Cuidando da vida – como o sentido da doença implica no sentido da cura

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Muitas doenças hoje não tem cura ou pacientes não melhoram são crônicas. Diabetes, câncer, chron, cardiopatias e tantas outras. Não sabemos o que as causa em que nível estão, e no mundo inteiro, estamos tentando soluções para esses problemas.

Eu mesmo, por mais amplo que sejam os recursos da medicina chinesa, sei que há campos que se avança pouco. Pela primeira vez em minha prática acompanho dois pacientes que tem enfermidades muito difíceis de tratar.

Anos atrás recebi uma paciente, mãe de um amigo muito querido, eu tinha dois anos de prática apenas, mas ele me confiou sua mãe. Ele e suas irmãs e pranto me levaram uma senhora idosa com muitas dores e dificuldades para andar. Ele me dizia que ela estava tomando cogumelo do sol e que tinha metástase. Eu olhava pra aquelas agulhas e para seu corpo sobre a maca a tudo que podia fazer era lhe olhar profundamente nos olhos e dizer que estava ali com ela. Fiz toda a cena e prometi lhe visitar logo depois, indiquei florais pra toda a família e não cobrei nada. Não havia nada a fazer, mas de alguma forma talvez tenha podido ajudar.

Um terapeuta é em parte um mágico das esperanças, das formas misteriosas como lidamos com nossa cura. Da forma como os outros entendem e dão sentido ao sofrimento. Como tenho uma profunda vivência espiritual. Sinto-me sempre compelido a apontar nessa direção, apontar para o espírito perante a falta de sentido.

Existem pelo menos quatro atitudes nessa condição.

1-    Posso chegar à mesma conclusão dos médicos que acompanham o paciente que disseram que na sua condição não há mais o que fazer. Porque os livros de acupuntura afirmam que tratamento oriental não oferece recursos nesses casos.

2-    Posso me contentar com toda uma “melhora geral” do paciente, emocionalmente principalmente que acupuntura também ajuda muito. Isso sempre acontece no tratamento com acupuntura e embora eu sinta como um consolo, percebo que é uma melhora real.

3-    Posso chegar investir meu tempo e energia para continuar buscando uma solução, tanto movido por um narcisismo de achar que posso tratar tudo, quanto uma profunda motivação de fazer tudo que estiver ao meu alcance para ajudar o outro. E acho que esse exercício do que podemos doar é sempre uma questão difícil de dosar.

4-    E posso, principalmente, estar junto, acompanhar e escutar profundamente o paciente na forma como ele vive para além da doença e servir de esponja para suas emoções. Para o psicólogo isso é o fundamental no seu tratamento, saber receber e metabolizar as descargas emocionais que não ocorrem em nenhum outro espaço.

Mas a doença, qualquer que seja, tem pelo menos dois aspectos. Um aspecto são os sintomas em si, objetivamente considerados. Em outro nível estão as representações sociais da doença, o imaginário da doença e as explicações que o paciente encontra para a questão fundamental: Por que eu? Por que estou doente, por quê?

Acompanhar um paciente apenas objetivamente é uma tarefa mais simples. Basicamente existe um conhecimento estabelecido e se aplica aquela técnica no tratamento da doença. Mas existe uma dimensão hermenêutica da doença que só descobrimos escutando o imaginário e os sentidos que a doença evoca na tentativa de responder ao porquê.

Ontem fiz uma profunda reflexão sobre o que eu faria se soubesse que iria viver apenas um ano. Por mais doloroso que seja, é uma reflexão muito poderosa. Realmente mergulhar na finitude, realmente olhar a morte. Debatemos-nos, criarmos religiões, cremos na reencarnação do ego, na salvação da alma e nos recusamos a investigar se existe algo além do ego, algo em nós que possa realmente ser eterno e precioso. Não foi a primeira vez que fiz esse exercício, toda filosofia existencial coloca a morte como uma questão fundamental. Assim como os ensinamentos de Castaneda e Dom Juan.

Os budistas falam da preciosa vida humana e ela, a nossa vida a nossa existência só se ilumina perante a morte. Imagine o que farão nossos bisnetos vivendo 1000 anos? Eu prefiro imaginar o que eu faria vivendo um ano e anotando num papel todas as coisas importantes que eu realmente gostaria de fazer. Felizmente não muita coisa diferente do que estou fazendo. 🙂

O que quero dizer finalmente é que nem sempre, por mais que todos os nossos esforços no coloquem na direção da busca de superar os sintomas, conseguimos este feito. Mas existe uma enorme e poderosa função terapêutica de cuidar da alma e devolver à vida para além de qualquer doença. De ajudar o paciente a conviver com suas limitações, sem que a doença seja considerada um castigo por um pecado, um castigo por um desvio para ajudar a evoluir ou fruto de um karma, ou mesmo na tradição oriental um castigo porque você não está seguindo o Tao, está em desarmonia com o universo.

