reflexões sobre a arte de fluir a vida
Artigos com o marcador masculino e feminino
Muito além do amor romântico
14/12/11
Quando não há mais alegria em amar sem impressionar
Quando basta a companhia e o carinho
No tempo em já não há mais projetos ou sonhos de eternidades junto
No instante em que basta um olhar pra se eternizar na vida um do outro
Quando não há mais vazios a preencher
Quando a saudade não arde mais do que a certeza de que todo amor é eterno
Quando as formas de amar são mais preciosas do que os desejos e quereres
Quando estar em companhia é se alimentar de esperança que possamos todos um dia nos encontrar nas estrelas
Quando saturno corta o céu em libra
O amor romântico morre
Morreu o amor
Nasce a vida junto
Nasce a partilha
Nasce a irmanação de todas as coisas
Nasce o novo estar junto
Nasce a liberdade de amar
Nasce a vontade de querer restar
Junto
Não até que um novo amor nos separe
Mas até que a vida nos faça encontrar
Em cada um que passa, ou fica, um pedaço descoberto de universo
Tamanho amor perfeito amor
Sereno amor
De oceano de paz
Pra crer e ser
Entre o artista, a plateia, o espelho e narciso.
21/05/10
Jung já apontava pra uma dimensão linda da da vida. O mundo, a alma do mundo, a anima mundi é reflexo do nosso interior. O mundo que vemos, os atores que escolhemos, o sol, a lua as estrelas, o estranho que nos fala o amigo que começa a falar sem saber o porque e por fim. as sincronicidades, os sonhos. Todas as imagens são imagens de nós mesmos.
Ontem eu caminhava com uma amiga que me trouxe um grande presente, o passado presente. Explico. Nos conhecemos há 15 anos atrás. Ela falava enquanto caminhávamos que queria gravar aquela lembrança, a bela imagem na praia e levar sempre consigo. Eu lhe disse, que esse lugar é que a via passar, quem está de passagem somos nós, que passamos pela vida dos outros, como dizia Exupery: “deixado um pouco de nós e levando o outro consigo”. Embora sejamos também um pouco raposas e um pouco pequenos principes com suas rosas em redomas de vidro.
Assim também, a paisagem, eu falava, é que deveria nos ver crescer e alcançar, pouco a pouco a maturidade de nós mesmos.
E as borboletas?
Bem, borboletas no estômago…
Será mesmo nescessário borboletas no estômago?
O artista na infância, pinta, dança, canta pra atender aos pais, nossa plateia por excelência. Na adolescencia, se faz objeto para o outro, se torna artista, ou mesmo diretores teatrais para que outros incorporem seus sonhos e suas dores, talvez por excesso de sensibilidade, talvez por covardia mesmo, talvez os dois.
Na maturidade, creio eu, o artista é criativo porque isso lhe é o viver. É assim, canto porque o pássaro canta. Se faço uma pintura é porque sonho, se traço uma mandala é porque o mundo ao meu redor precisa de ordem, como a ordem interna.
Assim é com narciso. Você conhece a história, não é?
Se não, vou resumir como me aprece (apraise), vou só recontar como me encanta.
- Narciso era muito bonito e todos o invejavam-amavam.
- Um dia ele caminhava por um bosque e encontrou uma ninfa, chamada Eco.
- Eco não suportou que narciso não a quisesse e lhe atraiu para um lago.
- Lá, narciso olhou sua imagem se apaixonou. E alí morreu.
Onde narciso morreu nasceu uma flor, que conhecemos. O que poucos sabem é que de narciso, narké, vem também a palavra narcótico. Tudo que vicia em nós mesmos, sejam nossas imagens, nossas fotos, nossos perfis virtuais, nosso estilo de vida. Tudo que não morre, mata.
Assim, cada flor que morre, é a lembrança da nossa finitude beleza, da nossa imagem que não se suporta, da nossa fragilidade infinita.
Tenho convivido com tantos artistas iluminados. De verdade, gente que brilha ao se reparar, ao se olhar atentamente. E de tanto brilho pra fora, tanta, tanta escuridão pra dentro.
Não parece óbvio isso, na vida das pessoas imagem, das “personalidades”, alguém de verdade queira uma vida como a do outro ao invés da sua própria, seu prórprio gosto, seu próprio sal, seu próprio saber, seu próprio sabor.
Imagem e semelhança. Ator e plateia, imagem e objeto, sujeito e por fim o mundo, não dual.
Me lembrei de Alice através do espelho. Quando vamos atravessar o espelho de nós mesmos, perceber que estamos num grande salão de espelhos e ver além da matrix?
Qual o custo disso, de atravessar o espelho? Saber que agora e sempre, você vai querer mais do que qualquer outra coisa, ajudar tantos e tantos outros a atraversar seus espelhos.
O narcisimos do outro se torna um narcismo de si que é o narcismo do outro que o reflexo que é a morte que é a imortalidade florescente!
Sem torpor, sem temor, sem espetáculo, se expectativa, sem espera, não um, não dois.
“Um lindo jardim…
Para deus em nós vir pousar…
Para deus conosco brincar.”
Game is over.
Amor
04/01/10

