reflexões sobre a arte de fluir a vida
ARTIGOS
Tantra – quando a morte é uma benção
06/10/09
Tenho aprofundado cada vez mais minha prática de meditação e tenho também me colocado em situações que realmente testam essa condição contemplativa da vida em especial relacionamentos de toda sorte, amizades, amores, mesmo amores platônicos podem ser uma benção na vida.
Dois aspectos básicos da relação entre o masculino e o feminino são: A capacidade do homem de permanecer firme e a capacidade da mulher de lhe retirar dessa posição. (hehehe)

Claro que cabem muitas interpretações pra essa frase, mas num certo sentido, estou falando da capacidade de não se alterar perante o oceano de emoções que são as mulheres.
O feminino não sabe o que quer, precisa de direção, o masculino sabe o que quer e precisa ser retirado de si mesmo e essa dinâmica pode ser muito positiva, ou ser o drama que vemos por aí.
Mas além dessa dinâmica onde o feminino testa a todo esforço a capacidade do homem permanecer ao seu lado, apesar de todas as barbaridades que é capaz de cometer de todas ondas, as tsunamis emocionais e essa capacidade de viver num mundo instantâneo de emoções. Basicamente diante do oceano, o que um homem precisa fazer é permanecer na mesma posição, firme e inabalavelmente ao lado do feminino. Parece simples? Ela vai te testar sempre, dizer o que não quer, pedir o que não suporta e se você fizer o que ela está pedindo ainda vai ficar frustrada com você.
Para além dessas polaridades clássicas e reconhecer essa polaridade como algo extremamente positivo e que anima a relação. existe uma dimensão boa na relação com o feminino que aterroriza homens, mulheres, crianças e adultos em todos os cantos. Qual seja a dimensão morte do encontro com o feminino, claro, se algo merece morrer é mesmo nosso eu separado, nosso eu contraído o que chamamos de ego. Não que um ego saudável não seja bom pra um monte de coisas, mas se ainda resta algum sofrimento e ele emerge na relação com o outro, uma boa mulher vai te matar. Vai te colocar em contato com suas contradições até o limite da sanidade e por incrível que pareça, isso também é amor.

Poucas mulheres tiveram capacidade de me matar, mas são elas as mulheres que eu mais amo, que mais me marcaram, que mais me transformaram fisicamente, afetivamente, cognitivamente e espiritualmente.
Assim o sagrado e o profano estão intimamente ligados o amor mais profundo e a traição o íntimo e o publico, o carnal e o transcendental. Isso é tantra, isso é o engajamento com o real na lama e no lótus, no céu e no inferno, no terror e no amor, na vida e na morte.

Claro que pode não ser uma coisa fácil de se entender, ver uma mulher, uma mãe, uma presença feminina destruir a criação do seu amor, das suas fantasias, dos seus desejos. Mas se conseguir ver, além disso, perceber o divino dessa dimensão pode-se acordar para um amor, uma abertura, uma alegria, um êxtase, uma luz tão acolhedora que é difícil compreender sem lágrimas correndo e sem correntes de energia percorrendo todo o corpo.

Se sua mulher consegue te matar, talvez ela seja mesmo uma mulher para você, se não, vai ser mais uma amiga que nunca vai ter a coragem pra cortar a sua cabeça como nas iconografias tradicionais da índia e do tibet.
Tudo bem, não se pode ter tudo e uma boa amiga ainda é um presente raro da vida.
Como incluir na prática clínica as noções chinesas de destino e de cultivo
06/10/09

Na prática o que é saúde? Saúde é uma ausência de sintomas gerado pela ingestão de antibióticos? Saúde é o que se consegue quando se luta contra o fator patológico, mesmo que ele seja um “vento perverso” ou qualquer manifestação de “xie qi”. (qi do mal)
Na prática, acupuntura pertence a um domínio difícil de praticar por que com toda razão ele contém muitas variáveis e quero apenas considerar duas que aparecem com freqüência nos textos chineses. A questão do cultivo da saúde e do destino.
“Um médico de excelência cuida dos sintomas antes dele aparecerem”
Ou seja, um terapeuta investe na saúde, na sua e das pessoas ao redor. A medicina chinesa é vasta e seu campo de atuação está entre duas dimensões importantes, o corpo grosseiro e o sutil, eles se interpenetram, mas não são a mesma coisa.
Assim, no caso a atuação sobre o campo sutil não podemos esquecer que faz toda a diferença a atitude mental, a capacidade de concentração, o Yi ou intenção do praticante na hora de inserir as agulhas. ( eu disse TODA A DIFERENÇA)
Um encontro clínico verdadeiro tem uma dimensão sagrada, pois se um encontro acontece, todos se curam, aprendem e seguem viagens mais confiantes. Eu gosto bastante de ler, mas meus professores na arte de curar são sempre os que me curaram: remédios, alimentos, amigos, agulhas, plantas, homeopatia e florais.
Funcionam pra mim e me colocam de volta no caminho. Essa noção de que as coisas têm um sentido, de que a vida tem alegria e de que o tratamento pode te ajudar a conquistar isso não é o mesmo que tratar um sintoma. E às vezes eu tenho a sensação de que essa dimensão da prática terapêutica com agulha e moxa é negligenciada em função de uma enormidade de técnicas, pontos e procedimentos analíticos.
Como psicólogo eu sei o quanto uma palavra pode curar, como acupunturista que observa as sincronicidades ao redor eu sei o quanto tudo está ligado a tudo e que minha atitude na hora de inserir os pontos tem que ser trans-racional , para além da razão. Isso é infelizmente confundido como pré-racional, para aquém da razão, como se tudo que não é racional ou melhor, analítico, não é método confiável.
Com toda certeza criticar os reflexos Nova Era na prática da acupuntura como em todas as outras áreas é muito importante, mas não dá pra jogar fora no mesmo balde os tesouros preciosos dos grandes sábios iluminados do passado que abriram um campo de eficácia clínica muito além das possibilidades de sistematização mental da prática clínica.
Claro que consolidar uma base analítica é fundamental, é preciso estudar muito, isso é importantíssimo, bases sólidas para analisar os casos clínicos é fundamental. Mas no campo sutil, bem como no campo físico, o terreno continua sendo tudo o veneno não é nada, tratar os fatores de adoecimento sem considerar o paciente, o terreno onde o “mal” se instala é um extremo estúpido quanto achar que não existem doenças, só pessoas doentes. Doenças existem, bem como pessoas doentes.
Pasteur morreu reconhecendo que não eram as bactérias e vírus a questão central na saúde, mas o terreno. Assim como sabemos que na prática da acupuntura e da saúde pública, cada vez mais se sabe sim da importância de prevenir e cuidar e nesse caso, as variáveis são realmente muitas.
Se pudermos descobrir novos marcadores somáticos ligados às síndromes energéticas chinesas vai ser ótimo, mas considerando o campo da nutrição, por exemplo, não conseguimos descobrir nada sobre o que faz bem ou faz mal e em geral nos alimentamos sem ter consciência do que fazemos.
O mesmo se dá com a prática da acupuntura orientada para o destino, Ming, cuidar não é apenas tratar sintomas, mas permitir que o sujeito encontre uma forma de viver mais saudável com o livre fluxo de qi de yin e yang. Essa posição em busca dessa condição essencial deve sempre orientar a prática clínica, por mais simples que possa parecer, não é.
Aí, entra uma questão fundamental. Se o terapeuta não faz nenhuma prática de cultivo. Se não cuida da sua saúde, se não percebe os seus desequilíbrios se não vive esse estilo de vida, como poderá perceber as desarmonias no outro. Apenas com análise racional de sinais e sintomas? Pra isso tem excelentes programas de computador, cada vez melhores!
Precisamos convocar então uma outra inteligência, que por falta de nome melhor, vou chamar de inteligência do destino ou do Dao, ou do caminho. A inteligência de quem se coloca num caminho de prática e pode sim transmitir aquela expressão do conhecimento tradicional que está para além dos livros, além da letra.
A letra não só é morta, mas também mata.
O espírito não só vivifica, mas também cuida da vida em geral.
Dedicado a todos os amigos da comunidade de acupuntura com quem sempre aprendo muito!
Aprender acupuntura e a integração das energias sutis
06/10/09