*Discuti esse tema antes no artigo Acupuntura e os Níveis da Doença.

Sabemos que toda doença pode ser uma benção, não porque festejamos a crise, mas porque toda a vida, que inclui nascimentos, sofrimentos, decepções e a morte. Uma das minhas resoluções para esse ano de vida é agradescer profundamente aos meus pais por terem me ofertado essa possibilidade de desfrutar da vida, de viver todo espectro da minha consciência e aos poucos me abrir para o infinito.

Deixo aqui alguns dos sentidos das doenças com que normalmente reagimos numa tradução livre do livro Grace and Grit de Ken Wilber.

1.            Cristão- A mensagem fundamentalista: doença é basicamente uma punição de Deus por um tipo de pecado. Quanto pior a doença mais grave o pegado.

2.            Nova era – A doença é uma lição. Você está atraindo pra si a doença porque existe algo importante que você tem que aprender com ela para continuar no seu crescimento e desenvolvimento espiritual. A doença é apenas uma criação da sua Mente e basta a Mente apara cura-la.

3.            Medical – doença é fundamentalmente uma desordem biofísica, causada por fatores biofísicos (vírus, traumas e disposição genética, ou agentes ambientais que servem de gatilho) Você não precisa se preocupar com tratamentos psicológicos ou espirituais para a maioria das doenças porque esses tratamentos alternativos trazem poucos benefícios e podem muitas vezes evitar que você receba tratamento médico adequado..

4.            Karma –  doença é o resultado de karma negativo, ou seja, uma parte não virtuosa das suas ações anteriores se converteu em uma doença. A doença é “má” no sentido que representa um kama passado, mas é boa no sentido que permite que você se purifique e se livre das dívidas passadas, é uma purgação uma “limpeza”.

5.            Psicológica- As Woody Allen diz, “Eu não fico irritado; eu desenvolvo tumores.” A idéia é pelo menos na psicologia “pop” de que as doenças são fruto de emoções reprimidas. A forma mais extrema é que as doenças são fruto de um desejo de morte.

6.            Gnóstica -doença é uma ilusão. Todo o universo manifesto é um sonho, uma sombra e o sujeito está livre da doença apenas quando está livre da ilusão de toda a manifestação, apenas quando acorda do sonho e descobre o Uno, a realidade além do universo manifesto. O espírito é a única realidade e no espírito não existe doença.  Uma versão extrema de misticismo.

7.            Existencial -a doença em si mesma não tem sentido. Pode-se adotar qualquer sentido, eu escolho qual sentido dar a doença e sou responsável por essa escolha. Homens e mulheres são finitos e moretais e uma resposta autêntica é aceitar a doença como parte de finitude mesmo quando isso envolva dar um sentido pessoal.

8.            Holistico- doença é um produto de fatores físico, emocional, mental e espiritual, nenhum deles pode ser isolado um do outro, nenhum pode ser ignorado. O tratamento deve envolver todas as dimensões embora na prática isso normalmente se traduz por evitar tratamentos ortodoxos mesmo quando eles pode ajudar.

9.            Mágico – Doença é um retribuição. “eu mereço porque eu desejei eu desejei tanto que eu morreria. Do tipo, é melhor eu não ficar muito feliz porque uma coisa ruim vai acontecer. Tantas coisas boas me aconteceram então uma coisa ruim vai acontecer.

10.          Budista – a doença é uma parte inescapável do mundo manifesto, parte do mundo manifesto, perguntar porque há doença é como perguntar porque existe o ar, o nascimento e a velhice, doença e morte – essas são as marcas do mundo, todos os fenômenos se caracterizam pela impermanência, sofrimento e egoísmo. Apenas na iluminação a doença é transcendida porque todo o mundo fenomênico é transcendido também.

11.          Cientifica – Qualquer que seja a doença tem uma causa específica ou algumas causas,. Algumas são determinadas, outras são simples acaso ou puro azar. Não existe um “sentido” para a doença, apenas o acaso ou necessidade.

Não se trata de escolher um ou outro sentido. Todos nos atravessam de uma forma ou de outra, percorremos esses sentidos quando estamos doentes mesmo sem querer. Mas de ver que podemos transitar e aproveitar todos esses e tantos outros sentidos a serem desvelados.

Um forte abraço a todos os meus leitores e se tem algo essencial, que ainda não fez e está adiando, se dê um horizonte de um ano, de um mês de um dia e responda sinceramente,” o que você faria se só te restasse esse dia”, se te restasse um ano, se te restasse uma vida, uma única vida.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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