Por que médicos não poderiam (enquanto médicos) praticar acupuntura?

Caros amig@s, este blog tem se mantido congruente com os princípios de que acupuntura no Brasil é livre e deveria continuar livre. Entendemos então que o conhecimento das práticas orientais é tão vasto que não cabe nos moldes pedagógicos convencionais. Os cursos de acupuntura chegam num momento de crise pedagógica sem precedentes, pois precisamos ter algo mais a ensinar do que simplesmente reproduzir informação, uma vez que a informação está cada vez mais disponível online. Acreditamos, com isso, que a acupuntura no Brasil deveria permanecer livre a quaisquer outros cidadãos restritos no seu direito de usar acupuntura em praticas familiares ou terapêuticas.

Dois motivos para isso:

1- Acupuntura é simples e pode ser aprendida por qualquer pessoa com um mínimo de treino, embora as pessoas quando não compreendem bem um sistema tendem a achar muito difícil. Quando você realmente entende, tudo fica fácil e gostoso.

2 – Acupuntura tem risco insignificante para a saúde das pessoas. Você pode saber mais sobre risco da acupuntura neste link, ou saber sobre porque achamos que acupuntura deveria permanecer livre.

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O que é acupuntura?

Acupuntura e moxaterapia Zhen Jiu, é uma única prática clínica nascida na china e espalhada por todo o oriente à partida da unificação cultural da dinastia Han. É uma racionalidade médica autônoma, milhares de anos anterior ao modelo de medicina de base biomédico, aqui incluídos a medicina e suas especialidades, mas também a fisioterapia, odontologia e veterinária, biomedicina, educação-física e até mesmo a psicologia de base, pois a orientação dos conselhos é o fundamento científico das suas práticas. Ressalvamos que existem abordagens filosóficas, existenciais e outros fundamentos fenomenológicos para a clínca em psicologia.

O que é uma racionalidade médica?

Uma racionalidade médica é um conceito que nos chega da sociologia, que designa um sistema médico complexo com as seguintes características: uma cosmologia, uma dinâmica vital, um sistema de diagnóstico e uma terapêutica próprios desse sistema. Outros sistemas médicos complexos anteriores ao modelo científico e biomédico são por exemplo a medicina ayurvédica, a homeopatia, a medicina antroposófica e tantas outras.

Para saber mais sobre racionalidades médicas <- Clique aqui. 🙂

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O que precisa ficar claro é que estamos tratando de dois conjuntos absolutamente independentes. Lembra das aulinhas de teoria dos conjuntos? Neste caso, não há elementos que pertencem aos dois conjuntos sendo, por isso, considerados conjuntos autônomos, independentes. Que para operarem relações precisam de funções, lembra?

Temos clareza de que esses sistemas são autônomos não havendo nada que informe na formação de medicina, até o presente momento, sobre os fundamentos dos sistemas orientais.

É até possível que nas próximas décadas isso mude, mas não vemos isso no horizonte. A formação de conhecimento em medicina está cada vez mais atrelada à industria farmacêutica.

Por esse simples motivo, não existe NADA que faça com que um MÉDICO SEJA UM ACUPUNTURISTA MAIS QUALIFICADO do que qualquer outra pessoa, não cabendo portando a afirmação de acupuntura possa ser uma especialidade médica. Para algo ser uma especialidade é necessário que ela tenha sido apresentada numa formação generalista. É possível ser médico de família, é possível ser oftalmo, dermato, e tantas outras, por serem disciplinas que fazem parte da grade do currículo médico. Por essa lógica, acupuntura não poderia, portanto, ser especialidade de nenhuma profissão de saúde, uma vez que não há nada na formação de fisioterapeutas, odontólogos, educadores físicos, psicólogos, farmacêuticos ou nutricionistas que os façam mais aptos que qualquer outra pessoa, com disposição e capacidade cognitiva de aprender acupuntura.

Eu mesmo que estou cursando farmácia apenas pra aprofundar meus estudos sobre plantas medicinais e homeopatia, tenho que tirar leite de pedra e focar nesta direção durante todo o tempo. Este não é o viés das formações atuais na área de saúde.

