Reflexões sobre o livro A Dimensão Espiritual do Eneagrama

Peço perdão aos meus visitantes, pois não consta aqui nenhum outro texto sobre o eneagrama e vou fazer referências em “eneagramês”, mas acho que para os que já leram o livro, poderá servir de reflexão. Vou assumir uma postura crítica com relação ao livro, já que os pontos fortes do estudo do eneagrama são muitos, vou me ater aos pontos que considero fracos ou perigosos, uma atitude tipicamente 1 e 6.

Comecei a ler o livro A Dimensão Espiritual do Eneagrama de Sandra Maitri com uma grande expectativa. Uma década atrás o eneagrama tinha sido uma das ferramentas mais poderosas que entrei em contato, junto com homeopatia, florais, budismo e um monte de coisas que aos poucos foram me convertendo de estudante de direito em terapeuta.

A introdução do livro começa com uma idéia de que não é a experiência familiar de cada tipo que vai definir sua tipologia, mas que esse é um problema mais complexo segundo a autora, por exemplo, isso não explica quando irmãos têm experiências parentais completamente diferentes. Ou sejam são filhos dos mesmos pais, mas são tipos diferentes. Vale a célebre frase de Sartre: “não importa o que nos acontece, mas como reagimos a ela.” Ela levanta uma hipótese genética da tipologia que me parece ser possível dentro das pesquisas de psicologia evolutiva e da moderna neurociência. Complicado isso, mas diferente da proposta por Naranjo e me pareceu bem origina. Infelizmente não durou a minha animação, logo depois ela vai e afirma que a personalidade vem na “idéia da mãe sobre o filho” e vem no “leite manterno”, uma pena.

Ela introduz rapidamente, ainda no ínício do livro, a noção de idéia divina, que parece nova, e diz ter vindo do Almaas, pra Idéia divina do Ser parece ainda está dentro do sistema do eneagrama, sendo uma extrapolação das “virtudes do tipo”, é uma visão muito ainda dentro do eneagrama, não é uma superação apenas uma dimensão literalmente idealista do tipo.

modelo eneagrama sandra

Mesmo superando o sofrimento original do tipo, ainda é preciso superar o nível de progamação do eneagrama, partindo para sistemas de leis mais amplas do que as leis que regem o eneagrama. No exemplo do quarto caminho, caminha-se entre os mundos e leis de complexidade, sendo o eneagrama expressão dessas leis numéricas. Quando mais leis, mais restrita a experiência de mundo, ou seja, menos ação livre.

Não vejo nada demais no conteúdo em si, ela simplesmente pegou o que Naranjo ensinou e não publicou, mas a sua experiência no grupo de trabalho do eneagrama com Naranjo e explorou com idéias meio “nova era” do tipo, essência, alma, Ser, idéia, natureza da alma, sem definir o que vem a ser essas coisas. Mas a intenção pareceu-me ser muito boa, embora supeficial.
Uma idéia apresentada no livro que eu não gosto é essa de identificar com a infância os estados transpessoais da experiência. A idéia de paraíso perdido, de queda do ser, que o Naranjo chama de obscurecimento ôntico, ou esquecimento do ser, embora ache que são noções com nuances bem diferentes eu passei a compreender que são bem problemáticas. Eu durante muito tempo cultivei essa idéia de paraíso perdido, (sobre o tema recomendo um livro do Pierre Weil chamado a neurose do paraíso perdido) de perda da essência. Em Freud, por exemplo, a idéia de viver essa experiência do Ser, está ligada a noção de regressão  infância, ao narcisismo primário, facilmente confundido com o que a autora apresenta, mas pra Freud, e eu concordo com ele em parte, isso é uma experiência narcisista, ou seja volta-se sobre si mesmo e retorna a experiências pré-egoicas descritas como oceânicas ou uterinas, de indiferenciação.  Jung vai pro extremo oposto, considera que todas as imagens emergentes são transpessoais, ou seja, arquetípicas. Enquanto Freud leva todas as experiências para o nível pré-egoico, infantil, Jung as considera trans-egoicas, acho que os dois extremos são precisam ser diferenciados e podem ocorrer durante o estudo do eneagrama ou seu uso na prática clínica.

