Cultivo de si e evolução retomando o caminho

meridianos energiaUma das coisas que me atraiu ao estudo da acupuntura era sua relação com a tradição filosofia oriental, especialmente o taoísmo.

Quais as implicações de uma prática medicinal inserida num sistema de valores e ética em contraste com as práticas medicinais modernas. Um problema da modernidade foi ter colapsado todos os valores e padronizado toda a interioridade. Assim, saúde é quem não tem sintomas e feliz é quem trabalha e ter seu lugar na sociedade, no sistema.

Essa questão da modernidade nos colocou numa situação em que pra mim, quando mais estudava acupuntura, menos encontrava o que buscava no início como psicólogo. Uma prática de desenvolvimento pessoal para atingir níveis mais elevados de consciência, saúde e organização psíquica. Em termos tradicionais chineses, uma prática de cultivo, no sentido de cultivo de si, cultivo de boas ações, virtude, saúde e alegria de viver como a meditação.

Tive uma inspiração enorme com a leitura feita pelo professor Padilla da Espanha, mas não suficentes para convocar a uma transformação. Acho, porém,  que se não fosse a contribuição da escola neijing eu não teria me aproximado da acupuntura enquanto técnica, mas me afastei primeiro fisicamente e em seguida teoricamente das práticas propostas por vários motivos, entre eles um nível mítico literal da interpretação dos clássicos. Algo que escreverei no futuro.

Porém, o tema que quero discutir é muito importante. Uma das pacientes que já acompanho há bastante tempo, chegou esses dias num encontro terapêutico e percebi que todos seus sinais estavam saudáveis. Não tinha nada que pudesse perceber no diagnóstico oriental que me pudesse tratar e a questão colocada é qual o alcance da terapêutica em acupuntura? Até onde pode nos levar o tratamento. Tudo bem que talvez sem os encontros semanais ela não permanecesse assim tão harmoniosa, mas o que fazer neste ponto? É esse o limite?

Se fosse um terapeuta convencional eu, como comentei francamente com ela, diria para ir para casa, que não havia nada que pudesse fazer, ela provavelmente estava mais saudável que eu.

A minha intuição, embora não veja isso sendo tratado nos livros. É que um organismo livre de bloqueios energéticos é capaz de alegria, de sentido e de pertencimento no universo. Um ser energeticamente livre é um ser capaz de trazer luz, qi, energia, sopro, alento a todas as partes da sua vida e do seu corpo e ressoar com essa energia ao seu redor. Seu shen, espírito, brilha nos olhos e suas palavras são carregadas de energia e vibração. Todos sabemos bem o que é isso.

Infelizmente acupuntura, como todas as demais práticas modernas vem sendo reduzida a uma técnica para aliviar dores e sintomas, mas não coloca mais temas como virtude, bem-aventurança ou bem-viver na pauta de suas possibildiades. Algo que um psicólogo é comumente convocado a fazer, principalmente se trabalha numa abordagem existencial, humanista ou mesmo transpessoal.

Dissociado do seu sistema de valores a acupuntura pode para aí, na ausência de sintomas. E aqui dou ênfase ao taoísmo, entendendo que existem influências de diversas escolas filosóficas orientais como confucionismo ou budismo.

Em síntese, acupuntura e sua terapêutica está limitada ao nível grosseira e físico? Não, há evidências de que ela alcança níveis sutis, psíquicos, mental-emocional. E além?

Esse além, a dimensão espiritual da acupuntura foi então totalmente usurpada e achatada e as práticas de qi gong se tornam cada vez mais uma ginástica destituída de seus sentidos artísticos e éticos ou energéticos. O mundo plano, reduzido mecanicista teve o mérito de superar os níveis míticos da acupuntura, mas jogou com isso a água com a criança fora. A criança é a possibilidade continua de evolução. A criança é o Dao a experiência causal de não-dualidade descrita em todas as tradições e que está além da razão.

Mesmo considerando todos esses aspectos, no meu curso de acupuntura, escolhi ensinar intensivamente o básico da acupuntura. Agulhamento dos pontos com ênfase nos tratamentos. Não podemos exigir sob a égide da modernidade que num curso de acupuntura seja o espaço para se colocar o sentido da vida, ou práticas de cultivo. Acho que isso merece um curso à parte, para os que estão dispostos a questionar suas motivações para além da questão que me vem sendo feita muitas vezes pelos alunos que me ligam querendo aprender: – Acupuntura dá dinheiro? Eu posso praticar acupuntura legalmente? Posso funcionar dentro do sistema?

Pra mim as questões boas seriam, acupuntura pode me ajudar a viver melhor e aos que estão ao meu redor? Pode me ajudar e me transformar? Pode me ajudar e encontrar um sentido? Pode me ajudar seguir minha viagem em direção ao infinito de nós mesmos?

Se você ainda não sabe a respostas pra essas questões procure alguém pra alinhar suas energias. Procure alguém para te colocar em equilíbrio. Somos um todo-parte, um holon,  muito misterioso ainda, e cuidar desse mistério, e se inclinar com humildade sobre ele, é a atitude fundamental de qualquer terapeuta.

Não sei bem o que é curar, não sei bem o que é saúde, mas sei que posso me dedicar ao outro, ao cuidado, ao estar com o outro no seu sofrimento e se consigo ver além, se consigo ampliar os sentidos, se consigo ampliar o espaço para energia circular e se manifestar, então posso me considerar um terapeuta integral. E radicalmente, sei que isso não é a cura, mas a tarefa infinita de ir nos curando, ir nos cuidado aos poucos e isso espalha luz, razão e compreensão mais vasta e integrada.

Quanto a questão que me motivou a escrever essas linhas, acupuntura pode te ajudar a evoluir? Por si só, como é comumente praticada, percebo que não, mas é possível cria um terreno fértil e facilita que possa aí sim, permitir que se cultive uma atitude mais ética e mais plena perante o Céu e a Terra.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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