Comecei a praticar acupuntura em 2003 e quero partilhar um pouco do que aprendi com acupuntura na prática clínica e na vida.
Na minha vida pessoal aprendi que:
Todos os sinais e sintomas do seu organismo, mesmo afetivos e emocionais guardam uma correspondência com níveis sutis de energia que circulam pelo corpo.
Então se você está dormindo demais ou de menos, se está feliz demais ou de menos, tudo pode ter uma contraparte energética.
Aprendi que alimento é remédio e que fitoterápicos tem que ser administrados com MUITO CUIDADO, porque são muito fortes.
Aprendi que puncionar o F3 Tai Chong e IG 4 He Gu, de vez em quando não faz mal a ninguém e em geral te deixa mais feliz e mais “solto”.
Aprendi a ficar olhando minha língua todos os dias quando encontro um espelho na minha frente para acompanhar minha saúde interna.
Aprendi que existem sim harmonia e possibilidade de viver uma vida com alegria serenidade.
Aprendi que as técnicas de cultivo interna, meditação não são coisas simples e que provocam fortes alterações na fisiologia energética.
Que as energias sutis são bem reais e que podemos movê-las para cuidar de si e das pessoas.
Que é importante procurar um acupunturista competente para te tratar. Agulhar a si mesmo não tem o mesmo efeito do que o agulhamento por outra pessoa.
Na minha prática clínica com acupuntura
Aprendi que agulhas devem ser sempre levadas consigo, nunca se sabe quando alguém vai ter uma distensão, um enjôo ou uma dor de cabeça.
Que diagnóstico médico contrário ao tratamento não deve e não pode te impedir de tratar com as bases da medicina chinesa, ou seja, milagres acontecem.
Existem várias acupunturas e todas as escolas estão certas em algum ponto.
Que acupuntura algumas vezes não faz sentido. Ponto X resolve doença Y e “ponto”.
Agulhas pequenas e finas não fazem mal a ninguém e deixam em geral o paciente mais “receptivo” ao tratamento.
Que a intenção na hora do agulhamento é tão importante quanto a localização dos pontos.
Acupuntura não é tão difícil, mas como toda arte, demanda prática, estudo e dedicação, por mais talentoso que você seja.
Quanto melhor a sua saúde e qualidade energética, melhor a sua capacidade terapêutica.
Antes de aprender centenas de pontos é preciso realmente aprender os básicos de verdade, localização, agulhamento e deqi (perceber o qi).
Acupuntura chinesa” dói” muito mais que a japonesa, mas eu ainda acho que tratamentos de “choque” são mais eficazes.
Que a teoria dos cinco elementos não é tão importante, mas ao mesmo tempo pode ser o que te salva numa hora de sufoco. Estudar os clássicos é importante, mas mais importante é um bom estudo de cada paciente.
Que basta uma agulha no ponto certo para harmonizar todo um quadro clínico, mas que outras vezes 10 agulhas é pouco.
Ter uma prática de meditação, tai qi chuan e qi gong são fundamentais.
Relacionamento Integral – entre o pôr-do-sol e a onda
26/09/09
Estou há alguns dias tentando escrever algo sobre relacionamentos. De todas as linhas de desenvolvimento, as relações íntimas parecem ser as principais fontes de crise de desenvolvimento, e claro, se tornam a forma de crescimento mais acessível e talvez mais importante de todas. É assim pelo menos na minha experiência. Claro que crescimento não precisa ser apenas em tempo de crise, mas comumente é assim.
Há tantos aspectos a serem considerados, mas sendo um artigo para uma leitura breve, vou apenas citar alguns pontos tentando ser o mais abrangente num mapa que seja pelo menos útil.
Com milagre do encontro quero dizer a possibilidade do que penso e escrevo possa ser entendido por você que lê, que o que sinto possa ser transmitido e compreendido através desses fótons de idéias para teclado, para tela, para internet, para seus olhos até sua mente e mais além. Isso é um dos mistérios radicais do universo, tão misterioso é enfim o relacionamento.