A idéia do texto, de retorno ao ser perdido, reencontro da criança anímica, do eu verdadeiro perdido em algum momento é muito ingênua. É claro que os níveis transpessoais da experiência são níveis de organização mais complexos e profundos, ou altos se preferir, e não se tratam de regressões narcisistas a estados de indiferenciação. Ao contrário, são processos de diferenciação e integração com o corpo, com emoções com pensamentos e depois com a emergência de um pensamento transverbal e não-dual. Eu reafirmo essa crítica porque anos atrás, eu confundia muito esse tema e não percebia essas nuances.

Outra questão séria, que pra mim é um erro perigoso e “nova era” é querer desintegrar o Ego, essa abordagem é extremamente perigosa e pode gerar graves estados de desequilíbrios psicológico. É praticamente uma proposta e convite a pessoa entrar num estado psicótico, a idéia de destruir o ego, ver o ego como inimigo, como falso eu. Não há porque “desintegrar” o ego, mas colocá-lo a “ser-viço do Ser”, capaz de refletir a dimensão noética, transpessoal, cósmica, ir além do ego. Cuidado com isso de desintegrar o ego, o que pode acontecer de verdade é isso acarretar uma cisão da personalidade, enquanto o caminho da ampliação da consciência é um caminho de reintegração e integração, ou até “entregação”,

Concordo muito com idéia de que o 9 é a porta de entrada e de saída do eneagrama. Embora ela não chegue a afirmar isso, dá pistas nesse sentido. Em geral a apresentação e a importância dada dos tipos triangulares na gênese das fixações é bem interessante, mas fica faltando descrever o caminho pra fora disso que na minha opinião passa também pelo triangulo também.

expulsão do paraíso

Outra percepção equivocada se dá na noção que a “queda” do tipo, se dá por uma perda da idéia divina, no caso do 9 do amor divino. Isso não faz sentido, nós só reconhecemos esses estágios mais complexos e ampliados depois, não há que se perder uma idéia de divina se ainda nem temos algo chamado idéia. No caso do budismo, um mestre reconhecido, não sai ensinando tudo quando é criança (por mais sensibilidade e brilho que ele possa demonstrar), ele precisa educar a mente para se tornar o veículo de manifestação de uma sabedoria transcendental.

Na minha auto-análise, o que define e organiza o tipo 9 na sua percepção equivocada da realidade, sua “queda”, é a idéia de “mudança do mundo” que se opõe a inércia do tipo. A compaixão (no sentido budista do termo) como abertura de sentido radical perante a realidade, ou mesmo o voto do Bodisatva, de que se recusa a sair de Sansara enquanto todos não estiverem libertos e por isso mesmo, abre mão da iluminação, como condição para conquistá-la, é o passo mais nobre do caminho 9 e também o passo para fora do eneagrama em direção a estados mais elevados de consciência que podemos chamar de nirvana, embora não ache que nenhum nome possa descrever essa etapa, pois seja o que for, é apenas mais uma etapa, a evolução da consciência é infinita, não tem essa de dizer, cheguei, estou no topo da montanha, daqui não tenho mais nada o que vivenciar, encontrei a verdade ultima do universo, mesmo os mais iluminados, estão todos em evolução.

Aqui o tipo 9 tem uma outra coisa muito importante pra ensinar, é um equivoco achar que em estados elevados de consciência você sofre menos. É a promessa de todos os profetas, mas o fato é, que quanto mais consciente, mais sensível, mais você sofre, a diferença, que faz toda a diferença é só que não se identifica mais com esse sofrimento.

Acho totalmente desnecessário pegar pessoas com as quais não se convive para fazer uma leitura eneagramática. Claro que existem ícones estereotipados, mas só mesmo a pessoa pode descobrir seu tipo investigando ou se colocando em análise. Essa coisa de dizer fulano é isso ou aquilo é uma bobagem e serve pra que? Eneagrama só funciona olhando pra dentro, não pra fora.

No texto, aparece um mix total de níveis. É minha principal dúvida com relação aos avanços do eneagrama nos últimos tempos é se foi possível organizar por níveis de consciência. Se ficou claro os níveis em que os tipos podem estar, um tema que pra mim ainda está faltando, não encontrei.