Uma amiga e aluna do curso de acupuntura, ontem me pediu pra escrever uma página sobre amor. Eu lhe disse que já havia escrito demais sobre o tema nos últimos tempos, mesmo assim, ela insistiu, e como ela fica me ouvindo falar 4 horas sobre medicina chinesa aos finals de semana eu decidi acolher o pedido.
Quero começar dizendo o que amor não é: Não é ciúmes, não é apego, não é falta, não é saudade, não é desejo, não é êxtase, não é admiração, não é estética, não é luxuria, não é tesão, não é um, não é dois.
Dito isso, e superado tudo isso acima, podemos começar a sentir amor. Embora amor não seja propriamente um sentimento. E seja mais como uma experiência, um verbo intransitivo como bem definiu o poeta, quem ama, ama. Não ama objeto-outro, nem ama a si mesmo.
Já se disse que é uma dádiva, talvez seja. Seja o que for é bom demais!
Na tradição cristã tem uma frase lapidar que diz “amar ao próximo como a si mesmo.” Veja que no caso o objeto indireto, próximo, o que quer dizer?
Num nível mais bobo, da economia libidinal, amar o próximo como a si mesmo quer dizer não ame demais, não dê mais do que receba, ou, a regra é mais fácil, primeiro ame a si mesmo depois ame o outro como você ama a si mesmo.
Quando os budistas falam que amar a si mesmo e falta de amor a si mesmo é um absurdo, eu acho que eles estão completamente certos. Quem sofre de falta de estima na verdade se estima demais, quem se suicida, chega ao clímax dessa loucura. Eu não precisaria, né leitor, mas vou repetir, que nada disso também é o amor.
Haha, estou rindo do meu tom de quem vai dizer finalmente o que é o amor. Perdoem esse pobre mortal, mas os gregos talvez soubessem algo do amor e vou seguir um pouco suas teorias pra finalmente falarmos do que eu acho que seja o amor, hahaha, termino a frase com a mesma gargalhada.
Para os gregos tem 4 tipos de amor, pornéia – amor do desejo de consumir o outro, filia – amor da amizade, eros – amor que nos eleva e nos tira o chão, do impulso criativo e agape – o amor engajado no cuidado do outro e do mundo, dos pais pelos filhos e de cada um por toda a diversidade do mundo.
Ok, existe polêmica nos sentidos originais desses termos. Muitas tentativas de traduzi-los, por isso vou abandoná-los. Eu gosto de pensar que Eros é a energia criativa que sobe em direção ao uno e Agape é o a energia-consciência-amor que desce em direção a pluralidade de todas as coisas que abraça toda a manifestação, tudo que emerge. Que te parece?
Eu prometi escrever o que é o amor em uma única página e ela já está acabando.
Amor é. Amor é abertura sem tempo sem espaço sem objeto sem forma onde todo o universo se encontra.
Amor é o quando eu e tu, nós nos (dis-sol-vemos) quando os pensamentos já não alcançam e quando a energia flui livremente, amor é liberdade em todas as direções, através do outro.
Amor é ser um com todas as coisas que são todas um mesmo, no início e no fim de todas as coisas. Haha!
Acabou a página, mas como o amor sempre diz, diz e dirá a última palavra. Eu acrescento algo mais, uma linha, um risco pra que se saiba que o amor nunc(a cabe) e sempre vai além.
Não dá pra ver, mas saiba que ao final-agora, só resta um sorriso e lágrimas, nesse encontro está o amor.
3 de janeiro de 2010
Dedicado a uma certa “noiva em fuga” que como tudo na vida faz o que é certo pra equilibrar os ciclos de nascimentos em mortes em sansara.
Arte e Relacionamento – no palco da existência e o teatro do(s ex)tremos
27/12/09
O que te faz tremer? Perguntava Campbell, o autor do herói de mil faces. O que te faz tremer? Recentemente, depois de alguns meses de profunda meditação vivi e sigo vivendo um relacionamento incrível. Talvez seja saturno passando e e “revoando” pela minha vênus, uma consideração astrológica.
Não foi algo público, foi secreto, como um acontecimento interno, como algo que não se partilhe e mesmo que vê de fora não entende. Isso Freud nunca conseguiu entender entender, porque o ego em busca de estrutura não suporta a arte, não suporta os extremos da alma humana e não percebe que a menos que seja você um ator se na sua vida afetiva não tiver arte, não tiver expressão e fluxo de vida, rompantes de extremos que te fazem querer largar tudo, que te colocam de joelhos como indicam os chineses.
Vou fazer uma pausa, pra explicar 爱 o ideograma chinês de amor. Ele tem um teto de um templo, sobre um 心 coração e um homem de joelhos. Assim, o amor é uma força que desce sobre o templo do coração e coloca os homens de joelhos. Poético não? Sintese dessa dimensão artística da relação amorosa, seja com o divino, seja com o outro que no fundo são a mesma coisa, luz.
A história que revivi com minha amante realmente eletrizou a minha vida. Foi tão intensa que abalou todas as áreas da vida, trabalho, relacionamentos com amigos, familiáres, pacientes, enfim, são aquelas pessoas que passam pela vida e exatamente porque não podem ficar te transformam tanto e em tão pouco tempo.
Podemos separar pelo menos 3 funções das relações sexuais. Veja bem, se você tem questões terapeuticas pra resolver com sua sexualidade, seu corpo e seu prazer, procure um terapeuta freudiano, reichiano sejam lá de que ordem forem as questões. Por exemplo, se vc tem dúvida se é amado ou não e precisa ouvir isso pra encontrar sentido na sua relação precisa de um terapeuta. E terapia é ótimo, mas não é arte e essa mistura pode ser positiva ou não.
Outra coisa diferente é você fazer da arte a sua relação e da vida arte. Assim, yoga e práticas sexuais e amorosas numa relação ganham uma outra dimensão, que foi o que vivi. Extremos teatrais (com suas funções transformadoras, mas não terapeuticas), porque não estávamos preocupados em cuidar e dar acolhimento sempre, mas fundamentalmente ir ao encontro da vida que flui em nós. E quando as demandas terapeuticas são muitas certamente uma coisa pode atrapalhar a outra.
O brilho, a alegria o amor nessas condições “artísticas” são extremos e muitas vezes insuportável para quem está ao redor. Assim como qualquer “extressão artística” não é pra todo mundo. Não é todo mundo que quer levar arte para sua vida sexual e assim para toda a sua vida. Mas como quem pinta um quadro, ou quem dança, as emoções, as paixões, as intensidades é que nos provoca. Menos que isso é perder o contato com a fonte de nossa criatividade.
Tenho aprendido, nas fogueiras da paixão, a cultivar o fogo interior. Não são as imagens dançantes fora de mim que me movem, mas o fogo que brilha e pode irradiar ao redor. Em suma, habitar ao mesmo tempo quem percebe e observa todo o manifesto (masculino) como brilhar no meu coração e perceber os movimentos e dinâmica desse fogo (feminino). Eis o caminho de integração que percorri nos últimos tempos, e talvez se ler os últimos artigos possa entender um pouco mais.
Eu encontrei uma deusa, não sabia se o encontro era com a minha alma ou com uma deidade, e realmente tudo mudou. Minha Anima, minha alma agora dança na fogueira no centro do mundo, na clareira do meu coração e já não se tem nada a perder, o fogo já não pode te queimar, se você já é luz e irradia tudo ao seu redor. O mais que ardeu e queimou é o que precisava convertido nas cinzas do shiva nataraja, o “destruidor de ilusões”.
Transforme sua vida em arte, assim como aprender a cantar ou tocar um violão, experimente graves e agudos, altos e baixos e componha uma sinfonia, cante, cante, cante… “quem sabe a sua canção acalme a fera que espera devorar o pássaro”.
Uma ode ao psicodrama da existência ou ao cosmodrama da vida.
Mas terapia é terapia, arte é arte, na vida há espaço para tudo.
Terapia acolhe, arte/yoga liberta e flui e as práticas espirituais te lembram que somos todos luz.
Então, brilhe, flua e acolha com compaixão tudo o tempo todo!
HA-(mo-re)amo a re
Mar Rio
25-dez-2009
Tantra – quando a morte é uma benção
06/10/09
Tenho aprofundado cada vez mais minha prática de meditação e tenho também me colocado em situações que realmente testam essa condição contemplativa da vida em especial relacionamentos de toda sorte, amizades, amores, mesmo amores platônicos podem ser uma benção na vida.
Dois aspectos básicos da relação entre o masculino e o feminino são: A capacidade do homem de permanecer firme e a capacidade da mulher de lhe retirar dessa posição. (hehehe)