E eis a raiz do problema. Pois também, a fisioterapia, e essas demais profissões, à exceção talvez da psicologia, que se aproxima da área de humanas nos seus fundamentos, estão situadas na modernidade, na construção de um conhecimento e modo de validação muito distante da clínica, e mais próximo do laboratório. Ficamos com uma visão de mundo que é por si só um sintoma: o materialismo, cientificista, objetivista, de monovisão que implica numa redução da experiência do mundo. Claro que a ciência é fundamental, mas cientismo é a modalidade não científica desse pensamento.

Por isso, para um médico, ou qualquer outro praticar acupuntura, ele precisa sair dos termos e fundamentos que se preparou e se abrir a um mundo antigo e completamente novo. Sempre tivemos alunos médicos e comumente nos deparamos com a dificuldade maior de abrir mão dos seus operadores mentais para compreender uma nova fisiologia, uma nova abordagem em saúde completamente diferente. Mesmo assim, é sempre uma surpresa que a saúde fala mais alto, a abertura da possibilidade de um novo corpo, de uma nova fisiologia, um novo mundo de sentidos que se abre.

E por isso mesmo, em sendo tudo novo, não há que se falar em especialização, pois, como sistema autônomo, acupuntura só pode ser mesmo uma nova formação.

O argumentum ad absurdum et ad nauseam é que os médicos entre si começam a dizer que acupuntura só pode ser especialidade de algumas especialidade médicas! Sei disso pois um aluno recentemente descobriu que só o clínico, homeopata ou pediatra poderiam ser também acupunturistas na unimed. Os demais alunos da turma brincaram dizendo que nem os médicos agora podem fazer acupuntura. Preciso explicar que é a velha fatia de mercado das especialidade médicas? A mesma briga que significou o maior tiro no pé que os médicos deram nos últimos tempos, que foi o ato médico.

Não acho que médicos, os que praticam acupuntura e são tão avessos aos demais acupunturistas, não possam compreender o problema de fato. Diante do modelo científico, a tendência é que se proíba acupuntura médica, assim como fizeram com a medicina de longevidade e ortomolecular. Um dos campos que mais cresce no mundo está proibido na medicina brasileira. De novo, porque dar vitamina e suplementos, a indústria farmacêutica não quer saber disso no Brasil.

Por isso, fariam melhor os médicos acupunturistas, se entendessem que médicos e acupunturistas são formações e práticas profissionais independentes. Temos hoje vários jovens médicos alunos na escola e sabemos da pressão que sofrem por quererem trabalhar com acupuntura ou homeopatia. Sofrem verdadeiro patrulhamento moral entre os seus colegas e ainda não perceberam que estão do lado errado da cerca?

O conhecimento da acupuntura emerge da clínica e como todo procedimento, leva muito tempo para se aperfeiçoar. Não é mais uma técnica, é uma arte médica de fato. Mas de outra medicina, uma medicina estranha a toda nossa forma de pensar da modernidade.

A visão de mundo que a prática da acupuntura convoca, ao fazer fluir a energia, faz da vida mais leve e possível; o alívio de sofrimento que acontece como “mágica”, antes de tudo, nos faz mais humildes com nossos saberes.

Mas há quem pratique acupuntura e se forme sem nunca ter sido agulhado, há os tem que medo de agulhas! E é típico do médico receitar o remédio que ele mesmo não tomou, tratar a ferida que ainda não se fechou em si, propagar o que não pratica e recomendar o que nunca faria em um familiar seu ou em si mesmo. Como é público e notório ditado: “Médico não vai a médico.”

Por isso, propomos uma pedagogia completamente diferente que chamamos teragogia. Um aprendizado através do processo terapêutico.

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VITA BREVIS, ARS LONGA

Esse ditado antigo que gosto de repetir, atribuído a Hipócrates diz: A vida é breve e a arte é longa. Querer saber só medicina não é saber medicina, alertavam os médicos mais lúcidos.

O que está em jogo não é, como querem nos iludir, uma disputa de nós, acupunturistas, contra eles, o inimigo lá fora mas, ao contrário, o problema tem muitas faces, se esconde e, em geral, está em nós mesmos.

O INIMIGO ESTÁ ENTRE NÓS

Para então entender o problema vou fazer ao modo da minha aula de acupuntura, traçar um perfil cosmológico do que acontece, uma grande leitura de conjuntura e ir baixando do céu para o homem, e para terra, como nos ensinavam os antigos.