O problema desses livros que li, de alunos do Naranjo, é que falta a descrição estrutural do tipo e o insight profundo e detalhado do professor chileno, isto é, se você entende o mecanismo básico de condicionamento do comportamento, não é a exterioridade objetiva desses comportamentos que determina o tipo. Em tese, todos os tipos podem ter todos os comportamentos – em tese – mas a motivação de deficiência que origina esse comportamento é aparece para o agente, seu equivoco,  sua fixação, seu tipo, sua estrutura que fica com uma ferida original, para onde sempre volta.

Vale fazer então, para que isso não vire uma monte de comentários desarticulados, uma reflexão sobre estados e estágios. Os “estados” são efêmeros, todos podem experimentar a fé, amor, sobriedade, visão intuitiva, perfeição, coragem, desapego ou mesmo experiências não duais de estar mergulhado no instante e sentir-se um com o universo; pode acontecer com qualquer um.

A questão é, a meu ver, mudarmos o nível ou “estagio” de consciência que se torna então referência para sua visão de mundo mesmo dentro de qualquer tipo. Gosto pessoalmente da dinâmica da espiral para pensar essa questão, principalmente por propor níveis emergentes de consciência e por ofertar pesquisas estatísticas sobre seus estágios.

Sigo minhas críticas com a afirmação da autora de que iluminação é só se desidentificar com o ego, alcançar a idéia divina do tipo, me parece uma noção ainda muito restrita. Infelizmente, com o eneagrama fora da tradição, sufi, budista ou do quarto caminho, não temos como saber o que fazer, na prática, porque não temos um grupo pra nos dizer que o que estamos percebendo não é nada de muito importante, pois no caminho, cada nova emergência que surge é mais um ponto de identificação. Essas idéias “divinas” são um ESTADO superior vividos principalmente pelos próprios tipos dessas idéias, não parece em nenhum momento caracterizar um ESTAGIO superior.

iluminado

Outra problemática com relação a idéia divina, muito comum e perigosamente sedutora é a descrição dos estados “superiores” de consciência dentro do que a autora chamou de idéia divina. O problema com a ênfase nesses estados é uma contradição com noção fundamental apresentada inclusive no início do texto, de que o Ser está pronto que basta retirar o condicionamento que ele emerge.

diagrama_eneagrama

Ora, se isso é verdade, não faz sentido ficar descrevendo essas “idéias divinas”. Pra mim, isso parece uma concepção de influencia religiosa cristã que permeia o estudo do eneagrama. Assim, acabamos por querer esses estágios ou ficar orgulhosos do nosso potencial superior, ou “querer” esses estados superiores, se identificar com eles o que seduz.

Principalmente nesse contexto de que nós devemos todos nos aprimorar, nos tornar melhores, nos aperfeiçoar, essa cultura do “investir em si mesmo é o grande negócio” que permeia o estudo do eneagrama. Pode-se facilmente, principalmente para os tipos 1, ficar achando que dentro do próprio tipo, é possível encontrar a PERFEIÇÃO DIVINA. Parece mesmo um platonismo e o mundo das idéias divinas.

No caso do Naranjo, seu livro cita os pecados capitais, que considero muito preciso a forma como ele faz isso, mesmo porque ele situa dentro de uma tradição que encara o trabalho sobre si, o trabalho de autoconhecimento dentro da tradição ocidental cristã.

Divina Comédia
Tal como na divina comédia, o capítulo sobre o purgatório é muito maior do que as descrições celestiais. Assim também no eneagrama devemos passar mesmo mais tempo encarando o tipo e sua prisão existencial do que querer fugir para paraísos ou estados de narcotização tipicamente 9, mas que se aplicam a todos os tipos.  Jung falava que não é olhando para o ouro que se transforma chumbo em ouro, mas olhando para o chumbo e vendo que o chumbo é chumbo. Eis a chave a da alquimia, da transformação interna da energia psíquica.

raven

Uma das coisas que me provocou risos, dentro dessa crença de que podemos exteriormente classificar qualquer pessoa. Esse uso do eneagrama em empresas na área de recursos humanos, do marketing, foi a afimação de que Krishnamurti seria um tipo 6. Imagine que uma figura que se apresentava para além de um pensamento dual, uma radicalidade absoluta da observação de si, poderia estar qualificado como um tipo.