Claro que cabem muitas interpretações pra essa frase, mas num certo sentido, estou falando da capacidade de não se alterar perante o oceano de emoções que são as mulheres.
O feminino não sabe o que quer, precisa de direção, o masculino sabe o que quer e precisa ser retirado de si mesmo e essa dinâmica pode ser muito positiva, ou ser o drama que vemos por aí.
Mas além dessa dinâmica onde o feminino testa a todo esforço a capacidade do homem permanecer ao seu lado, apesar de todas as barbaridades que é capaz de cometer de todas ondas, as tsunamis emocionais e essa capacidade de viver num mundo instantâneo de emoções. Basicamente diante do oceano, o que um homem precisa fazer é permanecer na mesma posição, firme e inabalavelmente ao lado do feminino. Parece simples? Ela vai te testar sempre, dizer o que não quer, pedir o que não suporta e se você fizer o que ela está pedindo ainda vai ficar frustrada com você.
Para além dessas polaridades clássicas e reconhecer essa polaridade como algo extremamente positivo e que anima a relação. existe uma dimensão boa na relação com o feminino que aterroriza homens, mulheres, crianças e adultos em todos os cantos. Qual seja a dimensão morte do encontro com o feminino, claro, se algo merece morrer é mesmo nosso eu separado, nosso eu contraído o que chamamos de ego. Não que um ego saudável não seja bom pra um monte de coisas, mas se ainda resta algum sofrimento e ele emerge na relação com o outro, uma boa mulher vai te matar. Vai te colocar em contato com suas contradições até o limite da sanidade e por incrível que pareça, isso também é amor.

Poucas mulheres tiveram capacidade de me matar, mas são elas as mulheres que eu mais amo, que mais me marcaram, que mais me transformaram fisicamente, afetivamente, cognitivamente e espiritualmente.
Assim o sagrado e o profano estão intimamente ligados o amor mais profundo e a traição o íntimo e o publico, o carnal e o transcendental. Isso é tantra, isso é o engajamento com o real na lama e no lótus, no céu e no inferno, no terror e no amor, na vida e na morte.

Claro que pode não ser uma coisa fácil de se entender, ver uma mulher, uma mãe, uma presença feminina destruir a criação do seu amor, das suas fantasias, dos seus desejos. Mas se conseguir ver, além disso, perceber o divino dessa dimensão pode-se acordar para um amor, uma abertura, uma alegria, um êxtase, uma luz tão acolhedora que é difícil compreender sem lágrimas correndo e sem correntes de energia percorrendo todo o corpo.

Se sua mulher consegue te matar, talvez ela seja mesmo uma mulher para você, se não, vai ser mais uma amiga que nunca vai ter a coragem pra cortar a sua cabeça como nas iconografias tradicionais da índia e do tibet.
Tudo bem, não se pode ter tudo e uma boa amiga ainda é um presente raro da vida.
Relacionamento Integral – entre o pôr-do-sol e a onda
26/09/09
Estou há alguns dias tentando escrever algo sobre relacionamentos. De todas as linhas de desenvolvimento, as relações íntimas parecem ser as principais fontes de crise de desenvolvimento, e claro, se tornam a forma de crescimento mais acessível e talvez mais importante de todas. É assim pelo menos na minha experiência. Claro que crescimento não precisa ser apenas em tempo de crise, mas comumente é assim.
Há tantos aspectos a serem considerados, mas sendo um artigo para uma leitura breve, vou apenas citar alguns pontos tentando ser o mais abrangente num mapa que seja pelo menos útil.
Com milagre do encontro quero dizer a possibilidade do que penso e escrevo possa ser entendido por você que lê, que o que sinto possa ser transmitido e compreendido através desses fótons de idéias para teclado, para tela, para internet, para seus olhos até sua mente e mais além. Isso é um dos mistérios radicais do universo, tão misterioso é enfim o relacionamento.

