Nas margens da consciência, um mergulho, um silêncio, um caminho

caminhada na praia

De tempos em tempos a gente agarra, como uma agulha num disco de vinil, pra usar uma expressão que já caducou. Tem momentos que gente sabe mas não sabe, sente, mas não explica, faz e não entende, fala e não quer, quer e não faz, faz e não sente, sente e não sente bem, diz e não faz, faz e não quer continuar repetido.

Quando isso acontece pode ser que estejamos neuróticos, ou simplesmente estamos vivendo um conflito. O conflito pode ser de ego, superego, id, pode ser do desejo, da vontade do sonho e das possibilidades, do mundo e dos limites, da falta de limites e da liberdade e do insuportável de assumir nossas próprias escolhas e blá, blá, blá… (onomatopeia que indica mentiras, ou fala sem conteúdo).

Bem, o que justamente quero dizer é que terapia não é blá, blá, blá.. Aliás, você sabe de onde vem essa expressão, vem da mesma raiz dos bárbaros que eram os povos do norte que falavam uma língua que não conheciam os romanos e bárbaros somos nós mesmos que não nos entendemos, não habitamos os sentidos de nossa fala, de nosso discurso e blá, blá, blá.

É verdade que muito da psicologia, ou melhor, das metapsicologias, dos conceitos, estruturas e outros aparatos linguísticos são as vezes inúteis e desnecessário.

O que seria então, o essencial da experiência clínica? O que acontece que é tão legal, surpreendente e encantado na terapia? Bem, o mais precioso, mais original, mais próprio da terapia é que podemos nos ouvir falando do nosso desejo. Não das desculpas que damos, das explicações de livros, das motivações socialmente justificadas ou mais ainda, do que esperam de nós. Podemos realmente descobrir por onde queremos andar se deixarmos andar nosso pensamento e fala numa direção sem direção, mas num caminho pleno de sentidos que se descobre justamente por não se saber onde se quer chegar ao certo, mas saber que é preciso de se por em marcha.

Aliás, eu defendo que terapia não deveria acontecer num divã, sentado de costas, mas caminhando, como os sábios faziam. Acho que essa relação com o corpo é sempre melhor, uma caminhada pra acompanhar um caminho ainda sem rumo pra se descobrir.

Tal como numa viagem que percorremos caminhos novos e nos lembramos das possibilidades da vida em outras culturas, em outros idiomas, em outras palavras. Também a terapia é a busca por uma palavra própria, que nos habite totalmente, que nos convoque a pensar, fazer, sentir e ser numa congruência, numa calma e serena movimentação no mundo, radicalmente, perceber que somos no mundo, e para as coisas do mundo somos atraídos a cuidar, a encantar e a falar.

Mas por mais que essa minha conversa esteja a tentar falar da experiência mágica da terapia, sem os conceitos e saberes da psicologia, mesmo quando me aproximo da filosofia ou da poesia, vejo-me em percursos alheios e em palavras emprestadas.

Ainda assim, sigo escrevendo, porque senti algo que precisava ser dito, e esse algo, esse isso, esse próximo eu que quero encontrar e te abrir o sentido.

Pra isso pergunto quais os ingredientes da abertura do encontro com nossos desejos? O mais raro, o mais importante, o mais surpreendente é uma escuta. Simples, não? Não. Não é simples, uma escuta silenciosa e atenta, uma escuta generosa e ampla, uma escuta acolhedora e verdadeira é talvez uma das coisas mais raras do mundo. Principalmente hoje em dia, que somos treinados a não escutar o outro, mas para afirmar nosso desejo sobre tudo que nos projetam na TV, na hipermídia da venda. Compramos idéias, valores, produtos de toda sorte sem nos darmos conta disso.

Mas uma escuta, ela não tem preço. Ela abre um espaço no mundo para que você possa finalmente falar de si, e se ouvir falando o que você ainda não sabia que já sabia até o momento que você enuncia, em voz alta, para o outro ouvir, mas fundamentalmente, para você mesmo ouvir.

Por isso, serve um bom amigo, se ele tem essas qualidades, ou um terapeuta, se esse também tem essas qualidades da escuta, que sei bem, quão difíceis e raras são de cultivar e de encontrar.

Então, se você anda seguindo passos que não são teus, saia dos trilhos e abra novas trilhas. Se tuas palavras só fazem repetir velhos chavões, se teus lugares são lugares comuns, se teus planos são os planos de todos, e se teu desejo ainda não te satisfaz. Vá procurar um terapeuta, que não seja mais um a te dizer para segui-lo e fazer como ele faz. Mas para te acompanhar, numa caminhada, numa margem de rio, ou na beira do oceano, quem sabe, um dia, você descobre as margens da sua consciência, e decide mergulhar no oceano.

Dedicado a minha amiga Roberta e nossas caminhadas.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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