ACUPUNTURA E AS RACIONALIDADES MÉDICAS

ACUPUNTURA E AS RACIONALIDADES MÉDICAS

Venho aqui apresentar aos jovens acupunturistas e também ao público que não conhece estes conceitos que, mesmo tão simples, nos ajudam a pensar e compreender melhor o que é a acupuntura.

Trata-se da noção de racionaldiades médicas. A idéia de que existem diversos sistemas médicos no mundo, todos muito complexos, e que subsistem de forma autônoma. Não se trata de dar uma palavra final, de definir, de dar fim, mas de acrescentar um ponto de vista, uma reflexão.

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Este ponto de vista vem da sociologia. Pra quem não sabe bem o que é a sociologia, trata-se da ciência que vai investigar o interior dos coletivos. Assim como a psicologia tenta estabelecer os fatos da psique, a sociologia vai tentar investigar a cultura, os hábitos, os comportamentos como eles se transmitem dentro de um determinado grupo situado na história, na geografia, e nos seus diversos sistemas de organização social, implícitos e explícitos.

complexidade

Assim, a sociologia ajuda a sairmos um pouco da nossa visão etnocêntrica, ou seja, do nosso grupinho, onde falamos e todo mundo fala a mesma coisa e, por isso, achamos que estamos sempre certos.

Para expor idéias fora do nosso grupo é preciso muita coragem ou muito amor. Quem fez isso foram os antropólogos, os pesquisadores que saíram dos seus mundos para entrarem em outra cultura e perguntarem se aqueles valores e aspectos culturais compartilhados por um determinado grupo poderiam ser compreendidos ou não por um outro grupo alienígena.

Esse olhar que percebe as diferenças culturais e histórias é radicalmente importante. O problema é que a sociologia só é estudada em nível superior no Brasil, onde ainda se discute sua pertinência no ensino médio. Mas talvez fique claro nas próximas linhas o porquê desses fundamentos da sociologia fazerem tanta falta.

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Vamos aqui pensar no estudante de acupuntura. Ele se aproxima de um conhecimento que foi produzido há milhares de anos; em um idioma que não se fala mais; que foi transmitido em versos, decorado e cantado; atravessou pelo menos 3 grandes religiões, ou filosofias, ou melhor, sabedorias: o taoísmo, o confucionismo e o budismo; até que chega então a uma releitura materialista histórica e, por fim a uma redução materialista científica.

Isso considerado, fica triste ver um jovem que acaba de sair do cursinho de acupuntura, ou que leu talvez um ou dois manuais, afirmar com muita segurança que sabe o que é acupuntura.

Imagine agora um médico, que se formou numa faculdade de medicina dos dias de hoje, com fundamento de produção de saber associado à venda de remédios, e alguém diz pra ele que ele agora pode ser especialista em mover o qi através de agulhas e que se ele fizer um cursinho, que na maioria das vezes tem uma aula por mês, ele será um acupunturista e saberá mais do que todo mundo porque estudou medicina.

Eu levei 15 anos praticando acupuntura e 20 anos como terapeuta. Mesmo assim me inclino diante desse mistério. Leio bastante, tenho na minha biblioteca pessoal mais de 1000 livros no assunto e tive o privilégio raríssimo de ter encontrado professores excepcionais que obviamente não estão dando aulas nas escolas convencionais.

Não se trata de desmerecer o trabalho das escolas, mas sim refletir sobre as suas limitações, o que é na verdade um convite a estudar e compreender mais. Só para que você, leitor, possa manter a curiosidade diante do mistério dessa arte que é, e sempre será, maior que a vida. Como diziam os romanos, “Vita Brevis, Ars Longa”.

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Voltando às Racionalidades Medicas. A professora Madel Luz, que veio na nossa escola de acupuntura em Niterói há alguns anos atrás e nos ofereceu essa palestra, nos ensina:

Madel Luz – fala de acupuntura e medicina chinesa como racionalidade médica from multiversidade on Vimeo.

Uma racionalidade medica é constituída dos seguintes elementos, que descrevem sistemas médicos complexos e empiricamente estruturados em seis dimensões:

Uma cosmologia – uma visão de mundo que a orienta e dá sentido. O quanto é necessário compreender esse mundo de onde o pensamento chinês emerge, o sentido da cura, o sentido da terapêutica, emergem dos valores do mundo e do viver.

Uma doutrina médica – orienta o conhecimento, reúne, compila e dá sentido, descrevendo o que acontece e quais são os procedimentos terapêuticos diante do sofrimento.

Uma morfologia – sabemos como é diferente o sistema de órgãos e vísceras e as energias vitais que muitas vezes explicam muito mais do que o modelo anatômico ocidental, que não conseguiu uma visão somática integrada.

Uma dinâmica vital – como a acupuntura se encontra entre as medicinas vitalistas, a circulação do qi é o seu aspecto mais central, mesmo assim, ao invés de estudamos essa dinâmica, ficamos colecionando pontos e funções de pontos, mostrando o quanto estamos presos ao pensamento causalista.

Um sistema de diagnose – na medicina chinesa o sistema de diagnóstico nos ensina os sinais da saúde. Pergunte a um médico quais são os sinais da saúde, como ele faz pra reconhecer um ser humano saudável. Não é tão óbvio. Esta é, pra este autor, uma das mais belas contribuições da medicina chinesa. Podemos identificar e cultivar a saúde.

Um sistema de intervenções terapêuticas – é tão claro que não estamos tratando doenças, pelo menos não com agulha e moxa, estamos equilibrando os sistemas homeostáticos, o yin e yang nos órgãos e canais.

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Conhecer acupuntura é trabalho para a vida toda, não pode ser deixado jamais nas mãos dos pseudoespecialistas. Por isso, esse saber para cuidar da saúde e para viver é patrimônio da humanidade. Pertence a todos. Não se preocupe, os médicos que guardam sua visão etnocêntrica, que não conseguem compreender essas diferenças, não são bons médicos, pois estão praticando algo que nunca estudaram em sua formação e por isso também, não podem ser exímios acupunturistas, pois essa é uma arte de viver e cuidar da saúde. Tudo o que não se aprende nas faculdades de medicina, uma vez que o foco atualmente é diagnosticar e tratar doenças, como prevê a lei que a regulamenta. É uma outra racionalidade, outro sistema de pensamento, um outro campo que realmente não nos pertencente como acupunturistas, somos a alternativa.

E os demais acupunturistas também, precisamos cobrar que nossos cursos de acupuntura se tornem cada vez mais capazes de nos fazer demonstrar as diferenças do nosso trabalho em relação ao dos demais profissionais da saúde.

Somos de fato, bem diferenciados.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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