Eis alguns itens que quero citar. Quem sabe um dia eu possa escrever mais sobre cada um deles, mas a idéia é uma visão geral de uma visão integral que considero importantes especificamente sobre relacionamentos interpessoais. Embora uma leitura própria as idéias básicas são retiradas do modelo integral proposto por Ken Wiber.
1- Desenvolver um amor grande.
2- Encarar o relacionamento como um espaço de prática.
3- Abrir o coração.
4- Meditação.
5- Ligação entre almas.
6- Definir o que você quer.
7- Níveis de desenvolvimento nos relacionamentos.
8- Sexo integral e tantra.
9- Lila os passatempos amorosos.
10- Estágios na Dinâmica da espiral
11- Estados
12- Linhas
13- Tipos
14- Polaridade, gênero e a relação entre o masculino e feminino.
15- A sombra do relacionamento.
16- Paradoxos existenciais
17- Sexo no toque e na cura.
18- “Re-creação” “co-criação” e “procriação”
19- Tocando a face de Deus
Desenvolver um amor grande e não um grande amor.
Em geral um grande amor se relaciona com a capacidade de transcender que o amor nos coloca. Mesmo reduzindo ao nível do objeto da condição humana, amor é no mínimo uma descarga de neurotransmissores que altera totalmente nossa percepção da realidade. Ainda assim é importante distinguir o que vou chamar de amor grande do amor apaixonado. Por amor grande é o que consegue incluir a perspectiva do outro quando avalia a realidade, consegue considerar o outro e suas necessidades, valores e expectativa.
Amor grande não diz vem, amor grande diz vai em direção ao seu destino. Amor grande sabe que ninguém é de ninguém, amor grande ilumina e reforça o lado luminoso do outro, reconhece, acolhe e fortalece seu brilho.
Quando cultivamos amor, o amor se espalha para todas a áreas da vida, cuidamos com amor, cozinhamos com amor, trabalhamos com amor, fazemos yoga com amor!
Grandes amores é o contrário, fazer do amor em si o objeto da relação. Amamos o nosso estado de enamoramento, como dependentes químicos. Amar o amor, o que nasce entre dois é importante, mas só amar o amor esquecendo-se de si e do outro é uma idolatria.
Encarar o relacionamento como um espaço de prática.
Em resumo, precisamos ser sinceros, quando dizer “eu te amo”, dizer também “eu não sei amar”. Quando danço forró eu gosto de dançar com quem já sabe dançar, claro, mas aprendi com alguém que teve paciência pra me ensinar os primeiros passos e como em tudo na vida estou sempre aprendendo novos passos, novos movimentos, cada par que se forma se harmoniza em um ritmo próprio.
Outra questão importante é que se envolver com uma pessoa mais experiente afetivamente quanto sexualmente é um ponto importante.
Abrir o coração
Às vezes o amor bate a nossa porta, mas estamos fechados. “Fechados para balanço”, isso é ótimo, mas manter o anahata chacra, manter os meridiamos em equilíbrio, principalmente os do coração e do mestre do coração (xin bao) também é importante. Às vezes precisamos de um inverno na vida afetiva, mas não deixar de perceber as flores quando a primavera chegar.
Meditação
Meditação na relação tem pelo menos 4 aspectos.
Desidentificar das paixões e das imagens que o outro nos provoca e se manter centrado observando o que emerge como manifestação do espírito.
Praticar tonglen como prática de compaixão infinita.
Perceber e ampliar a consciência dos níveis sutis da relação.
Dar uma gargalhada boa dessa tentativa de organizar um “relacionamento integral.”
Ligação entre almas
Mesmo para quem não acredita ou tem uma experiência relacionada a outras vidas e outras existências, em geral as pessoas não conseguem explicar os nexos estabelecidos entre as pessoas como apenas causais. Não temos razão para o amor. Com dizia Pascal, o amor está além da razão, mas não está contra.
Psicologicamente, por outro mistério da vida, tendemos a atrair pessoas que precisamos de alguma. Se esse sentido aparece, antes ou depois, se ele é um sentido em si ou se nós mesmos que damos o sentido. Fato é que, numa relação transformadora as coisas parecem ter um sentido, uma ligação, uma dimensão espiritual. Aliás, pra muitos, o mais próximo de espiritual que se pode chegar é na relação amorosa.
Definir o que você quer
Uma das coisas mais difíceis numa relação é estabelecer limites para as projeções. Definir as coisas. Mesmo quando percebemos que está “rolando alguma coisa”, se não definimos os limites e as possibilidades da relação isso em geral dá problemas. A frase clássica de qualquer novela é “você não pode me dar o que eu quero ou o que você me dá é muito pouco”. Em geral isso tem muito pouco a ver com o outro e fala mais de nós mesmos. Embora os pluralistas relativistas achem que esse tipo de definição e regras são convencionais e que uma relação não é um contrato, que basta amar que tudo vai dar certo. Da perspectiva integral é importante deixar isso claro, mesmo que o limite, as definições e as expectativas mudem, elas precisam ser compactuadas, normalmente quebras de contrato acarretam sanções.
Níveis de desenvolvimento
Segundo Kohlberg , muito citado por Wilber em Sexo Ecologia e Espiritualidade, nós nos movemos entre três níveis de desenvolvimentos morais básicos: pré-convencional, convencional e pós-convencional.
No primeiro nível, (pré-convencional) os relacionamentos são marcados pelo desejo sexual perverso com múltiplos parceiros e um jogo de poder com fetiches e sado-masoquismo, valorizando a não-monogamia, principalmente com dominação masculina sobre o feminino.
O segundo nível (convencional) o relacionamento sexual é caracterizado pelo desejo de relação com um parceiro principal, normalmente um casamento convencional e convivência doméstica. Monogamia é considerada uma virtude e não-monogamia e outras relação consideradas adultério e traição.
O terceiro nível (pós-convencional) o relacionamento traduz um desejo de intimidade profunda e sexualidade bem vivenciada que pode ser encontrada com um ou mais parceiros em casamentos convencionais ou não convencionais. Monogamia e não-monogamia são consideradas e tem um papel importante no desenvolvimento sexual.
Sexo integral e tantra
Você pode ler mais sobre o que escrevi sobre tantra e arte do encontro e alquimia com o outro.
Em resumo, sexualidade envolve todo um movimento de energias ascendentes e descendentes pelo corpo físico e sutil, ascendendo pelos nadis e merididanos e despertando estados de consciência expandidos.
Lila o passatempo amoroso
O amor divino. Diferente do panteão grego em que os deuses são extremamente ciumentos e cheios de tramas e desafetos. A relação amorosa entre Krishna e Radha implica numa prática devocional e profundamente amorosa. Tanto homens como mulheres ao se colocarem nessa relação devocional com o divino podem trazer isso para sua vida, no contato com essas grandes imagens perceber que os jogos e brincadeiras do amor, tanto no relacionamento como no relacionamento com a vida, com o espírito é tudo uma grande Lila, uma grande brincadeira do viver.
Achar, perder, buscar, encontrar, perder novamente faz parte dessa dimensão lúdica do amor.
O amor é não só uma prática, mas também uma brincadeira na grande brincadeira ou passatempo da vida.
Dinâmica da espiral
Considerando os níveis na dinâmica da espiral, níveis de desenvolvimento de valores e cognitivo vertical.
Púrpura: valoriza o clã, a família, os ancestrais, casamentos arranjados, baseado na tradição da tribo, nos tabus.
Vermelhos: o macho busca satisfação enquanto a fêmea busca o status de acordo com o macho que escolheu. Egocêntrico, permite quebra de tabus e outras ordens familiares, atende apenas às suas necessidades.
Azul: permite o surgimento do amor, a relação se dá em nome de uma causa maior, “crescer a frutificar”, casamentos convencionais com regras de conduta bem estabelecidas. Reaparecem os tabus sexuais, sexo tem a função de procriação e a responsabilidade e o dever perante a família emergem.
Laranja: o individuo rompe com a tradição em busca do que faz com que se sinta bem. Certo e errado agora estão dentro de si e não mais impostos pela lei e ordem da religião ou do grupo. Relacionamentos nesse nível valorizam a expressão pessoal, o relacionamento dura e se atende às necessidades dos indivíduos. Relacionamentos homosexuais, grupais, fetiches e fantasias são aceitos como algo que possa estimular a relação.
Verde: Homens e mulheres e outras formas de parceria tem ênfase no igualitarismo e na sensibilidade para com os afetos e necessidades. Necessidade de uma conexão profunda entre os parceiros. O relacionamento tem ênfase no compartilhar de papéis, nas trocas entre masculino e feminino. Reprodução, satisfação sexual e status não são suficientes. Criatividade, espiritualidade, compartilhar emoções e construir a relação são partes centrais da vida.
Amarelo: Percebe e integra toda a espiral entendendo os vários níveis de desenvolvimento e incluindo o relacionamento em todos os seus aspectos. Grande capacidade de lidar com os paradoxos dos relacionamentos e também capacidade de se distanciar deles conectando com a dimensão observadora e contemplativa. A percepção das energias sutis e jogos de puxar e empurrar de agarrar e soltar e manipulações mesmo através das energias sutis também passam a ser harmonizadas. Impulsos de kundalini passam a ser uma experiência mais e mais freqüente e precisam também ser harmonizados em si e ao redor.
Turquesa: Sexo, amor, desejo, libido se expandem para todos os seres, consciência cósmica de que todas as relações são emanações do espírito. Relacionamento a partir de todos os chacras e corpos físico, sutil e causal. Sensível, aberto a todos os fluxos de energia interno e externo, sem identificação mais com os jogos verbais do ego. Se orienta pela posição no fluxo de energia do momento.
Estados
Podemos dizer que o amor é em si um estado alterado de consciência. E com certeza pode impulsionar o nosso crescimento, aprendemos muito mais fácil e nos abrimos muito mais quando experimentamos amor.
Aqui, vale lembrar a distinção básica de Eros e Ágape, um amor que sobe e nos eleva e outro que nos faz baixar e nos aproxima da diversidade. São expressões amorosas complementares e correspondem a estados de consciência também complementares.
Linhas
10 anos atrás quando surgiu o termo inteligência emocional, ficou claro que por mais inteligente e brilhante cognitivamente que alguém pudesse ser, não necessariamente, ele seria moralmente ou emocionalmente desenvolvido.
A idéia de uma linha de desenvolvimento no relacionamento é que de fato, relacionar-se é algo que se aprende e como tudo que se aprende fica melhor se existir um ambiente que facilite o aprendizado ou bons professores.
Assim, capacidades interpessoais também precisam ser desenvolvidas que incluem capacidades de empatia, comunicação, escuta, diálogo, flexibilidade, tolerância, tudo que se aprender para facilitar o contato, capacidades de consciência corporal, corporais, sensoriais também podem ser incluídas aqui.
Goleman destaca alguns aspectos importantes da inteligência emocional
1- Habilidade de identificar seus próprios estados emocionais e entender a ligação entre emoções, pensamentos e ações.
2- Capacidade de administrar os próprios estados emocionais – controlar emoções ou mudar estados de emoções destrutivas para estados mais adequados.
3- Habilidade de ativar estados emocionais à vontade associados com o desejo e a capacidade de realização, ou seja, usar as emoções a seu favor.
4- Capacidade de perceber e ser sensível à influência das emoções dos outros.
5- Capacidade de entrar e sustentar relacionamentos interpessoais.
Tipos
Os tipos básicos são o masculino e feminino e entender essa dinâmica é fundamental num relacionamento. Leia o meu artigo sobre yin-yang masculino-femino.
Além disso, existem tipologias mais complexas com o eneagrama. Basicamente, temos estilos ou personalidades, independente do estado ou estágio que estivermos de desenvolvimento. Essa personalidade ou esse caráter pode estar mais ou menos encaixado na sua relação, mais ou menos fixado.
Uma boa forma de estudar tipos também são símbolos astrológicos.
De qualquer forma, tipologia é um estudo horizontal importante que afeta as relações.
Polaridade, gênero, masculino e feminino
Cada nível ou corpo, do grosseiro ao mais sutil, pode apresentar polaridades diferentes, assim a fluidez entre identificações masculino e feminino também. Em níveis mais profundos, podemos realizar um casamento interior descrito nas tradições alquímicas de todo o mundo. Essa hiero gamos, essa união de opostos psíquica aparece também na leitura de Jung relacionada aos estados transpessoais de consciência.
Sombra e relacionamento
Relacionamento é espaço privilegiado para emergência de conteúdo reprimido e sombrio. Quase sempre culpamos o outro por nossas misérias e a tarefa básica da terapia de qualquer tipo é o lembrar que só você é responsável por seu estado psíquico.
Mesmo assim, relacionamentos anteriores, outras relações simultâneas, relações familiares e os diversos papéis desenvolvidos numa relação podem ser expressão de conteúdos reprimidos.
O trabalho sobre a sombra, seja em auto-análise bem como com um terapeuta, é fundamental.
Paradoxos existenciais
Vida e morte
- sexo e relacionamentos aumentam minha alegria e vitalidade num corpo que vai inevitavelmente envelhecer e morrer
- assim no meu coração eu digo silenciosamente sim para a morte
- enquanto eu afirmo com alegria a vida com todo meu ser
Dedicação ao outro
- radicalmente não existe “outro”
- não existe ser separado do espírito que eu possa servir ou libertar
- assim eu me dedico a libertar e servir todos os seres
Compromisso e desapego
- eu me comprometo profundamente com o outro na relação e na prática
- eu me desapego profundamente de todos os resultados e expectativas
Sexo no toque e na cura.
Sexo, geralmente, faz bem à saúde!
Mais que isso, o espaço de intimidade absoluta é normalmente um espaço de cura tremenda, de confissões totais, de abertura infinita. Reich nos lembrou dessa integração da vida que pulsa em nós e da atividade sexual. Corpo, mente e espírito se curam numa aliança amorosa profunda, não há muito mais o que dizer.
“Re-creação” “co-criação” e “procriação”
Acho que essas palavras falam por si só.
Tocando a face de Deus.
Recentemente na tradição cristã, Maria Madalena foi trazida a cena. Felizmente! Embora ainda vivamos essa dicotomia entre religiões pagãs que celebram a vida e religiões transcendentais que celebram o espírito, eu confio no “enlaçador de mundos”, no pontífice, naquela que consegue fazer uma ponte entre o céu e a terra, nessa condição humana de desfrutar de todo o espectro da consciência. De estar ao mesmo tempo na terra e no céu. De ser invejado pelos anjos, de poder se libertar. Só num corpo humano nós temos todas essas possibilidades. E ser completamente humano é mergulhar nas profundidades e nas altitudes e todo o espectro da vida em todas as cores da espiral e todo o arco-íris dos chacras em todos os vasos maravilhosos.
Somos um nó de relações, somos o cuidado em forma humana, somos nascidos do outro para o completamente outro. O mundo já estava aqui quando eu me percebi aos dois ou três anos de idade, mas eu talvez estivesse antes do mundo existir e continuarei além dele. Somos assim, puro espírito, mergulhados nesse caldo de sensações bioquímicas, energéticas, espirituais.
Somos o mistério profundo e tremendo de nós mesmos. Quem sou Eu? Quem sou Eu? Quem sou Eu?
Assim, vemos em parte, mas um dia veremos face a face.
Que seja cada um que chega ao seu caminho, uma face do divino. E cada sorriso ou lágrima uma brincadeira de Deus.
No mais, boa viagem! Você chegou aqui sozinho e vai sair sozinho, mas pode aproveitar a caminhada em boas companhias.
ps. Em tempo, eu sei que fiquei devendo aprofundar esses tópicos, mas é só um blog, quero mesmo ouvir as opinões de vocês sobre o tema.
Tantra e a Arte do Encontro e da Alquimia com ou Outro
22/09/09
Sexo é uma dos aspectos da vida mais mostrados na TV, bancas de jornais, internet. A prioridade humana com relação ao sexo é enorme mas poucos conseguem ter prazer com isso, ou pelo menos fazer dessa relação íntima à dois, ou três, ou seja lá com quantos, se dê de forma saudável e se converta em alegria, saúde e energia em todos os outros aspectos da vida.