Eis alguns itens que quero citar. Quem sabe um dia eu possa escrever mais sobre cada um deles, mas a idéia é uma visão geral de uma visão integral que considero importantes especificamente sobre relacionamentos interpessoais. Embora uma leitura própria as idéias básicas são retiradas do modelo integral proposto por Ken Wiber.
1- Desenvolver um amor grande.
2- Encarar o relacionamento como um espaço de prática.
3- Abrir o coração.
4- Meditação.
5- Ligação entre almas.
6- Definir o que você quer.
7- Níveis de desenvolvimento nos relacionamentos.
8- Sexo integral e tantra.
9- Lila os passatempos amorosos.
10- Estágios na Dinâmica da espiral
11- Estados
12- Linhas
13- Tipos
14- Polaridade, gênero e a relação entre o masculino e feminino.
15- A sombra do relacionamento.
16- Paradoxos existenciais
17- Sexo no toque e na cura.
18- “Re-creação” “co-criação” e “procriação”
19- Tocando a face de Deus
Desenvolver um amor grande e não um grande amor.
Em geral um grande amor se relaciona com a capacidade de transcender que o amor nos coloca. Mesmo reduzindo ao nível do objeto da condição humana, amor é no mínimo uma descarga de neurotransmissores que altera totalmente nossa percepção da realidade. Ainda assim é importante distinguir o que vou chamar de amor grande do amor apaixonado. Por amor grande é o que consegue incluir a perspectiva do outro quando avalia a realidade, consegue considerar o outro e suas necessidades, valores e expectativa.
Amor grande não diz vem, amor grande diz vai em direção ao seu destino. Amor grande sabe que ninguém é de ninguém, amor grande ilumina e reforça o lado luminoso do outro, reconhece, acolhe e fortalece seu brilho.
Quando cultivamos amor, o amor se espalha para todas a áreas da vida, cuidamos com amor, cozinhamos com amor, trabalhamos com amor, fazemos yoga com amor!
Grandes amores é o contrário, fazer do amor em si o objeto da relação. Amamos o nosso estado de enamoramento, como dependentes químicos. Amar o amor, o que nasce entre dois é importante, mas só amar o amor esquecendo-se de si e do outro é uma idolatria.
Encarar o relacionamento como um espaço de prática.
Em resumo, precisamos ser sinceros, quando dizer “eu te amo”, dizer também “eu não sei amar”. Quando danço forró eu gosto de dançar com quem já sabe dançar, claro, mas aprendi com alguém que teve paciência pra me ensinar os primeiros passos e como em tudo na vida estou sempre aprendendo novos passos, novos movimentos, cada par que se forma se harmoniza em um ritmo próprio.
Outra questão importante é que se envolver com uma pessoa mais experiente afetivamente quanto sexualmente é um ponto importante.
Abrir o coração
Às vezes o amor bate a nossa porta, mas estamos fechados. “Fechados para balanço”, isso é ótimo, mas manter o anahata chacra, manter os meridiamos em equilíbrio, principalmente os do coração e do mestre do coração (xin bao) também é importante. Às vezes precisamos de um inverno na vida afetiva, mas não deixar de perceber as flores quando a primavera chegar.
Meditação
Meditação na relação tem pelo menos 4 aspectos.
Desidentificar das paixões e das imagens que o outro nos provoca e se manter centrado observando o que emerge como manifestação do espírito.
Praticar tonglen como prática de compaixão infinita.
Perceber e ampliar a consciência dos níveis sutis da relação.
Dar uma gargalhada boa dessa tentativa de organizar um “relacionamento integral.”
Ligação entre almas
Mesmo para quem não acredita ou tem uma experiência relacionada a outras vidas e outras existências, em geral as pessoas não conseguem explicar os nexos estabelecidos entre as pessoas como apenas causais. Não temos razão para o amor. Com dizia Pascal, o amor está além da razão, mas não está contra.
Psicologicamente, por outro mistério da vida, tendemos a atrair pessoas que precisamos de alguma. Se esse sentido aparece, antes ou depois, se ele é um sentido em si ou se nós mesmos que damos o sentido. Fato é que, numa relação transformadora as coisas parecem ter um sentido, uma ligação, uma dimensão espiritual. Aliás, pra muitos, o mais próximo de espiritual que se pode chegar é na relação amorosa.
Definir o que você quer
Uma das coisas mais difíceis numa relação é estabelecer limites para as projeções. Definir as coisas. Mesmo quando percebemos que está “rolando alguma coisa”, se não definimos os limites e as possibilidades da relação isso em geral dá problemas. A frase clássica de qualquer novela é “você não pode me dar o que eu quero ou o que você me dá é muito pouco”. Em geral isso tem muito pouco a ver com o outro e fala mais de nós mesmos. Embora os pluralistas relativistas achem que esse tipo de definição e regras são convencionais e que uma relação não é um contrato, que basta amar que tudo vai dar certo. Da perspectiva integral é importante deixar isso claro, mesmo que o limite, as definições e as expectativas mudem, elas precisam ser compactuadas, normalmente quebras de contrato acarretam sanções.
Níveis de desenvolvimento
Segundo Kohlberg , muito citado por Wilber em Sexo Ecologia e Espiritualidade, nós nos movemos entre três níveis de desenvolvimentos morais básicos: pré-convencional, convencional e pós-convencional.
No primeiro nível, (pré-convencional) os relacionamentos são marcados pelo desejo sexual perverso com múltiplos parceiros e um jogo de poder com fetiches e sado-masoquismo, valorizando a não-monogamia, principalmente com dominação masculina sobre o feminino.
O segundo nível (convencional) o relacionamento sexual é caracterizado pelo desejo de relação com um parceiro principal, normalmente um casamento convencional e convivência doméstica. Monogamia é considerada uma virtude e não-monogamia e outras relação consideradas adultério e traição.
O terceiro nível (pós-convencional) o relacionamento traduz um desejo de intimidade profunda e sexualidade bem vivenciada que pode ser encontrada com um ou mais parceiros em casamentos convencionais ou não convencionais. Monogamia e não-monogamia são consideradas e tem um papel importante no desenvolvimento sexual.
Sexo integral e tantra
Você pode ler mais sobre o que escrevi sobre tantra e arte do encontro e alquimia com o outro.
Em resumo, sexualidade envolve todo um movimento de energias ascendentes e descendentes pelo corpo físico e sutil, ascendendo pelos nadis e merididanos e despertando estados de consciência expandidos.
Lila o passatempo amoroso
O amor divino. Diferente do panteão grego em que os deuses são extremamente ciumentos e cheios de tramas e desafetos. A relação amorosa entre Krishna e Radha implica numa prática devocional e profundamente amorosa. Tanto homens como mulheres ao se colocarem nessa relação devocional com o divino podem trazer isso para sua vida, no contato com essas grandes imagens perceber que os jogos e brincadeiras do amor, tanto no relacionamento como no relacionamento com a vida, com o espírito é tudo uma grande Lila, uma grande brincadeira do viver.
Achar, perder, buscar, encontrar, perder novamente faz parte dessa dimensão lúdica do amor.
O amor é não só uma prática, mas também uma brincadeira na grande brincadeira ou passatempo da vida.
Dinâmica da espiral
Considerando os níveis na dinâmica da espiral, níveis de desenvolvimento de valores e cognitivo vertical.
Púrpura: valoriza o clã, a família, os ancestrais, casamentos arranjados, baseado na tradição da tribo, nos tabus.
Vermelhos: o macho busca satisfação enquanto a fêmea busca o status de acordo com o macho que escolheu. Egocêntrico, permite quebra de tabus e outras ordens familiares, atende apenas às suas necessidades.
Azul: permite o surgimento do amor, a relação se dá em nome de uma causa maior, “crescer a frutificar”, casamentos convencionais com regras de conduta bem estabelecidas. Reaparecem os tabus sexuais, sexo tem a função de procriação e a responsabilidade e o dever perante a família emergem.
Laranja: o individuo rompe com a tradição em busca do que faz com que se sinta bem. Certo e errado agora estão dentro de si e não mais impostos pela lei e ordem da religião ou do grupo. Relacionamentos nesse nível valorizam a expressão pessoal, o relacionamento dura e se atende às necessidades dos indivíduos. Relacionamentos homosexuais, grupais, fetiches e fantasias são aceitos como algo que possa estimular a relação.
Verde: Homens e mulheres e outras formas de parceria tem ênfase no igualitarismo e na sensibilidade para com os afetos e necessidades. Necessidade de uma conexão profunda entre os parceiros. O relacionamento tem ênfase no compartilhar de papéis, nas trocas entre masculino e feminino. Reprodução, satisfação sexual e status não são suficientes. Criatividade, espiritualidade, compartilhar emoções e construir a relação são partes centrais da vida.
Amarelo: Percebe e integra toda a espiral entendendo os vários níveis de desenvolvimento e incluindo o relacionamento em todos os seus aspectos. Grande capacidade de lidar com os paradoxos dos relacionamentos e também capacidade de se distanciar deles conectando com a dimensão observadora e contemplativa. A percepção das energias sutis e jogos de puxar e empurrar de agarrar e soltar e manipulações mesmo através das energias sutis também passam a ser harmonizadas. Impulsos de kundalini passam a ser uma experiência mais e mais freqüente e precisam também ser harmonizados em si e ao redor.
Turquesa: Sexo, amor, desejo, libido se expandem para todos os seres, consciência cósmica de que todas as relações são emanações do espírito. Relacionamento a partir de todos os chacras e corpos físico, sutil e causal. Sensível, aberto a todos os fluxos de energia interno e externo, sem identificação mais com os jogos verbais do ego. Se orienta pela posição no fluxo de energia do momento.
Estados
Podemos dizer que o amor é em si um estado alterado de consciência. E com certeza pode impulsionar o nosso crescimento, aprendemos muito mais fácil e nos abrimos muito mais quando experimentamos amor.
Aqui, vale lembrar a distinção básica de Eros e Ágape, um amor que sobe e nos eleva e outro que nos faz baixar e nos aproxima da diversidade. São expressões amorosas complementares e correspondem a estados de consciência também complementares.
Linhas
10 anos atrás quando surgiu o termo inteligência emocional, ficou claro que por mais inteligente e brilhante cognitivamente que alguém pudesse ser, não necessariamente, ele seria moralmente ou emocionalmente desenvolvido.
A idéia de uma linha de desenvolvimento no relacionamento é que de fato, relacionar-se é algo que se aprende e como tudo que se aprende fica melhor se existir um ambiente que facilite o aprendizado ou bons professores.
Assim, capacidades interpessoais também precisam ser desenvolvidas que incluem capacidades de empatia, comunicação, escuta, diálogo, flexibilidade, tolerância, tudo que se aprender para facilitar o contato, capacidades de consciência corporal, corporais, sensoriais também podem ser incluídas aqui.
Goleman destaca alguns aspectos importantes da inteligência emocional
1- Habilidade de identificar seus próprios estados emocionais e entender a ligação entre emoções, pensamentos e ações.
2- Capacidade de administrar os próprios estados emocionais – controlar emoções ou mudar estados de emoções destrutivas para estados mais adequados.
3- Habilidade de ativar estados emocionais à vontade associados com o desejo e a capacidade de realização, ou seja, usar as emoções a seu favor.
4- Capacidade de perceber e ser sensível à influência das emoções dos outros.
5- Capacidade de entrar e sustentar relacionamentos interpessoais.
Tipos
Os tipos básicos são o masculino e feminino e entender essa dinâmica é fundamental num relacionamento. Leia o meu artigo sobre yin-yang masculino-femino.
Além disso, existem tipologias mais complexas com o eneagrama. Basicamente, temos estilos ou personalidades, independente do estado ou estágio que estivermos de desenvolvimento. Essa personalidade ou esse caráter pode estar mais ou menos encaixado na sua relação, mais ou menos fixado.
Uma boa forma de estudar tipos também são símbolos astrológicos.
De qualquer forma, tipologia é um estudo horizontal importante que afeta as relações.
Polaridade, gênero, masculino e feminino
Cada nível ou corpo, do grosseiro ao mais sutil, pode apresentar polaridades diferentes, assim a fluidez entre identificações masculino e feminino também. Em níveis mais profundos, podemos realizar um casamento interior descrito nas tradições alquímicas de todo o mundo. Essa hiero gamos, essa união de opostos psíquica aparece também na leitura de Jung relacionada aos estados transpessoais de consciência.
Sombra e relacionamento
Relacionamento é espaço privilegiado para emergência de conteúdo reprimido e sombrio. Quase sempre culpamos o outro por nossas misérias e a tarefa básica da terapia de qualquer tipo é o lembrar que só você é responsável por seu estado psíquico.
Mesmo assim, relacionamentos anteriores, outras relações simultâneas, relações familiares e os diversos papéis desenvolvidos numa relação podem ser expressão de conteúdos reprimidos.
O trabalho sobre a sombra, seja em auto-análise bem como com um terapeuta, é fundamental.
Paradoxos existenciais
Vida e morte
- sexo e relacionamentos aumentam minha alegria e vitalidade num corpo que vai inevitavelmente envelhecer e morrer
- assim no meu coração eu digo silenciosamente sim para a morte
- enquanto eu afirmo com alegria a vida com todo meu ser
Dedicação ao outro
- radicalmente não existe “outro”
- não existe ser separado do espírito que eu possa servir ou libertar
- assim eu me dedico a libertar e servir todos os seres
Compromisso e desapego
- eu me comprometo profundamente com o outro na relação e na prática
- eu me desapego profundamente de todos os resultados e expectativas
Sexo no toque e na cura.
Sexo, geralmente, faz bem à saúde!
Mais que isso, o espaço de intimidade absoluta é normalmente um espaço de cura tremenda, de confissões totais, de abertura infinita. Reich nos lembrou dessa integração da vida que pulsa em nós e da atividade sexual. Corpo, mente e espírito se curam numa aliança amorosa profunda, não há muito mais o que dizer.
“Re-creação” “co-criação” e “procriação”
Acho que essas palavras falam por si só.
Tocando a face de Deus.
Recentemente na tradição cristã, Maria Madalena foi trazida a cena. Felizmente! Embora ainda vivamos essa dicotomia entre religiões pagãs que celebram a vida e religiões transcendentais que celebram o espírito, eu confio no “enlaçador de mundos”, no pontífice, naquela que consegue fazer uma ponte entre o céu e a terra, nessa condição humana de desfrutar de todo o espectro da consciência. De estar ao mesmo tempo na terra e no céu. De ser invejado pelos anjos, de poder se libertar. Só num corpo humano nós temos todas essas possibilidades. E ser completamente humano é mergulhar nas profundidades e nas altitudes e todo o espectro da vida em todas as cores da espiral e todo o arco-íris dos chacras em todos os vasos maravilhosos.
Somos um nó de relações, somos o cuidado em forma humana, somos nascidos do outro para o completamente outro. O mundo já estava aqui quando eu me percebi aos dois ou três anos de idade, mas eu talvez estivesse antes do mundo existir e continuarei além dele. Somos assim, puro espírito, mergulhados nesse caldo de sensações bioquímicas, energéticas, espirituais.
Somos o mistério profundo e tremendo de nós mesmos. Quem sou Eu? Quem sou Eu? Quem sou Eu?
Assim, vemos em parte, mas um dia veremos face a face.
Que seja cada um que chega ao seu caminho, uma face do divino. E cada sorriso ou lágrima uma brincadeira de Deus.
No mais, boa viagem! Você chegou aqui sozinho e vai sair sozinho, mas pode aproveitar a caminhada em boas companhias.
ps. Em tempo, eu sei que fiquei devendo aprofundar esses tópicos, mas é só um blog, quero mesmo ouvir as opinões de vocês sobre o tema.
Alimentação Viva – Germinando Vida
25/09/09
A primeira vez que ouvi falar da alimentação viva foi com uma das pessoas hoje facilitadoras do processo lá do Terrapia, já são aproximadamente 10 anos, ela é uma das pioneiras e eu na época era vegetariano. No tempo que convivi com o pessoal do Sitio do Bicho Solto, um projeto de agroecologia em Teresópolis onde bebia suco verde todos os dias. Uma delícia!

