psicologia crista

O QUE VOCÊ GOSTARIA DE SABER SOBRE PSICOLOGIA E CRISTIANISMO MAS TEM MEDO DE PERGUNTAR AO SEU PROFESSOR.

Quando somos crianças, somos introduzidos ao sistema de crenças da nossa família e da nossa cultura. Ao mesmo tempo que somos apresentados aos contos de fadas, somos também apresentados as narrativas míticas das culturas onde nascemos. Ouvimos as histórias de Jesus que era também um grande contador de histórias. Mas as histórias que contamos, as histórias que nos são passadas, nos afetam? Como? Essas histórias nos ajudam a crescer ou nos aprisionam e nos fazem sofrer? O que você acha?

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Se estamos na tradição judaica, escutamos histórias de como um homem escolhido por Deus abriu o mar vermelho e libertou seu povo da escravidão.  E tantas histórias outras que justificam um estado de guerra permanente em Israel hoje. Se somos muçulmanos, escutamos histórias de grandes batalhas dos homens de Deus e temos uma noção de que a guerra pode ser santa e vemos que isso pode gerar pessoas-bomba. Se somos católicos damos ênfase à figura da mãe de Jesus que permaneceu virgem por toda sua vida, embora a Bíblia afirme que Jesus teve outros irmãos e isso traz enormes consequências para o papel e as imagens da mulher em nossa sociedade. Se somos da tradição pentencostal nos apoiamos na tradição apostólica dos milagres do espírito santo, acreditamos que “só Jesus cura” e nos sentimos legitimados a destruir e atacar as outras religiões. Se somos Hindus, ouvimos as histórias do Mahabarata e como Rama lutou junto de Hannuman para buscar de volta sua esposa e isso tudo nos traz consequências. Na Índia, nos leva a um dos lugares onde mais violência contra mulheres ocorre no mundo e mesmo assim achamos linda sua riqueza espiritual. Você acha que não é preciso discutir esses temas? Você acha que esses temas estão interligados com o sofrimento de um povo? Onde devemos discutir esses temas, em nossa família, em nossa igreja ou também nas universidades e nas escolas?

Estou estatisticamente seguro que provavelmente é preciso estudar as nossas tradições com uma lente que não seja a de uma criança de 5 anos de idade, que recebe essas narrativas e acredita nelas literalmente. Que Jesus nasceu de uma virgem e Moisés partiu o mar vermelho. Sim, as pesquisas de desenvolvimento de valores indicam que mais de 60% das pessoas acredita literalmente nessas histórias e só é capaz de perceber uma interpretação mítica literal dessas narrativas, ficando assim prisioneiras de suas próprias crenças.

A psicologia do estudo das tradições é fundamental e está presente no coração da experiência clínica dos grandes clínicos. Estamos falando aqui de Freud, que escreveu textos sobre Moisés e o monoteísmo e de toda a Escola da Viena que tinha muito medo que a psicanálise fosse vista como mais uma historinha de Judeus. Jung, príncipe herdeiro de Freud, escreveu sobre o livro de Jó e estudou profundamente o homem e seus símbolos. Foi Jung o primeiro na tradição psicanalítica a nos dar espaço para respirar a tradição cristã numa análise mais antropológica, pois ao coletar os mitos de diversas tradições, começou a perceber como muitos deles contavam uma mesma história. Talvez você já tenha visto o filme Zeitgeist, ele é baseado em muitas das narrativas que Jung descobriu.

Seu maior seguidor foi talvez Joseph Campbell que estudou as mitologias comparadas do mundo inteiro e nos fez poder honrar os nossos mitos ao nos ajudar a compreendê-los melhor.

“Deus havia enviado seu filho à terra, que morreu e ressuscitou.” Esta afirmação comparece na tradição cristã, mas também é o mito de Osíris, de Mitra, e até mesmo presente nas lendas indígenas brasileiras, como nos ensina Leonardo Boff em seu livro tempo de transcendência. Sendo um fenômeno tão comum, poderiam ser esses mitos de base filogenética? Alguns acreditam que sim. Olha que interessante também, não acha?

Outro campo em que a tradição cristã nos deu muitos belos frutos foi no pensamento existencial de Kirkergaard, de Heidegger e Merleau Ponty. Mas esses autores talvez não sejam considerados apenas cristãos, pois eles já tiveram influência dos saberes orientais. Você sabia que Heidegger teve acesso aos textos budistas dos alunos japoneses durante a guerra?