Freud foi realmente genial ao colocar a libido ou a pulsão que é normalmente sexual no centro da vida psíquica e na constituição do sujeito. Os símbolos, como Jung os descreve, sendo aglutinações de energias psíquicas que tratam do sexo, também são muito presentes em sonhos e nas religiões do mundo. De fato, dificilmente vamos além das nossas fixações eróticas originais e é bem conhecido todos os tipos de doenças e distúrbios psíquicos que podem surgir deste movimento da energia ou da libido pelo corpo em desenvolvimento. Nesse sentido, a psicanálise e, por exemplo, a terapia reichiana tem uma contribuição importantíssima para nos oferecer.
Ainda no ocidente, eu poderia lembrar que no cristianismo, por exemplo, o sexo está cheio de tabus e que os papeis arquetípicos da mulher na bíblia é em geral de mães “virgens” ou prostitutas. Não há um papel central para a mulher no movimento das energias sutis e sexuais como na tradição tântrica, tanto taoísta, budista ou védica. Mas ainda há um longo caminho para que tanto homem quanto mulheres encontrem uma relação harmoniosa e verdadeiramente saudável.
Em geral, sexo desgasta energia e desorienta a vida, é um fato. Na medicina chinesa e na alquimia em geral sexo pode causar doenças se praticado em excesso e os níveis de doenças associadas ao sexo também são muitas.
Ao buscar uma vida integral e integrada, a sexualidade e essa relação radicalmente intima entre duas pessoas precisa também ser considerara, mas como resgatar as tradições orientais que desenvolveram essas artes de amar sem que isso se torne mais um fetiche?