Hoje em dia, em busca de uma alimentação integral, incluo vitaminas e suplementos protéicos na minha dieta, mas percebo os grandes benefícios de todos os dias, beber um suco verde em jejum pela manha, brotos e outros germinados também são maravilhosos. Em geral, o dia começa muito melhor!
Pela medicina chinesa, comer raízes e grãos é fundamental. Eu mesmo voltei a consumir carne anos atrás por perceber que só me alimentando de alimentos crus e “vivos” acabava acentuando meu vazio no meridiano do baço que na medicina chinesa tem a função de distribuir o qi (energia) dos alimentos pelo corpo. Mas apesar disso, nas pessoas que seguem a alimentação viva eu não percebo qualquer sinal de humidade ou de deficiência de baço, isso me impressiona muito.
Mesmo assim tanto a medicina chinesa como hoje em dia a maior parte das pessoas orientadas para alimentação percebem que consumir derivados de leite pode ser tornar um problema, bem como o consumo de açúcar, farinha branca e tantos outros elementos que certamente não nos fazem bem.
Mas, começando devagar, quero propor aos que lêem meu blog que experimentem fazer um suco verde. Vejam por exemplo uma matéria sobre alimentação que mostra as oficinas do Terrapia na Fiocruz aqui no Rio.
Para fazer o suco verde, é muito simples:
Lave duas ou três maçãs por pessoa, pique e bata no liquidificador com casca mas sem as sementes.
Você pode bater aos poucos e usar um pepino para ajudar a empurrar os pedaços de maçã.
Depois num voal você côa o suco de maçã separando o bagaço.
O suco de maçã é então batido com folhas de todo gênero: couve, rúcula, hortelã, salsinha, folha de brócolis e outros.
Bata em seguida com um punhado de grãos germinados que podem ser: trigo, lentilha, girassol , e outros.
A idéia de germinar é simples, deixe na água 24h e depois lave algumas vezes até aparecer um “nariz” branco na semente.
O suco é uma delícia e dá onda! Beber suco verde todos os dias muda a sua vida, sua relação com o alimento e causa uma enorme alegria intestinal. Limpa e fortalece o sangue e libera os desequilíbrios do fígado.
Eu tenho feito o suco verde, aliás, vou fazer um agora mesmo. Se você é de Niterói, entre em contato, pois indico uma nutricionista que pode te ajudar a incluir pratos da alimentação viva na sua dieta.
O suco pra quem entende, feito assim tem toda a combinação certa para enquilibrar seu intestino deixando as bactérias boas em ótimo estado e ajudando a trazer saúde e plenitude pra sua vida!
VIVA A ALIMENTAÇÃO VIVA!
Tantra e a Arte do Encontro e da Alquimia com ou Outro
22/09/09
Sexo é uma dos aspectos da vida mais mostrados na TV, bancas de jornais, internet. A prioridade humana com relação ao sexo é enorme mas poucos conseguem ter prazer com isso, ou pelo menos fazer dessa relação íntima à dois, ou três, ou seja lá com quantos, se dê de forma saudável e se converta em alegria, saúde e energia em todos os outros aspectos da vida.