Jung nos falava muito disso, desse encontro de culturas entre o Buda e o Cristo, entre o oriente e o ocidente. Ele dizia contudo, que cada um deveria estudar sua própria tradição para curá-la. Nossas tradições, que servem muito bem a uma criança, ou à nossa infância cultural, há dois mil anos, podem hoje estar sendo fonte de sofrimento, culpa e vergonha. Assim, podemos dizer que essas imagens estão doentes.

Veja o exemplo desses dois filmes. A paixão de Cristo de Mel Gibson.
the-passion-of-the-christ-imageÉ esta a imagem que queremos ver no centro da nossa cultura? Precisamos ou não discutir isso? Essa é uma visão saudável? Sabemos que reagimos em nossos cérebros ao ver imagens de sofrimento. É isso mesmo que queremos passar adiante para as futuras gerações?

Outra visão bem interessante no filme recente de Êxodus ilustra bem o que estamos dizendo. Neste filme, o Deus de Moisés é representado como um menino pirracento, vingativo e cheio de vontades. E Moisés, muito mais perturbado com temas existenciais, incluindo sua família na história em uma dimensão muito mais humanizada. Mesmo sendo melhor do que a velha imagem, ainda temos muito o que caminhar para curar essas feridas culturais.

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Outro temática que representa muito sofrimento nas tradições religiosas é das imagens e papeis das mulheres, que refletem ou uma prostituta ou uma virgem. Temos como consequência uma cultura extremamente machista, que castiga e pune as mulheres. Um exemplo direto disso é que, no Brasil, o lugar mais perigoso para uma mulher estar é a sua própria casa, posto que a violência doméstica continua sendo muito comum. Achamos que não devemos “colocar a colher em temas de marido e mulher”, será mesmo?

A pergunta é, existe um feminismo cristão? Ou todas as feministas tem que ser necessariamente anti-cristãs? Eu me lembro de Rose Marie Muraro e Leonardo Boff me dando aula juntos sobre o masculino e o feminino, ambos herdeiros das teologias da libertação, que só hoje parece chegar ao vaticano. Saudosa, que faleceu recentemente e com quem tive contato pessoal. Lembro-me da sua obra prima, o Martelo das Feiticeiras, e  de como essa tradição medieval da culpa puniu o prazer feminino e, em nome das tradições religiosas, mulheres até hoje são apedrejadas em países da África, da tradição muçulmana. Mas isso quer dizer que todo mulçumano apedreja mulheres? Isso quer dizer que todo mundo que se casa em uma tradição espiritual vai ser infeliz no casamento? Em que sentido contribui para a violência e, mais importante, existiriam imagens saudáveis de mulheres no cristianismo?

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Outro problema muito grave é a tradição apocalíptica. A idéia de que uma má notícia é uma boa notícia, de que o fim do mundo está chegando, é a grande mola das religiões ao longo da história. Isso faz com que tenhamos uma cultura das más notícias, cada vez que ouvimos que o mundo está acabando, que os valores estão se perdendo temos uma “sick satisfaction” uma satisfação mórbida porque “Jesus está voltando”, então quanto pior melhor. Assim, as grande imagens de destruição do planeta, das águas, tudo isso reflete uma grande doença cultural, onde não conseguimos agir mesmo querendo preservar o mundo para as futuras gerações, como garante a nossa constituição.

164594-malevola-cartazMas essa conversa, colocando-nos a pensar sobre nossa própria cultura, não acontece por aí. A grande maioria das pessoas se relaciona com sua religião com medo de punição como uma criança.

Essa mesma mentalidade mítica literal dos contos de fadas, que até mesmo Hollywood já entendeu que é grave, uma vez que começou a recontar as histórias de contos de fadas, como em Malévola, Valente, Frozen, são formas de curar essa psicologia dos contos de fadas do universo feminino de competição e inveja, mitos de madrastas que tanto atrapalham as histórias do feminino na nossa cultura. Me pergunto se esse seria um tema para a psicologia se debruçar, porque tal como as histórias religiosas, essas narrativas da Disney afetam gerações.

 

Uma Junguiana, Clarissa Pinkola Estés,  escreveu um livro belíssimo chamado Mulheres que Correm com Lobos, onde estuda as histórias sobre o feminino de diversas culturas num esforço de ampliá-las e assim talvez curá-las. Lançou um livro belíssimo também chamado Libertem a Mulher Forte.