Textos como o Kama Sutra ou Rig Veda ou até mesmo o Yoga Sutra de Patanjali trazem descrições dessa arte de intimidade radical não apenas como algo muito positivo que nos “descarrega” tensões, mas fundamentalmente algo que pode nos conduzir ao êxtase, à transformação do fogo em luz da consciência, à evolução.
Na alquimia taoísta os canais de energia envolvidos na relação sexual, nos órgãos sexuais, Lingam e Yoni como chamam os tantristas é fundamental, claro que vez ou outra todos praticamos tantra. Tantra no sentido de que todos temos uma relação cuidadosa e total, em que o tempo de contato de trocas de energias de palavras de carícias é tão importante como o ato em si e o prazer da relação dos olhares da energia que circula entre hormônios e músculos entre suor, cheior e sabores, tudo isso, pode ser uma forma de cultivo integral, quero dizer tanto do corpo físico , sutil ou causal. Sim é possível amar em todos esses níveis e nem sempre os papeis masculinos e femininos estão harmonizados em todos esses níveis.

Energeticamente, temos no ocidente principalmente, uma busca de religiosidade e filosófica vertical e ascendente. Para ter uma idéia, o próprio Freud parou de ter relações sexuais aos 35 anos para se dedicar a escrever. Seu sintoma compulssivo que o fazia escrever mais de 30 laudas diariamente e “Cada orgasmo era um livro que se perdia” .
Ou seja, a busca o uno, o pai, o criador o divino acima de nós, ou mesmo os pensamentos mais abstratos se opõe a tudo que é mundano, tudo que faz descer a energia que passa a ser considerado negativo. O movimento ascendente se traduz, no corpo sutil, pela subida da energia pela coluna, pelos chacras e pelos diversos níveis de consciência. Em alquimia taoísta e ayurveda essas práticas também são enfatizadas como modos de realização espiritual.
O que nos falta é mesmo aprender a ascender e descender essa energia. No caminho para a baixo ao invés do uno se encontra a pluralidade de todas as manifestações sensações, emoções e pensamentos é o caminho em direção à Terra, ao alimento ao corpo com saúde e alegria. Talvez encontremos no caminho uma sexualidade polimórfica, uma capacidade de sentir prazer em todos os poros do corpo, alegria, êxtase em cada toque seja possível e não apenas pelo prazer em si mas porque implica numa vitalidade que se transmite para todas as outras áreas de vida, enfim, sexualidade e vida integral.
Outra relação vertical importante que se estabelece são as imagens arquetípicas de Grande Pai, Shiva e de Grande Mãe, Shakti, de Céu e Terra, de Urano e Gaia que divide o pensamento e as práticas espirituais em geral. Mas podemos também estabelecer relações horizontais entre essas polaridades, e até mesmo internamente como já escrevi aqui no artigo sobre Yin e Yang, e também na relação intima amorosa e sexual.