Freud foi realmente genial ao colocar a libido ou a pulsão que é normalmente sexual no centro da vida psíquica e na constituição do sujeito. Os símbolos, como Jung os descreve, sendo aglutinações de energias psíquicas que tratam do sexo, também são muito presentes em sonhos e nas religiões do mundo. De fato, dificilmente vamos além das nossas fixações eróticas originais e é bem conhecido todos os tipos de doenças e distúrbios psíquicos que podem surgir deste movimento da energia ou da libido pelo corpo em desenvolvimento. Nesse sentido, a psicanálise e, por exemplo, a terapia reichiana tem uma contribuição importantíssima para nos oferecer.
Ainda no ocidente, eu poderia lembrar que no cristianismo, por exemplo, o sexo está cheio de tabus e que os papeis arquetípicos da mulher na bíblia é em geral de mães “virgens” ou prostitutas. Não há um papel central para a mulher no movimento das energias sutis e sexuais como na tradição tântrica, tanto taoísta, budista ou védica. Mas ainda há um longo caminho para que tanto homem quanto mulheres encontrem uma relação harmoniosa e verdadeiramente saudável.
Em geral, sexo desgasta energia e desorienta a vida, é um fato. Na medicina chinesa e na alquimia em geral sexo pode causar doenças se praticado em excesso e os níveis de doenças associadas ao sexo também são muitas.
Ao buscar uma vida integral e integrada, a sexualidade e essa relação radicalmente intima entre duas pessoas precisa também ser considerara, mas como resgatar as tradições orientais que desenvolveram essas artes de amar sem que isso se torne mais um fetiche?