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Uma psicologia cristã não deixa de ser também uma psicologia dos contos de fadas, todas as vezes que nos aproximamos da religião como a criança que briga com a outra quando esta lhe revela que Papai Noel não existe. Aqui, não se trata de ter ou não existido, mas se trata de histórias. Estas, precisam ser recontadas e atualizadas, revistas e reinterpretadas para que possamos transcender e incluir nosso próprio chão, nossas próprias raízes.

Para Piaget, na fase religiosa mais frequente, não passamos do estágio pré-operacional. Ainda acreditamos em nossa imaginação e temos dificuldade com comparações, nessa idade psicológica.

Ainda não conseguimos refletir sobre os temas da vida de forma lógica, mas entendemos que seus símbolos, imaginação e realidade não se distinguem e é assim que as religiões operam.

É um trabalho muito grande conseguirmos pensar de forma racional. A neurociência, há anos mostra como agirmos raptados pelo nosso cérebro de réptil e de mamífero e tão raramente conseguimos operar a partir do neocórtex. A maior parte do tempo  estamos sob o “Erro de Descartes”, afirmamos que somos racionais e agimos de forma infantil, raramente estamos prontos para uma conversa racional e as escolas não nos preparam para o debate filosófico. Conversamos sobre religiosidade baseados na razão, e continua sendo um dos temas mais difíceis, que demanda extrema maturidade. Será que você conseguiria, fazer da sua religiosidade um objeto de estudo? Se não conseguiria, você poderia fazer da sua própria consciência um objeto de estudo?

Ainda vivemos em grande maioria segundo símbolos que nos convocam de forma inconsciente, mesmo que esse inconsciente se queira chamar de cérebro mamímero ou DNA. O tema dos dogmas religiosos criou exatamente isso, uma separação entre religião e ciência e, como filha bastarda dessa separação, nasceu a psicologia. E porque bastarda, porque não encontra um território, está, como o budismo descreve, perdida entre-dois, ou como o cristianismo descrevia, no limbo.

E hoje, vemos pastores querendo construir um Estado Religioso, vemos essa interpretação literal dos textos das tradições ganhando espaço na mídia e na sociedade; vemos propostas como cura gay e outras comunidades terapêuticas cristãs se espalhando por aí. Motivos suficientes para  em vez de rejeitar, em vez de atirar pedra em nossos próprios erros, fomentar esse debate, verdadeiramente. E claro que ele é um debate transdisciplinar e muito mais que isso, transparadigmatico, pois vamos precisar de um olhar capaz de perceber que todos estão certos. Até mesmo as igrejas dos Bispos da televisão tem um enorme papel social e é preciso compreendê-lo bem.

Não é minha pretenção ir além da minha escola, mas na minha época de estudante de psicologia eu procurei muitas coisas lindas: faziamos yoga no Jardim, líamos textos de Ouspensky num grupo de estudos, mas também pude ler toda a obra de Heidegger (sim toda), para encontrar uma cura no pensamento, a confusão entre epistemologia e filosofia, e restaurar o papel da metafísica, da fenomenologia e a experiência do Ser. Desculpe se essa frase foi por demais acadêmica, mas talvez você queira ler o texto que apresentei no congresso de psicologia na época.

O que acontece é que essa criança não tem acesso aos níveis mais avançados da sua tradição. Está acostumada a um pai, um pastor, uma professora, e até mesmo um terapeuta lhe dizendo o que fazer ou o que é certo, porque não aprendeu a refletir. Ela simplesmente acredita no mundo das histórias da sua comunidade, e não tem um espaço mais maduro para refletir sobre essa tradição no mundo e é esse estudo superior que as universidade deveriam encarar, não acha? Um professor ou um aluno que não gosta de debate e de polêmica talvez esteja se furtando ao seu papel diante do mundo que é questionar e olhar como inocente (ingnosente – não saber), não apenas como disse Jesus, mas como nos ensinaram os filósofos gregos.

O que é ainda mais infeliz é que temos espaço para o Budismo, espaço para Castaneda, para os Orixás africanos, mas há espaço para a tradição cristã fora dos grupos tipicamente religiosos? Não há, o que acontece é que as pessoas ficam com vergonha de falar das suas tradições e crenças e com isso elas não podem se desenvolver a níveis mais maduros de espiritualidade, ficam como crianças reprimidas. Vivem uma vida desintegrada.