Quero, entretanto, abrir um parêntesis, numa meta-discussão, séria para falar uma coisa sobre o eneagrama. Se me perguntam, você é um tipo 1? Eu digo sim, sou muito perfeccionista e detalhista. Se me dizem, eu te saquei, você é um tipo 7, eu digo, com certeza eu me vejo no 7.  Se me acusam de autoritário afirmando que sou um tipo 8 eu também afirmo que sim e se por fim reclamam de mim porque sou nerd e não vou pras farras com os amigos, eu digo, é porque sou um tipo 5, se trato muito bem as pessoas e me perguntam se sou um tipo 2 que ando carente eu digo claro que sim e aproveito todo carinho do mundo.

Se não me perguntam, não digo meu tipo, e nem recomendo que digam fora de um contexto terapêutico, porque a visão que as pessoas tem sobre o eneatipo normalmente é centrado numa posição egoica que não suporta se confrontar com sua condição de prisionairo, isso contamina as relações, estreita o olhar e levanta todos os preconceitos. Pois é muito mais fácil ver o pecado alheio e atirar pedras. Assim, mesmo aqueles que têm pecados, todos atiram pedras nos seus próprios pecados.

O eneagrama se torna uma ferramenta de tortura de si e do outro, uma forma não de facilitar com que o outro se liberte, mas profundamente, uma forma de reforçar os condicionamentos e causar alienação existencial. Por isso, o eneagrama não era ensinado ou transmitido fora de uma tradição oral, nas correntes mais profundas do misticismo pré-islámico. Por isso eu parei há anos de ensinar o eneagrama ou mesmo a pensar com ele sobre as pessoas.

Voltando ao livro, ele só se justifica no contexto onde o eneagrama chega e se populariza. Na hora que o Naranjo decidiu, sob juramento dos membros de não divulgar as idéias, formar o grupo SAT nos Estados Unidos. Daí, em seguida, Helen Palmer e seus outros alunos começaram a publicar seus estudos e livros sobre o eneagrama baseadas no ensinamento do Naranjo e Oscar Ichazo. Na tradição, isso não tem nenhum problema, porque você transmite tal como aprendeu, com seu mestre, e pronto, não tem que ser original, principalmente num símbolo e situado na tradição perene do sufismo, embora nem todos os sufis concordem com isso.

Enfim, quando Naranjo publica seu livro. Os autores que vieram depois e foram seus alunos, tiveram que “inventar” algo novo. O que na tradição seria um absurdo completo! Claro que os discípulos transmitem o seu entendimento e a profundidade que alcançaram dentro da tradição e muitas vezes trazem novos dados, mais atualizados, dentro dos seus “estilos”. Mas no campo do comércio e dos direitos autorais, isso muda muito. Veja um link sobre essa questão escrito por Ichazo que foi o criador dessa leitura toda do eneagrama da personalidade discutindo argumentando direitos autorais com Helen Palmer.

Em termos de psicanálise, a autora claramente não está familiarizada profundamente com nenhum dos pressupostos psicanalíticos no campo da constituição do ego nem mesmo da personalidade. Tudo vira uma coisa só, uma confusão teórica típica. As principais idéias, embora diluídas, são  TODAS, trazidas de Naranjo e da escola de Arica. Até mesmo os autores citados como Karen Horney são apresentados como se fossem uma relação feita por ela.

Gosto tanto do  eneagrama, é uma ferramenta tão preciosa, que fico triste ao ver que o que eu achava há 10 anos atrás continua valendo para o estudo do eneagrama, mas eu vou continuar buscando. Na época, havia pesquisas bem interessantes no campo da inteligência artificial e outros temas que parecem muito promissores. Mas pelo que andei percorrendo nos sites que consultava nos primórdios da internet, todo mundo criou seu grupinho, escreveu seu livro e vendeu como se fosse algo novo, fiz um passeio pelos sites e realmente, várias novas organizações dizendo ser as fontes do verdadeiro eneagrama.