A SOMBRA – FREUD NOS ENSINA QUE A AMIZADE É A UNIÃO PARANÓICA CONTRA UM INIMIGO COMUM

Antes de todas as especializações caírem, exceto a dos médicos, as escolas vendiam garantias que foram todas perdidas. Vendiam títulos que foram perdidos por força de ação judicial. Só pra clarear não existem, hoje, especialistas em acupuntura que não sejam médicos que tenham feito a prova da AMBA.

Esses que ainda não conseguem entender e estão no mesmo nível dos médicos que patrocinaram essa campanha difamatória que desinforma a população. Felizmente o governo Dilma e a posição do ministro da saúde foram contundentes nesse sentido.  Provavelmente impulsionada pelos empresários da saúde, é claro, pois profissionais engajados na clínica tem muito mais o que fazer com seu tempo do que bancar na mídia um desfavor desse tamanho à população e aos praticantes sinceros da arte médica.

Quero deixar claro que há dessa mesma laia entre nós, não-médicos, mas que se fossem médicos fariam a mesma coisa, só não tem a oportunidade e competência. São comumente fisioterapeutas que querendo ser médicos, avocam pra si o uso de fitoterapia e de acupuntura como sua especialidade e buscam da mesma forma restringir outros profissionais cerceando seus direitos; ou os nutricionistas, psicólogos ou farmacêuticos contra os raizeiros tradicionais, patrocinam campanha contra os técnicos e fazem uso, com muito menos perícia é claro, que os médicos das mídias por aí.

São faces da mesma moeda ego centrada. São as faces da mesma ignorância, ignoram o tiro que dão no próprio pé, mas são como os que se movem por medo, agora chegam para falar em UNIÃO, o medo une temporariamente e, eu, recuso esses aliados.

Os meus aliados são os que amam e respeitam profundamente os seres humanos, os que se alinham pelo amor a arte, por preservar a sua essência e sutilezas que não cabem em nenhum livro, senão no livro da vida que cada um de nós encarna.

Saia de perto desses Zé Ninguém, como dizia Reich, dessa gente que vive a apontar os dedos aos outros e não percebem que só atiram pedra na sua própria sombra. Temos aqui, na multiversidade outros propósitos, nos consideramos acima desse tipo de motivação e sim, não temos problemas em considerar que somos melhores, por isso, considerando as escalas de desenvolvimento moral, não nos escusamos de vir tentar esclarecer, porque para esclarecer é preciso outra coisa, estudo e dedicação.

Porque não se fala nisso, de ética e desenvolvimento moral, nem nos cursos de pós-graduação de acupuntura, onde se ensinam as técnicas, nem nos cursos de medicina científica, onde não se toca o paciente mais. Ainda mais difícil seria entendermos que, assim como as capacidades cognitivas se desenvolvem com o estudo e as capacidades cinestésicas com a prática consciente, a capacidade ética de incluir outros, também.

Somos assim, radicalmente à favor de TODOS, E POR ISSO QUEREMOS UMA ACUPUNTURA LIVRE.

Acupuntura sem sentir o qi, sem perceber as curvas do corpo, sem conseguir tocar, de nada serve. Vale lembrar a genialidade dos mestres japoneses,que por serem cegos, levaram a arte de palpar o corpo a um outro nível.

Se não falamos de desenvolvimento moral nos cursos, como vamos querer um mundo mais saudável para todos?

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ACUPUNTURA É, DE FATO E POR LEI, PARA TODOS, POR ISSO NÃO DEVERIA SER UMA ESPECIALIDADE MÉDICA

Não é um privilégio da acupuntura, é um certo nível de desenvolvimento e evolução, que ainda não alcançamos. Vamos do egocêntrico, ao etnocêntrico, à visão mais ampla: esse saber sequer é seu, ou meu, ele é tradicional, transmitido da forma tradicional, por isso passe adiante de forma íntegra e integral, se puder.

Todos os bons médicos que eu conheço, que praticam uma medicina fora do sistema biomédico, aprenderam a desenvolver uma outra sensibilidade, e reconhecem os limites do que herdaram na sua formação, o que é absolutamente incrível, embora ainda impere uma monovisão, que transformou e transforma, a cada dia, as possibilidades humanas neste planeta através da ciência. Pontuamos que nada temos contra médicos, o que temos contra os maus acupunturistas médicos, temos também contra os maus acupunturistas de qualquer formação superior que defendem essas especialidades.

