirais de Ananda subiram pelo meu corpo enquanto era tomado de êxtase nos mantrans entoados com tanta devoção.

Depois do grupo de Niterói se despedir, tomei um banho como no rio (Ganges) inundado daquele amor e êxtase, inundado de incertezas perante esse caminho devocional que andava esquecido nas minhas práticas supliquei pelo divino em minha vida. Em seguida coloquei-me a conversar com o “Guru” (literalmente aquele que te leva das trevas para a luz) e recebi naqueles instantes a transmissão silenciosa de várias sínteses. Do budismo zen ao cristianismo sob a luz abrangente da tradição Vaishnava. Do mistério da trindade e a filiação, dessa posição de filho de Deus, dessa posição de devoto de Deus dessa posição “di-amante” de Deus.
A noite se seguiu com tantas conversas maravilhosas que meu corpo ardia de energias que mal consegui dormir. Ao acordar fiz uma mini=saudação ao sol enquanto ele nascia e fomos filmar um vídeo de Yoga na fazenda Vrajabumi para compor as práticas integrais do instituto multiversidade. Não sou um praticante de Yoga ou iniciado ou religioso de toda sorte. Mas percebo os benefícios da prática apoiada na sua tradição e de como querendo construir uma formação para que as pessoas encontrem seu Sadahna, seu caminho de práticas, é importante essa aliança com uma linhagem de transmissão de conhecimento espiritual.
Em Vrajabumi o ambiente é maravilhoso, o templo lindíssimo, e a adoração dos Devotos, as prostrações as oferendas e leitura do Gita, A MARAVILHOSA PRASADA dos “Hare Krishna” e muito amor que o ar e os alimentos irradiavam luz.
Bem, o que eu quero deixar aqui registrado nesse blog é que pra mim, redescobrir a alegria dessa relação amorosa com Deus é tão especial, sinto um alívio tão grande, uma confiança tão grande na vida, nas pessoas e um amor transbordante por todos que me cercam. Espero ter podido convocar um pouco dessa relação amorosa contigo.
Assim, Bhakti e Ananda, a entrega ao outro e as graças recebidas são assim, amor irradiante em todas as direções. Hoje disse para uma amiga, estou enamorado e em seguida esclareci que era por Krishna.
Eu resumo, se encontrar Deus na sua frente, mate-o, para que ele possa nascer dentro de você. E mais importante, se encontrar deus dentro de você e não suportar, projete-o para fora, e estabeleça com ele uma relação amorosa. O universo inteiro vai se converter em Ananda.
Dedicado a Gopinata Prabu todos os meus agradecimentos por esse final de semana muito auspicioso. E os presente de poder estar junto durante essa celebração.
E ao mundo” verde-amarelo” depois de tantas conversas sobre a dinâmica da espiral.


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