Bem, outra coisa que me incomoda profundamente é o uso dos anéis e dos buracos. Isso é uma clara referência aos anéis das couraças musculares de Reich que Naranjo mais uma vez já apontava a relação. Aqui eles aparecem como um ente metafísico associado aos tipos. Sério mesmo, o nome disso é “tipo 3”, marketing, maquiagem, roupagem nova pro mercado mais fácil de engolir, tudo bem, tem gente que gosta de andar na moda, eu mesmo quando comecei a ler o livro queria me atualizare ficar “in”.

cadeias-muscularesEu tentei uma vez apresentar o eneagrama pra ser estudado no mestrado em psicologia. Meu projeto não passou apesar de eu ter o orientador certo e tudo mais e por quê? Por causa dessa roupagem de auto-ajuda que os livros sobre o eneagrama ganharam depois de Naranjo. O argumento era exatamente o de não poder legitimar uma coisa “new age pop” na universidade. Claro que não é o melhor agumento, mas pra um ramo da psicologia que já desconstruiu a noção de sujeito e subjetividade, falar de personalidade é uma coisa do século passado. Que só serve mesmo pra esse uso discriminatório que vem sendo feito com eneagrama no ambiente de trabalho. Anos atrás, muitos anos atrás, eu dei cursos em grandes empresas como a Ponte S/A, ensinando o eneagrama, era um esforço tremendo. Alguém vinha me dizer, eu sou um tipo 8, eu virava sério, olhava nos olhos e dizia: Eu não acredito,você não me engana, você é um ser humano!

Aliás, pra mim, foi o capitulo mais interessante o do tipo 3. Termina bem escrito e com um certo grau de inspiração. Talvez porque a sociedade americana esteja tão identificada com o tipo que foi mais fácil para a autora abordar o tema. Essa identificação é tão forte, a ponto de não aparecer como um desequilíbrio, segundo Naranjo, nos manuais psicométricos americanos, enfim, não se consegue enxergar seu próprio estilo como destoante. Nossa percepção parcial da realidade parece sempre ser a mais correta.

O capítulo sobre o tipo 1 tem um equivoco enorme de considerar a virtude do tipo uma noção de perfeição. Isso é péssimo, a idéia que libera o tipo 1 pra mim é a aceitação e não a percepção de que está tudo perfeito que geraria uma enorme inércia perante o mundo. Enfim, eu acho que vou era pra ser um simples resenha e eu vou acabar reescrevendo o livro. [Xiii, tô no tipo 1.:-)]

Entre vários, um exemplo do caos conceitual descrevendo a “idéia divina do tipo 4”:

“Neste caso, não nos vemos como produtos que nascem do Ser, mas como o Ser Mesmo. Não estamos ligados ao Ser — somos o Ser. Somos a Origem. Nesse nível, pois, identificamo-nos com o próprio Ser, e não com a encarnação isolada que o manifesta. Assim como a compreensão da Origem Divina alcança níveis cada vez mais universais, assim também a compreensão que temos do Ser torna-se progressivamente mais profunda. Nossa experiência do Ser começa com a experiência da Essência, da natureza íntima de cada um de nós, e culmina com a experiência do Absoluto, de um estado que está além de todas as possibilidades de concepção e até mesmo da consciência.”

Uma total falta de precisão conceitual. O uso da noção de ser, ser mesmo, origem, próprio ser, encarnação isolada, personalidade, ego, fixação é usada uma pela outra com a mesma imprecisão.

Há referências constantes no texto ao “Caminho do Diamante”, o nome é bom, parece ser algo precioso, mas eu vou ter que ler a fonte. Pois a exposição no texto dos conceitos ficam totalmente sem sentido o que não significa que a fonte dos ensinamentos não possa ser muito boa.

Em síntese.

O livro vale a pena ser lido embora as principais idéias não sejam novas e as áreas que tenta ampliar pra mim faltam profundidade, porém achei a leitura proveitosas e não foi cansativa.