Mas o que seriam os níveis mais maduros da fé, eles existem? Sim, existem. James Fowler, um psicólogo americano fez muita pesquisa empírica sobre, e o descreveu muito bem. Mas claro que você não ouviu falar dele. Ou talvez não conheça Lawrence Kohlberg que também estudou o desenvolvimento de valores, ou Graves, ou Don Beck. Talvez porque toda a noção de psicologia do desenvolvimento te seja estranha. Mas não é assim no resto do mundo.

Veja o que Fowler descobriu em suas pesquisas. Veja se você identifica sua própria trajetória nessas descrições.

1) Espiritualidade indiferenciada

– Sementes de confiança, coragem X ameaças de abandono, privações do ambiente.- Mutualidade, confiança, autonomia, esperança e coragem (ou seus opostos).- Perigo ou deficiência: falha na mutualidade que pode resultar em isolamento ou num narcisismo exagerado.- Transição para o estágio 1: com a convergência do pensamento e da linguagem.

2) Espiritualidade intuitivo-projetiva

– Fase fantasiosa, imitativa muito influenciada pelos exemplos, temperamentos, ações e histórias dos adultos.- Mais típico dos 3 aos 7 anos.- Produção de imagens e sentimentos duradouros.- Primeira autoconsciência e consciência dos fortes tabus da morte e do sexo.- Força deste estágio: nascimento da imaginação e capacidade de unificar e captar o mundo da experiência em poderosas imagens e sentimentos intuitivos.- Perigos: “possessão” de imagens de terror ou destrutivas; reforço excessivo de tabus ou expectativas morais ou doutrinárias.- Transição para o estágio 2: surgimento do pensamento operacional concreto;

3) Espiritualidade mítico-literal

– A pessoa começa a assumir para si as histórias, crenças e costumes de sua comunidade.- Apropriação literal das crenças, símbolos, regras.- A espiritualidade adquire uma construção mais linear, coerente e com sentido.- Os atores das histórias são antropomórficos. Entram na história e não coneguem tomar distância do fluxo dela.- Força: surgimento da narrativa, da história, do drama como formas de descobrir e dar coerência à experiência.- Perigos: perfeccionismo supercontrolador, “justificação pelas obras” ou um humilhante senso de maldade.- Transição para o estágio 3: a contradição implícita nas histórias; o surgimento do pensamento formal, a entrada na adolescência.

4) Espiritualidade sintético-convencional

– A experiência de mundo se amplia: família, escola, trabalho, companheiros, mídia, religião.- Espiritualidade como unificadora, sintetizadora de valores e informações.- Típico na adolescência, mas para muitos o estágio definitivo.- Estrutura o ambiente último em termos interpessoais- Estágio conformista com as expectativas e julgamentos de outros significativos.

– Força: formação de um mito pessoal, mito do próprio devir da pessoa em identidade e espiritualidade.

– Perigos: as avaliações e expectativas dos outros podem ser tão sacralizadas que prejudique a posterior autonomia de pensamento e ação; traições interpessoais podem acarretar num desespero niilista ou numa intimidade compensatória com Deus, não relacionada a relações humanas. Passagem para o estágio 4: conflitos ou contradições nas fontes de autoridade; as mudanças que ocorrem nas instituições; a experiência de “sair de casa”.

5) Espiritualidade individuativo-reflexiva

– Assumir encargos e responsabilidades por seus próprios compromissos, estilo de vida, crenças, atitudes.- O eu(identidade) e a perspectiva (cosmovisão) tornam-se diferenciados dos outros e passam a ser os unificadores.- É um estágio “desmitologizador”, mas um tanto “racional”.

Força: capacidade de refletir criticamente sobre a identidade e a perspectiva.-

Perigo: confiança excessiva na mente consciente e no pensamento crítico; uma espécie de 2o narcisismo: ver tudo a partir da própria cosmovisão.

– Passagem para o estágio 5: a pessoa começa a dar atenção às vozes interiores, anárquicas e perturbadoras; histórias, símbolos, mitos e paradoxos da própria ou de outras tradições podem perturbar a simplicidade da espiritualidade anterior.

6) Espiritualidade conjuntiva

– Uma espécie de “segunda ingenuidade” onde o poder simbólico é asssociado aos significados conceptuais. – Reconhecimento crítico do seu inconsciente social; do seu passado pessoal e cultural.- Torna porosa a delimitação de identidade estabelecida pelo estágio Convive com os paradoxos e as contradições aparentes.

Força: imaginação irônica: capacidade de compreender os mais poderosos significados da pessoa ou do grupo, reconhecendo sua parcialidade. Preocupação com as novas gerações.