Como psicólogo, o que mais escuto na prática clínica são queixas sobre problemas na relação. As pessoas se dizem capturadas e não mais “cativadas”, se sentem prisioneiras e claro, níveis muito sutis de justificar e buscar uma causa pra essa situação, todo tipo de “encaixe” neurótico se estabelecem.
Basicamente, neurose se estabelece quando você para de falar a verdade para você mesmo sobre você mesmo, quando você mente pra si sem saber que está mentido. O sintoma que convoca a escuta é perceber a consequencias numa vida que perde a alegria e a graça de viver. Assim, o sentido mais simples da terapia seria encontrar o caminho da sua verdade ou como queiram, do seu desejo. Numa para a relação, encontrar como podemos fazer com o outro uma dança, uma dança que fica mais e mais bonita quando um sabe perceber a maestria com que homens e mulheres desempenhando papeis diferentes podem se harmonizar.
O mesmo se dá com relação ao sexo e aos relacionamentos, podemos ser muito desenvolvidos na nossa relação conosco mesmo, na nossa relação com nosso próprio ego, podemos ser até muito bons na relação com o divino transcendental, mas conseguir desenvolver maestria no campo dos relacionamentos íntimos parece ser uma dificuldade generalizada. Não temos ainda uma forma saudável e aceitável de viver a maravilha que é uma relação que inclua todas as outras dimensões na intimidade do amor e do sexo.
Assim, confio que é possível, se você já tem uma relação amorosa, inclua essa dimensão alquímica e transformadora e poderosa das práticas Tântricas. Faça sexo com o corpo, mas também com todos os outros corpos, com as emoções, com os pensamentos, com suas energias e até mesmo com a dimensão causal ou não-dual, ou seja um enamoramento radical da subjetividade com o objetividade e vice-versa.
Na relação somos assim: sujeito-objeto/objeto-sujeito/ sujeito-sujeito/ objeto-objeto/ Sujeito (8) subjetividade infinita……..~
Quem ama quando dois seres humanos se encontram senão a natureza que se encontra, o divino que se enamora. Tão comum é relacionarmos as imagens de Deus como uma relação amorosa, mas não conseguimos fazer o inverso, trazer o divino para a relação amorosa.

Certa vez perguntei a uma amante: como é ser vista como uma Deusa? Ela respondeu que era muito bom enquanto eu ria e chorava de êxtase. Ela me perguntou se eu sentia dor e lhe expliquei que era amor demais, mais do que eu conseguia suportar.
Se há amor demais, mais do que consegue suportar, distribua, sorria, cuide, faça comida, escreva textos, cuide da casa do corpo da mente e do espírito e esteja engajado tanto no céu quanto na terra, tanto com o sol como com a lua, tanto com yin quanto com o yang.
Tantra radicalmente quer dizer engajar-se com o mundo, perceber que Samsara é Nirvana e que Nirvana é Samsara que o uno e a diversidade são o mesmo.
Mas como tudo na vida demanda prática, então boa prática!
Bhakti e Ananda – A Devoção Amorosa e a Bem-Aventurança
20/09/09
Meu primeiro contato com Bhakti (ou prática devocional) foi nos Estados Unidos. Morei lá e vivenciei na juventude o movimento gospel americano quando cantávamos todos os dias pela manhã cantigas de devoção e doçuras divinas, de bem-aventurança, de êxtase perante o divino. Jesus era o grande mestre, rei dos reis, a imagem de amor de alegria de perdão, de brilho e transbordamento e na juventude foi uma grande converssão.
Atualmente, eu faço uma prática diferente dessa prática devocional. Tenho feito práticas de meditação budista, especialmente zen e budismo tibetano, tenho feito práticas em busca da não-dualidade, de um sujeito sem objeto, de um sujeito que nega os objetos para encontrar o espaço infinito onde tudo emerge que é o próprio espírito.
Assim, nessa perspectiva, eu-eu, essa busca interna que na India se expressa na tradição de Shankara divide muitos caminhos filosóficos que tento sintetizar aqui. Pois não se trata de uma prática teísta a prática meditativa, e se há de alguém descobrir Deus, esse Deus, esse “D+eus” somos nós mesmos, além de qualquer identificação.
Do outro lado, temos o Gita com a doçura e misericórdia de Krishna, na luz dourada de Goranga, na personificação do amor que acolhe toda a sombra e mergulha tudo no seu êxtase divino de primores, formosuras e ananda.
Essa última relação com o Divino é uma relação Eu-Tu, onde somos convidados a estabelecer uma relação amorosa com o divino. Tal como na tradição cristã, onde Teresa d´Avila nos fala da possibilidade de estabelecermos um casamento. Onde o mais nobre quarto das suas moradas, do seu castelo interior é o quarto de núpcias, onde nos encontramos numa relação amorosa de abertura para o outro para o Bem-amado.

Infelizmente nas tradições os que estabelecem uma relação eu-tu com Deus são considerados ilusórios e projetivos. Diz o ditado zen: ” se você encontrar Buda no seu caminho, mate-o”, para que possa nascer dentro de você. Então se uma presença luminosa de Deus chega à sua consciência ela deve ser desidentificada, “assassinada”, para que nasça dentro de você. Assim na índia o caminho budista é considerado um caminho ateísta. E de certa forma é verdade também, relatvia, mas também verdade.
Assim, como aprendi que está todo mundo certo eu tento integrar essas dimensões o que quase me leva a loucura, mas eu sou teimoso! Pois para alguém estar totalmente errado é preciso estar muito certo.
Voltando a falar de Bhakti, meu segundo grande encontro devocional foi com os discípulos de Sai Baba, cantávamos bajans, às vezes por 24h e era um tremendo êxtase, cantava e tocava violão e tabla. As práticas devocionais desse período foram as que tiveram o maior impacto na minha vida, foi o momento que mais me transformei, ou seja nessa relação devocional com o o Divino e suas personificações, tinha uns 18 anos nessa época.
Percebidas essas diferenças, eu confio e sinto profundamente no meu coração e na minha sabedoria que o caminho da meditação, eu-eu. e o caminho de bhakti. eu-tu. são complementares. São formas de estabelecer relação (real-ação) com o divino.
Ontem, estive no Templo de Gora Nitai em Teresópolis. Ao chegar lá para surpresa encontrai um grupo de niteroienses que visitava. Eu me sentei e praticando minha meditação de abrir espaço tentei manter a alegria e o desapego de sempre na tal prática budista. Mas depois de muitas histórias e de prática de Yoga depois do Satsang, abriram-se as cortinas das Deidades e começaram os kirtans (cânticos devocionais).

Goranga se manifestou então na sua qualidade mais pura, é uma manifestação da divindade na sua forma mais abrangente, mais amorosa, mais misericordiosa, na sua radiância dourada em todas as direções convidando a todos para ser acolhido nesse amor. Claro que mesmo se eu fosse um grande poeta não poderia descrever a luz e a alegria desse encontro.
Aos poucos a energia do pequeno templo, comparado com seu vizinho Vrajabuhmi inundou meu coração. Lágrimas correram e desceram pela minha face e também pela minha alma.
Correntes em espirais de Ananda subiram pelo meu corpo enquanto era tomado de êxtase nos mantrans entoados com tanta devoção.