A parte que mais gostei do livro é o epílogo que transcrevo em parte, e acho que deve ser a coisa mais importante pra quem se dispõe a estudar o eneagrama como ferramenta de autoconhecimento.
Para concluir, gostaria de voltar à idéia de Gurdjieff, discutida no começo do livro, de que o eneagrama é um símbolo multidimensional que engloba “tantos significados quantos são os níveis dos homens”. Parece-me importante reiterar esse ponto, para que ninguém fique com a impressão de que as coisas que eu disse no livro são a última palavra sobre as diversas nuances desse símbolo. Muito pelo contrário: meu objetivo terá sido atingido se eu tiver dado aos leitores temas de reflexão e indicado certas vias de investigação pelas quais possam eles mesmos aprofundar a sua compreensão do eneagrama e de si próprios. O eneagrama assemelha-se a um código; precisamos conhecer algumas das chaves para podermos penetrá-lo e decifrá-lo de modo que sua sabedoria possa revelar-se a nós, e foi com esse objetivo que escrevi o livro. Em segundo lugar, como Gurdjieff também dizia, o eneagrama nos dá um grande poder. As informações nele comidas podem nos afetar e até nos abalar profundamente, e por isso quero repetir o que já disse na Introdução: não o use descuidadamente, nem consigo mesmo nem com os outros. Já vi muitas pessoas sentir-se tratadas como objetos enquanto outras discutiam em alta voz as características delas na tentativa de determinar-lhes o tipo. A outra pessoa pode sentir-se ferida se você começar a analisá-la sem que ela lhe peça, ou pode sentir-se atacada se você, sem consideração alguma pelas vontades dela, procurar conscientizá-la de algo que é, por enquanto, subconsciente. Acima de tudo, é absolutamente errado usar o eneagrama como munição para criticar ou julgar outra pessoa. Ao usá-lo consigo mesmo, lembre-se que o objetivo dele não é dar mais força ao superego. É, isto sim, ajudar você a compreender-se de maneira mais profunda e, mediante essa compreensão, abrir o seu coração à compaixão por você mesmo e por todos os outros seres. Em terceiro lugar, o eneagrama não passa de um mapa. Tanto ele quanto as informações que ele nos dá acerca da alma humana e do seu progresso não são fins em si mesmos. Por mais fascinante que se afigure a tarefa de extrair e decifrar mais conhecimentos do eneagrama, essas informações não nos farão bem nenhum se não forem colocadas em segundo plano, atrás da experiência direta, e se não servirem à função de colaborar para o nosso desenvolvimento pessoal. Por si sós, as informações contidas no eneagrama e neste livro não são uma panacéia — não podem, de modo algum, dar respostas a nossas perguntas, solucionar nossos problemas ou fazer-nos entrar de novo em contato íntimo com as profundezas da alma. Não passam de informações cuja função é a de nos orientar no trabalho interior; e, a menos que esse conhecimento seja posto a serviço da prática, de nada nos beneficiará. Se permanecer somente intelectual, poderá até nos estimular a mente e transformar-se num gostoso tema de conversas e diversões, mas nada disso pode ser confundido com a verdadeira obra de transformação. Essa empreitada não é rápida nem é fácil. Não tive dificuldade para resumir em poucas páginas as diretrizes que cada tipo precisa seguir em seu trabalho interior a fim de lograr uma verdadeira transformação pessoal. Porém, a obra concreta de trabalhar e retrabalhar a personalidade, de modo a tornar cada vez menos turva e cada vez mais transparente a nossa alma, leva muitos anos, por maiores que sejam a nossa dedicação e o nosso empenho. Além disso, não é trabalho que se faça sozinho. Como a transformação verdadeira exige a superação da força inercial de identificação com a personalidade, em geral é necessário o apoio de uma fraternidade espiritual ou de um Grupo de Trabalho. E na maioria das vezes a orientação de um mestre é imprescindível para o bom sucesso da Jornada, uma vez que tornar-se consciente significa passar a ver as coisas para as quais somos cegos. Nessa Jornada, cada qual precisa encarar certos aspectos dolorosos de si mesmo, às vezes até aspectos profundamente assustadores, que permanecem escondidos nos recessos da alma. Em definitivo, as coisas parecem piorar antes de melhorar, na mesma medida em que nos aproximamos de algumas faixas mais profundas da personalidade, com seus abismos e energias primitivas que às vezes nos dão a impressão de que vão nos engolir e arrastar. Não é uma caminhada fácil, e exige um grau de franqueza e sinceridade que só é possível para quem se sente pessoalmente motivado a conhecer o seu verdadeiro ser, para quem a revelação da verdade — por mais dolorosa que seja — dá alegria ao coração. Para os que optam por empreendê-la, traz ela recompensas infinitas. Um universo inteiro nos espera dentro de nós, infinitamente vasto, cheio de paradoxos, de requintes e de surpresas.

Eis abaixo um pouco de Krishnamurti, pra mim, a personificação do pensamento integral.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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