Perigo: passividade ou inatividade paralisante, ocasionando complacência ou afastamento cínico, devido a sua compreensão paradoxal da verdade.

7) Espiritualidade universalizante

– Se tornam encarnadoras e realizadoras do espírito de uma comunidade humana inclusiva e realizada.- São contagiantes, criam zonas de libertação dos grilhões sociais, políticos, econômicos e ideológicos.- São freqüentemente vistos como subversivos. Muitos morrem pelas mãos daqueles que esperam transformar. São reverenciados após a morte.- Pessoas lúcidas, simples e mais plenamente humanas.- Pessoas prontas para ter comunhão com pessoas de qualquer um dos outros estágios e quaisquer outras tradições.

Este é o problema, este é o sintoma, a repressão do debate aberto sobre espiritualidade não apenas nas escolas e universidades, mas em todos os cantos, isso não nos ajuda a crescer. Não estudamos isso nas universidades. Assim ficamos presos nos primeiros estágios mais infantis da nossas dimensões espirituais.

Mas talvez você tenha ouvido falar de Howard Gardner, pesquisador de Harvard que propôs o tema das inteligências múltiplas? Ele é muito adotado pelos teóricos e práticos da educação.

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No modelo de Gardner cada um de nós tem diversas linhas de desenvolvimento. Diversas inteligências, porque estamos confortáveis para lidar com o fato que desenvolvemos nossa inteligência, nossa capacidade corporal e cinestésica, mas em um dos seus últimos livros ele fala de uma inteligência existencial ou espiritual que também se desenvolve e que podemos amadurecer. Veja que esse é um tema muito central, visto que 90% das pessoas se dizem religiosas.  Além disso, pessoas religiosas vivem mais. E isso são pesquisas bem duras. Provável que o fato de terem apoio das suas comunidades façam com que sintam maiores níveis de bem estar e segurança, enfim, são 10 anos a mais, tanto quanto o hábito de fumar retira da sua expectativa de vida. Você realmente acha que não devemos estudar esse assunto de forma integral?

A inteligência espiritual ou existencial nos ajuda a responder o sentido da nossa existência e não acho que esse seja um tema que devamos deixar de lado. Porque se não enfrentamos esse tema, se não entendermos que existem caminhos de crescimento para sairmos da idade das trevas, a idade feudal da nossa religiosidade, conviveremos com essa onda reacionária que assistimos ocupando um grande espaço na poíltica, na cultura e no Estado brasileiro. Para mim e também para o filósofo Ken Wilber, o principal motivo para isso é que não cultivamos espaços para discussões abertas e sem uma visão mais integral das nossas próprias tradições, os jovens não encontram espaço para crescer.

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Eu deixo a pergunta: existe diferença entre o Papa Francisco e Bento XVI? Não são ambos Papas Católicos? Como compreender as suas diferenças? Como podemos analisar seus comportamentos? Isso tem relação com o seu desenvolvimento ou não? Ou simplesmente adotamos a idéia de que religião não se discute e deixamos tudo aquilo que Jung chamou de arquétipos do inconsciente coletivo embaixo do tapete? Essas imagens nos afetam ou não? Esses símbolos nos dão sentidos ou não?

O que fazer com eles para que se tornem imagens de integração, de individuação, no sentido Junguiano, e não imagens de dominação, repressão, culpa e desorientação diante da vida em lamentos. Porque tudo indica que o mundo não acabou e não vai acabar, passamos de 2000 e também de 2012.

Como renovar as tradições, porque a maior parte da pessoas continua buscando não um filósofo ou psicólogo para ajudar com suas questões existenciais mas um religioso? Talvez porque estamos ainda separados, desintegrados opondo o cientificismo e religiosismo.

Ampliar os nossos símbolos e nossos mitos é uma atitude profundamente necessária, nos alertava Campbell.  Os mitos são sonhos coletivos, assim como sonhos são mitos pessoais, afirmou o maior pesquisador das religiões comparadas,

Precisamos curar as nossas imagens, nosso imaginal, nosso imaginário. Se os símbolos que aprendemos na infância não podem nos ajudar mais, precisamos renová-los. Se permanecemos presos aos mitos de heróis, não formos capazes de atualizar esses mitos à linguagem moderna. Se não conseguimos ver que existem correlações cerebrais entre os estados de oração profunda de meditação e as ondas cerebrais, se não não conseguimos ver que por trás dos símbolos, as tradições espirituais não vão desaparecer, precisamos sim ocupar esse espaço de discussão.