Textos como o Kama Sutra ou Rig Veda ou até mesmo o Yoga Sutra de Patanjali trazem descrições dessa arte de intimidade radical não apenas como algo muito positivo que nos “descarrega” tensões, mas fundamentalmente algo que pode nos conduzir ao êxtase, à transformação do fogo em luz da consciência, à evolução.
Na alquimia taoísta os canais de energia envolvidos na relação sexual, nos órgãos sexuais, Lingam e Yoni como chamam os tantristas é fundamental, claro que vez ou outra todos praticamos tantra. Tantra no sentido de que todos temos uma relação cuidadosa e total, em que o tempo de contato de trocas de energias de palavras de carícias é tão importante como o ato em si e o prazer da relação dos olhares da energia que circula entre hormônios e músculos entre suor, cheior e sabores, tudo isso, pode ser uma forma de cultivo integral, quero dizer tanto do corpo físico , sutil ou causal. Sim é possível amar em todos esses níveis e nem sempre os papeis masculinos e femininos estão harmonizados em todos esses níveis.

Energeticamente, temos no ocidente principalmente, uma busca de religiosidade e filosófica vertical e ascendente. Para ter uma idéia, o próprio Freud parou de ter relações sexuais aos 35 anos para se dedicar a escrever. Seu sintoma compulssivo que o fazia escrever mais de 30 laudas diariamente e “Cada orgasmo era um livro que se perdia” .
Ou seja, a busca o uno, o pai, o criador o divino acima de nós, ou mesmo os pensamentos mais abstratos se opõe a tudo que é mundano, tudo que faz descer a energia que passa a ser considerado negativo. O movimento ascendente se traduz, no corpo sutil, pela subida da energia pela coluna, pelos chacras e pelos diversos níveis de consciência. Em alquimia taoísta e ayurveda essas práticas também são enfatizadas como modos de realização espiritual.
O que nos falta é mesmo aprender a ascender e descender essa energia. No caminho para a baixo ao invés do uno se encontra a pluralidade de todas as manifestações sensações, emoções e pensamentos é o caminho em direção à Terra, ao alimento ao corpo com saúde e alegria. Talvez encontremos no caminho uma sexualidade polimórfica, uma capacidade de sentir prazer em todos os poros do corpo, alegria, êxtase em cada toque seja possível e não apenas pelo prazer em si mas porque implica numa vitalidade que se transmite para todas as outras áreas de vida, enfim, sexualidade e vida integral.
Outra relação vertical importante que se estabelece são as imagens arquetípicas de Grande Pai, Shiva e de Grande Mãe, Shakti, de Céu e Terra, de Urano e Gaia que divide o pensamento e as práticas espirituais em geral. Mas podemos também estabelecer relações horizontais entre essas polaridades, e até mesmo internamente como já escrevi aqui no artigo sobre Yin e Yang, e também na relação intima amorosa e sexual.

Como psicólogo, o que mais escuto na prática clínica são queixas sobre problemas na relação. As pessoas se dizem capturadas e não mais “cativadas”, se sentem prisioneiras e claro, níveis muito sutis de justificar e buscar uma causa pra essa situação, todo tipo de “encaixe” neurótico se estabelecem.
Basicamente, neurose se estabelece quando você para de falar a verdade para você mesmo sobre você mesmo, quando você mente pra si sem saber que está mentido. O sintoma que convoca a escuta é perceber a consequencias numa vida que perde a alegria e a graça de viver. Assim, o sentido mais simples da terapia seria encontrar o caminho da sua verdade ou como queiram, do seu desejo. Numa para a relação, encontrar como podemos fazer com o outro uma dança, uma dança que fica mais e mais bonita quando um sabe perceber a maestria com que homens e mulheres desempenhando papeis diferentes podem se harmonizar.
O mesmo se dá com relação ao sexo e aos relacionamentos, podemos ser muito desenvolvidos na nossa relação conosco mesmo, na nossa relação com nosso próprio ego, podemos ser até muito bons na relação com o divino transcendental, mas conseguir desenvolver maestria no campo dos relacionamentos íntimos parece ser uma dificuldade generalizada. Não temos ainda uma forma saudável e aceitável de viver a maravilha que é uma relação que inclua todas as outras dimensões na intimidade do amor e do sexo.
Assim, confio que é possível, se você já tem uma relação amorosa, inclua essa dimensão alquímica e transformadora e poderosa das práticas Tântricas. Faça sexo com o corpo, mas também com todos os outros corpos, com as emoções, com os pensamentos, com suas energias e até mesmo com a dimensão causal ou não-dual, ou seja um enamoramento radical da subjetividade com o objetividade e vice-versa.
Na relação somos assim: sujeito-objeto/objeto-sujeito/ sujeito-sujeito/ objeto-objeto/ Sujeito (8) subjetividade infinita……..~
Quem ama quando dois seres humanos se encontram senão a natureza que se encontra, o divino que se enamora. Tão comum é relacionarmos as imagens de Deus como uma relação amorosa, mas não conseguimos fazer o inverso, trazer o divino para a relação amorosa.

Certa vez perguntei a uma amante: como é ser vista como uma Deusa? Ela respondeu que era muito bom enquanto eu ria e chorava de êxtase. Ela me perguntou se eu sentia dor e lhe expliquei que era amor demais, mais do que eu conseguia suportar.
Se há amor demais, mais do que consegue suportar, distribua, sorria, cuide, faça comida, escreva textos, cuide da casa do corpo da mente e do espírito e esteja engajado tanto no céu quanto na terra, tanto com o sol como com a lua, tanto com yin quanto com o yang.
Tantra radicalmente quer dizer engajar-se com o mundo, perceber que Samsara é Nirvana e que Nirvana é Samsara que o uno e a diversidade são o mesmo.
Mas como tudo na vida demanda prática, então boa prática!
Bhakti e Ananda – A Devoção Amorosa e a Bem-Aventurança
20/09/09
Meu primeiro contato com Bhakti (ou prática devocional) foi nos Estados Unidos. Morei lá e vivenciei na juventude o movimento gospel americano quando cantávamos todos os dias pela manhã cantigas de devoção e doçuras divinas, de bem-aventurança, de êxtase perante o divino. Jesus era o grande mestre, rei dos reis, a imagem de amor de alegria de perdão, de brilho e transbordamento e na juventude foi uma grande converssão.
Atualmente, eu faço uma prática diferente dessa prática devocional. Tenho feito práticas de meditação budista, especialmente zen e budismo tibetano, tenho feito práticas em busca da não-dualidade, de um sujeito sem objeto, de um sujeito que nega os objetos para encontrar o espaço infinito onde tudo emerge que é o próprio espírito.
Assim, nessa perspectiva, eu-eu, essa busca interna que na India se expressa na tradição de Shankara divide muitos caminhos filosóficos que tento sintetizar aqui. Pois não se trata de uma prática teísta a prática meditativa, e se há de alguém descobrir Deus, esse Deus, esse “D+eus” somos nós mesmos, além de qualquer identificação.
Do outro lado, temos o Gita com a doçura e misericórdia de Krishna, na luz dourada de Goranga, na personificação do amor que acolhe toda a sombra e mergulha tudo no seu êxtase divino de primores, formosuras e ananda.
Essa última relação com o Divino é uma relação Eu-Tu, onde somos convidados a estabelecer uma relação amorosa com o divino. Tal como na tradição cristã, onde Teresa d´Avila nos fala da possibilidade de estabelecermos um casamento. Onde o mais nobre quarto das suas moradas, do seu castelo interior é o quarto de núpcias, onde nos encontramos numa relação amorosa de abertura para o outro para o Bem-amado.