LEGISLAÇÃO

Outro tema relevante, ainda de ordem geral, é a legislação. Eu estudei direito na UERJ e me formei, por isso não me afetam nenhuma dessas picuinhas jurídicas e, enquanto não tivermos regulamentação, ensinamos acupuntura para todos, pois TODOS PODEM PRATICÁ-LA LIVREMENTE. Para quem não sabe, a UERJ é a mais respeitada faculdade de direito aqui do Rio.

Pois bem, vou te contar do primeiro período de Direito Constitucional onde aprendemos o PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. Esse princípio está enunciado no artigo 5º da constituição federal:

“ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”

Talvez você não saiba o que isso quer dizer. Mesmo assim, eu explico:

Isso quer dizer que, a menos que tenha uma lei específica proibindo o cidadão comum de praticar acupuntura, qualquer cidadão poderá praticar acupuntura. Entendeu?

Mas e as decisões dos conselhos?

Tentando explicar da forma mais simples: decisão do conselho de medicina só se aplica a médico, do de fisioterapia só se aplica a fisioterapia e assim por diante. Eu sou psicólogo e em breve serei farmacêutico também, mas não pratico acupuntura como psicólogo, pratico acupuntura como acupunturista.

Mas e a decisão da liminar?

Decisão de liminar não é “sentença”. Em direito, se chama sentença quando a essa decisão não cabe mais recurso, chamado de trânsito em julgado. Faz-se lei entre as partes do processo, neste caso, os conselhos, que brigam entre si pelas suas extrapolações de competência.

Os conselhos extrapolam sua competência como?

Quando fazem de um saber muito mais vasto, antigo e amplo de uma racionalidade médica outra, sua “especialidade”.

Veja, mais abaixo, essas mesmas palavras na boca do ministro da saúde.

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Voltando à teoria dos conjuntos, se você tem o conjunto Biomedicina com (medicina, fisioterapia, biomedicina, odontologia, veterinária, nutrição) e outro conjunto com (qi gong, tui na, fitoterapia energética chinesa, acupuntura, moxabustão, dietoterapia energética chinesa, etc…), como pode o segundo conjunto, talvez mais abrangente, por considerar outras dimensões e implicações da vitalidade, ser “especialidade” desses outros aí, de base biomédica? Saca, ou quer que eu desenhe?

Esse é o problema! O verdadeiro e único problema em jogo.

Bom, porque então a mídia brasileira fez essa campanha contra os acupunturistas não médicos?

Porque a mídia brasileira vive de matérias pagas. Por isso vivemos a revolução dos blogs, de artigos como este que fomentam a reflexão. Por isso, precisamos da regulamentação da mídia e, por isso é tão importante entendermos a mudança que acontece com projetos como o mais médicos, a vinda de médicos cubanos e o veto da presidenta Dilma ao ato médico. É tudo uma coisa só.

Eu tenho orgulho de ter duas médicas cubanas entre as alunas da multiversidade. Elas, como enviam 70% do que ganham para cuba, também tem um desconto proporcional, e assim, ajudamos aos poucos a fazer essa grande mudança da medicina centrada no médico, de base hospitalar para a medicina focada na saúde que ainda é infante, mas vai chegar.

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Numa frase, para os acupunturistas:

ACUPUNTURA INDEPENDENTE, OU MORTE

– acupuntura é livre, é de todos, é patrimônio da humanidade e é fundamentalmente uma arte, isso que dizer que não se aprende em livros, ou em aulas teóricas, se aprende em anos de prática, desenvolvendo uma visão outra, outra multidimensionalidade do corpo, da vida, do universo, do cosmos. Sobre o presente.

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O ATO MÉDICO DEIXOU CLARO QUE ACUPUNTURA É PARA ACUPUNTURISTAS E ACUPUNTURISTA NÃO É PROFISSÃO REGULAMENTADA, ENTÃO, TODO MUNDO PODE PRATICAR ACUPUNTURA.

Veja nas palavras do MINISTRO DA SAÚDE:

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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