Depois do grupo de Niterói se despedir, tomei um banho como no rio (Ganges) inundado daquele amor e êxtase, inundado de incertezas perante esse caminho devocional que andava esquecido nas minhas práticas supliquei pelo divino em minha vida. Em seguida coloquei-me a conversar com o “Guru” (literalmente aquele que te leva das trevas para a luz) e recebi naqueles instantes a transmissão silenciosa de várias sínteses. Do budismo zen ao cristianismo sob a luz abrangente da tradição Vaishnava. Do mistério da trindade e a filiação, dessa posição de filho de Deus, dessa posição de devoto de Deus dessa posição “di-amante” de Deus.
A noite se seguiu com tantas conversas maravilhosas que meu corpo ardia de energias que mal consegui dormir. Ao acordar fiz uma mini=saudação ao sol enquanto ele nascia e fomos filmar um vídeo de Yoga na fazenda Vrajabumi para compor as práticas integrais do instituto multiversidade. Não sou um praticante de Yoga ou iniciado ou religioso de toda sorte. Mas percebo os benefícios da prática apoiada na sua tradição e de como querendo construir uma formação para que as pessoas encontrem seu Sadahna, seu caminho de práticas, é importante essa aliança com uma linhagem de transmissão de conhecimento espiritual.
Em Vrajabumi o ambiente é maravilhoso, o templo lindíssimo, e a adoração dos Devotos, as prostrações as oferendas e leitura do Gita, A MARAVILHOSA PRASADA dos “Hare Krishna” e muito amor que o ar e os alimentos irradiavam luz.
Bem, o que eu quero deixar aqui registrado nesse blog é que pra mim, redescobrir a alegria dessa relação amorosa com Deus é tão especial, sinto um alívio tão grande, uma confiança tão grande na vida, nas pessoas e um amor transbordante por todos que me cercam. Espero ter podido convocar um pouco dessa relação amorosa contigo.
Assim, Bhakti e Ananda, a entrega ao outro e as graças recebidas são assim, amor irradiante em todas as direções. Hoje disse para uma amiga, estou enamorado e em seguida esclareci que era por Krishna.
Eu resumo, se encontrar Deus na sua frente, mate-o, para que ele possa nascer dentro de você. E mais importante, se encontrar deus dentro de você e não suportar, projete-o para fora, e estabeleça com ele uma relação amorosa. O universo inteiro vai se converter em Ananda.
Dedicado a Gopinata Prabu todos os meus agradecimentos por esse final de semana muito auspicioso. E os presente de poder estar junto durante essa celebração.
E ao mundo” verde-amarelo” depois de tantas conversas sobre a dinâmica da espiral.
Yin e Yang – Feminino Masculino – Homem Mulher
18/09/09

Na china antiga, os sábios desenvolveram entre tantas teorias uma que até hoje é considerada fundamental na dinâmica de vida humana, seja na relação consigo mesmo, com o outro ou com o céu e a terra, como se referiam os clássicos de filosofia e medicina chinesa.
Quando me refiro ao masculino e feminino, enquanto tipos, quero indicar a dimensão que tanto mulheres como homens podem apresentar.
Yin Yang tampouco se refere ao aspecto masculino feminino apenas, mas a todas as relações de expansão e contração do universo, ao movimento das energias ascendentes, yang e descendentes yin.
Posto isso gostaria de estabelecer algumas analogias:

Diz o clássico da medicina chinesa: O Yin nutre o Yang e o Yang protege o Yin.
No precioso corpo humano, nosso veículo de manifestação do espírito, yin yang se expressão em funções e formas de órgãos e vísceras e os meridianos yang percorrem as costas, protegendo a parte interna que guarda os órgãos mais sensíveis percorridos pelos meridianos yin.
Com relação aos estilos de práticas espirituais, os estilos masculino e feminino também são diferentes. Homens consideram avançar na prática pela sua capacidade de aprofundar e permanecer presente e enraizado, numa expressão mais vertical. Mulheres consideram avançar na prática pela sua capacidade de estabelecer relações de “tecer redes” de cultivar a disposição de encontro e serviço amoroso. Mas podemos lembrar que tanto um quanto outro aspectos são comumente desenvolvidos tanto por homens quanto mulheres, meditação e serviço são aspectos para ambos praticar.
No campo das ciências da cognição existem evidências de que mulheres tendem a preferir homens com ombros largos pois isso indicaria uma capacidade do eleito de protegê-las enquanto homens tendem ainda são atraídos por uma mulher capaz de nutri-lo tanto organicamente quanto afetivamente.
No campo do comportamento social homens tendem a ser mais expansivos, buscando muito mais parceiros enquanto mulheres tendem a cultivar menos afetos. Uma explicação evolutiva seria a capacidade de escolher um homem que possa protegê-la, bem como a sua prole. Esse dado se evidencia inclusive em casamentos homosexuais em ambos os sexos.
Não reconhecer essa diferenças de estilos gera muita frustração e ainda estamos por reinventar novos estilos de convívio ao passo que os aspectos masculinos e femininos, yang e yin se tornam mais integrados tanto na relação do sujeito consigo mesmo , quando na relação afetiva e sexual com o outro.

Assim, um aspecto yang, masculino saudável, tente para autonomia, força, independência e liberdade. Um principio yin, feminino saudável, tende para deixar fluir, com ênfase nos relacionamentos, no cuidado e na compaixão.
Feitas as leituras em todos as perspectivas, considerando a subjetividade a intersubjestividade, a relação com objetos sinculares e culturais gostaria de concluir lembrando que na sabedoria da medicina chinesa e no equilibrio dos afetos que redescobrimos no dia-a-dia, o yin e o yang, masculino e o feminino, homens e mulheres em harmonia se nutrem e protegem mutuamente.
Podemos expandir isso para nossas práticas diárias, como os aspectos e estilos estão integrados na minha vida, nos meus afetos e principalmente na minha relação com o universo.
O aspecto masculino e feminino estão presentes em ambos os sexos e há aqueles que manifestam e se tornam especialistas em um ou outro, podemos também buscar uma visão mais integral, como podemos cultivar um aspecto mais masculino ou mais feminino em nossa vida para alcançar a “serena alegria de viver”?
Mário Fialho é psicólogo clínico especialista em medicina chinesa.






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