Sim, precisamos discutir religiosidade e espiritualidade como dimensão humana em qualquer curso de psicologia, de filosofia, mas diria que a universidade como um todo precisa superar o dualismo cartesiano, deixar o grande pacto do século XVII que separou o campo da ciências das religiões. Precisamos compreender que vamos precisar de todos os saberes.

E o mais lindo é que ao longo das tradições, sejam nos outros evangelhos que foram suprimidos ou em outras interpretações sobre o cristianismo, encontramos essas vozes suprimidas. Encontramos um evangelho de Maria. Encontramos um envangelho de Tomé, o primeiro empirista da tradição cristã, o que precisou tocar na ferida para acreditar.

Assim, embora o nome psicologia cristã esteja hoje sendo usado como foi durante toda a idade média, como ferramenta de afirmação da nossa maior patologia social, a culpa judaico-cristã, é preciso discutir a religiosidade como um fenômeno humano que pode ser um espaço de liberdade e sentido ou um espaço de angústia e sofrimento.

O que a ciência tem a dizer sobre o Budismo e sobre o Cristianismo não é novidade, sempre esteve aí. O que é belíssimo é ver o Dalai Lama fomentando a pesquisas em neurociência com monges em estado de meditação profunda e na França, pesquisas sobre a oração e seu impacto na recuperação de pacientes. Fazendo com que a meditação que antes era uma prática religiosa seja incorporada no dia-a-dia de grandes empresas e recomendada para todos sem a mediação de sacerdotes e pastores.

E justamente porque precisamos entender que o mundo não vai acabar, que nunca tivemos tão poucas guerras, que nunca tivemos tão pouca fome, que nunca tivemos tanta igualdade social e de oportunidade no país e no mundo, que precisamos deixar os nossos livros infantis e refletir sobre o que significa nos apoiarmos na nossa tradição espiritual para que possamos de fato abraçar as nossas dimensões espirituais, subindo os degraus do nosso próprio crescimento. O mundo é bom. Não é um mar de lágrimas e terror como querem fazer crer os que lucram com a fé. Relaxe e aproveite, você está aqui de passagem.

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Do egocêntrico, ao sociocêntrico ao cosmocêntrico. Como dizia Einstein, minha religiosidade é cósmica. E eu acrescento, se a sua ainda não é, sua psique está em conflito, está fragmentada, você ainda não sabe quem é, pois somos todos um. E isso é uma experiência humana, mística, oceânica, não-dual, crística de despertar que é o que significa Buda, alguém que despertou para uma dimensão além do ego. Se você ainda não teve uma experiência assim, recomendo que procure, seja uma experiência laica, seja uma expeciência dentro de uma tradição espiritual. Seja através da oração, da meditação ou do uso de ayahuasca, todas essas são dimensões legítimas do sagrado, que pertencem a todos nós na nossa humanidade diante do mistério.

A nossa cultura moderna foi a única que não nos ensinou que buscar essa dimensão transcendente em nós é o que se pode fazer de mais belo. Assim proibimos as conversas sobre religião e proibimos estudar os estados transpessoais no mesmo pacote do trauma do pós guerra. Isso também nos fez proibir as pesquisas dos estados não-comuns de consciência. Eu quero viver num mundo em é direito de todas as pessoas explorar sua própria consciência.

Eu acho lindo quando vejo reportagens como essa, onde ayahuasca é usada para recuperação de detentos. No Brasil, o uso da bebida só é permitida para fins religiosos, então essa é uma cura religiosa? Aliás, o que quer dizer religião senão integração, senso da unidade, senso de participação e reunião e porque não começarmos pela união entre o ciência e religião, entre o hemisférios esquerdos e direito, entre os sentidos empíricos e o sentido da vida.

Quer ser feliz?

Seja.

Aproveito para indicar esses vídeos de um dos meus antigos professores. Não concordo com tudo que estão dizendo, mas podem dar alguma pista para quem esteja procurando uma dimensão de saúde na sua tradição espiritual, seja ela do Budismo ou do Cristianismo.

Quer saber mais sobre esses temas? Se interessa nessas interfaces entre cristianismo, filosofia, psicologia e neurociências, acredita que por trás das tradições espirituais existem tesouros de sabedoria perene? Então talvez você se interesse por esse curso de cristianismo na tradição interna.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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