Infelizmente nas tradições os que estabelecem uma relação eu-tu com Deus são considerados ilusórios e projetivos. Diz o ditado zen: ” se você encontrar Buda no seu caminho, mate-o”, para que possa nascer dentro de você. Então se uma presença luminosa de Deus chega à sua consciência ela deve ser desidentificada, “assassinada”, para que nasça dentro de você. Assim na índia o caminho budista é considerado um caminho ateísta. E de certa forma é verdade também, relatvia, mas também verdade.
Assim, como aprendi que está todo mundo certo eu tento integrar essas dimensões o que quase me leva a loucura, mas eu sou teimoso! Pois para alguém estar totalmente errado é preciso estar muito certo.
Voltando a falar de Bhakti, meu segundo grande encontro devocional foi com os discípulos de Sai Baba, cantávamos bajans, às vezes por 24h e era um tremendo êxtase, cantava e tocava violão e tabla. As práticas devocionais desse período foram as que tiveram o maior impacto na minha vida, foi o momento que mais me transformei, ou seja nessa relação devocional com o o Divino e suas personificações, tinha uns 18 anos nessa época.
Percebidas essas diferenças, eu confio e sinto profundamente no meu coração e na minha sabedoria que o caminho da meditação, eu-eu. e o caminho de bhakti. eu-tu. são complementares. São formas de estabelecer relação (real-ação) com o divino.
Ontem, estive no Templo de Gora Nitai em Teresópolis. Ao chegar lá para surpresa encontrai um grupo de niteroienses que visitava. Eu me sentei e praticando minha meditação de abrir espaço tentei manter a alegria e o desapego de sempre na tal prática budista. Mas depois de muitas histórias e de prática de Yoga depois do Satsang, abriram-se as cortinas das Deidades e começaram os kirtans (cânticos devocionais).

Goranga se manifestou então na sua qualidade mais pura, é uma manifestação da divindade na sua forma mais abrangente, mais amorosa, mais misericordiosa, na sua radiância dourada em todas as direções convidando a todos para ser acolhido nesse amor. Claro que mesmo se eu fosse um grande poeta não poderia descrever a luz e a alegria desse encontro.
Aos poucos a energia do pequeno templo, comparado com seu vizinho Vrajabuhmi inundou meu coração. Lágrimas correram e desceram pela minha face e também pela minha alma.
Correntes em espirais de Ananda subiram pelo meu corpo enquanto era tomado de êxtase nos mantrans entoados com tanta devoção.

Depois do grupo de Niterói se despedir, tomei um banho como no rio (Ganges) inundado daquele amor e êxtase, inundado de incertezas perante esse caminho devocional que andava esquecido nas minhas práticas supliquei pelo divino em minha vida. Em seguida coloquei-me a conversar com o “Guru” (literalmente aquele que te leva das trevas para a luz) e recebi naqueles instantes a transmissão silenciosa de várias sínteses. Do budismo zen ao cristianismo sob a luz abrangente da tradição Vaishnava. Do mistério da trindade e a filiação, dessa posição de filho de Deus, dessa posição de devoto de Deus dessa posição “di-amante” de Deus.
A noite se seguiu com tantas conversas maravilhosas que meu corpo ardia de energias que mal consegui dormir. Ao acordar fiz uma mini=saudação ao sol enquanto ele nascia e fomos filmar um vídeo de Yoga na fazenda Vrajabumi para compor as práticas integrais do instituto multiversidade. Não sou um praticante de Yoga ou iniciado ou religioso de toda sorte. Mas percebo os benefícios da prática apoiada na sua tradição e de como querendo construir uma formação para que as pessoas encontrem seu Sadahna, seu caminho de práticas, é importante essa aliança com uma linhagem de transmissão de conhecimento espiritual.
Em Vrajabumi o ambiente é maravilhoso, o templo lindíssimo, e a adoração dos Devotos, as prostrações as oferendas e leitura do Gita, A MARAVILHOSA PRASADA dos “Hare Krishna” e muito amor que o ar e os alimentos irradiavam luz.
Bem, o que eu quero deixar aqui registrado nesse blog é que pra mim, redescobrir a alegria dessa relação amorosa com Deus é tão especial, sinto um alívio tão grande, uma confiança tão grande na vida, nas pessoas e um amor transbordante por todos que me cercam. Espero ter podido convocar um pouco dessa relação amorosa contigo.
Assim, Bhakti e Ananda, a entrega ao outro e as graças recebidas são assim, amor irradiante em todas as direções. Hoje disse para uma amiga, estou enamorado e em seguida esclareci que era por Krishna.
Eu resumo, se encontrar Deus na sua frente, mate-o, para que ele possa nascer dentro de você. E mais importante, se encontrar deus dentro de você e não suportar, projete-o para fora, e estabeleça com ele uma relação amorosa. O universo inteiro vai se converter em Ananda.
Dedicado a Gopinata Prabu todos os meus agradecimentos por esse final de semana muito auspicioso. E os presente de poder estar junto durante essa celebração.
E ao mundo” verde-amarelo” depois de tantas conversas sobre a dinâmica da espiral.
Yin e Yang – Feminino Masculino – Homem Mulher
18/09/09

Na china antiga, os sábios desenvolveram entre tantas teorias uma que até hoje é considerada fundamental na dinâmica de vida humana, seja na relação consigo mesmo, com o outro ou com o céu e a terra, como se referiam os clássicos de filosofia e medicina chinesa.
Quando me refiro ao masculino e feminino, enquanto tipos, quero indicar a dimensão que tanto mulheres como homens podem apresentar.
Yin Yang tampouco se refere ao aspecto masculino feminino apenas, mas a todas as relações de expansão e contração do universo, ao movimento das energias ascendentes, yang e descendentes yin.
Posto isso gostaria de estabelecer algumas analogias:

Diz o clássico da medicina chinesa: O Yin nutre o Yang e o Yang protege o Yin.
No precioso corpo humano, nosso veículo de manifestação do espírito, yin yang se expressão em funções e formas de órgãos e vísceras e os meridianos yang percorrem as costas, protegendo a parte interna que guarda os órgãos mais sensíveis percorridos pelos meridianos yin.
Com relação aos estilos de práticas espirituais, os estilos masculino e feminino também são diferentes. Homens consideram avançar na prática pela sua capacidade de aprofundar e permanecer presente e enraizado, numa expressão mais vertical. Mulheres consideram avançar na prática pela sua capacidade de estabelecer relações de “tecer redes” de cultivar a disposição de encontro e serviço amoroso. Mas podemos lembrar que tanto um quanto outro aspectos são comumente desenvolvidos tanto por homens quanto mulheres, meditação e serviço são aspectos para ambos praticar.
No campo das ciências da cognição existem evidências de que mulheres tendem a preferir homens com ombros largos pois isso indicaria uma capacidade do eleito de protegê-las enquanto homens tendem ainda são atraídos por uma mulher capaz de nutri-lo tanto organicamente quanto afetivamente.
No campo do comportamento social homens tendem a ser mais expansivos, buscando muito mais parceiros enquanto mulheres tendem a cultivar menos afetos. Uma explicação evolutiva seria a capacidade de escolher um homem que possa protegê-la, bem como a sua prole. Esse dado se evidencia inclusive em casamentos homosexuais em ambos os sexos.
Não reconhecer essa diferenças de estilos gera muita frustração e ainda estamos por reinventar novos estilos de convívio ao passo que os aspectos masculinos e femininos, yang e yin se tornam mais integrados tanto na relação do sujeito consigo mesmo , quando na relação afetiva e sexual com o outro.

Assim, um aspecto yang, masculino saudável, tente para autonomia, força, independência e liberdade. Um principio yin, feminino saudável, tende para deixar fluir, com ênfase nos relacionamentos, no cuidado e na compaixão.
Feitas as leituras em todos as perspectivas, considerando a subjetividade a intersubjestividade, a relação com objetos sinculares e culturais gostaria de concluir lembrando que na sabedoria da medicina chinesa e no equilibrio dos afetos que redescobrimos no dia-a-dia, o yin e o yang, masculino e o feminino, homens e mulheres em harmonia se nutrem e protegem mutuamente.
Podemos expandir isso para nossas práticas diárias, como os aspectos e estilos estão integrados na minha vida, nos meus afetos e principalmente na minha relação com o universo.
O aspecto masculino e feminino estão presentes em ambos os sexos e há aqueles que manifestam e se tornam especialistas em um ou outro, podemos também buscar uma visão mais integral, como podemos cultivar um aspecto mais masculino ou mais feminino em nossa vida para alcançar a “serena alegria de viver”?
Mário Fialho é psicólogo clínico especialista em medicina chinesa.
Um pássaro a mais no céu
31/08/09

Começo esse relato que talvez se some a outros tantos relatos sobre terapia com um dedicado ao fim da terapia.
Terapia, o processo de acompanhar numa tentativa insistente de se manter ao mesmo tempo atento e desperto, lúcido e envolvido, paciente e cuidadoso para com o florescer de um outro ser humano.
Carl Roger, um mestre da dimensão do encontro, certa vez, ao começar uma demonstração do seu processo terapêutico, se voltou aos que o assistiam e disse: Eu não sou perfeito, não sei tudo, não tenho todas as respostas mas sou um ser humano, e assim, posso compreender tudo que esse outro me traz, e por isso, sou bastante.
O que nos convoca na clínica é nos mantermos fiel a nossa humanidade. Daí toda uma terapia humanista, que hoje anda fora de moda, mas que fincou raízes firmes em muitas abordagens praticadas hoje. Somos seres humanos, nascidos para o encontro, nascidos desse espaço da relação, entre eu e o outro. Conjugamos verbos e julgamos sujeitos, nos sujeitamos, nos convertamos objetos, pretéritos, futuros e raramente PRESENTES. Mas, apesar de nossas precárias expressões gramaticais, existe o silêncio, e neste silêncio emerge muito sentido.
Sou um bom terapeuta quando me permito abertura e silêncio. Quando entro para um atendimento, como foi esse último, depois de uma conversa apressada ao celular, sinto que preciso de um tempo, para chegar ao que chamarei aqui de “estado da clínica”. Talvez eu escreva aqui algum texto sobre isso um dia.
Hoje, um companheiro evolutivo (o nome que peguei emprestado do Roberto Crema que me convocou a me tornar terapeuta) me trouxe por escrito os relatos de umas visões que teve na nossa última sessão. Era um belo relato bem escrito e sintetizava sua experiência clínica. Todos os elementos das suas escolhas existenciais mais profundas estavam ali. No momento percebi como estavam bem escolhidas e como estabeleciam, o aspécto masculino da imagem e feminino uma dialética simbólica de complementação e de integração.
Em seguida veio um sonho. Um sonho com uma chave dentro de uma gaiola aberta. A imagem profunda, tipicamente onírica, cheia de símbolos que retornei a ele convocando uma interpretação e lhe convidei a reclinar-se para explorar um pouco as emergências inconsciêntes.
O que retornou foi o primeiro tema que lhe veio quando começamos a terapia, uma experiência da infância, que ameaçou novamente por sua intensidade – mas, diferente da primeira vez que emergiu no espaço clínico – desta vez, foi evocada e integrada, parecia ter perdido sua força. Me tocou essa repetição da primeira imagem, nessa que foi, senão o fim da terapia, um retorno ao princípio que muitas vezes é também um fim, um fechamento de uma gestalt na bela linguagem de Fritz Perls.
Se seguiram alguns relatos e ao final eu escutei. Eu estou me sentindo bem, havia uma falta de engajamento, já lhe tinha perguntado, por que proseguir na terapia e a resposta surgira mais como uma aposta, talvez porque se tinhamos avançado até ali, por que não prosseguir. Mas, tal como um jardineiro, o terapeuta não sabe o tempo de cada florada, pode cuidar do solo, preparar um terreno fétil, mas não pode exigir que todos dêem frutos ao mesmo tempo. O tempo pertence ao paciente, sempre!
Ele me perguntou ao final da sessão, se deveria vir de quinzenalmente e eu feliz concordei prontamente.
Porém, durante todo seu processo, enquanto ele fazia seus relatos e esperava em silêncio o efeito das agulhas de acupuntura que utilizo após as sessões de terapia a imagem da gaiola aberta com uma chave dentro me intrigaram.
Mas ele mesmo me deu a pista. Disse que se lembrou da história que contara na sessão anterior.
A história é a de um Rei, que recebeu uma triste notícia, uma professia de que um grande mal iria cair sobre seu reino e sobre sua vida. Ele logo se apressou em se proteger, construiu uma enorme fortaleza. Fortificou as paredes, colocou guardas em toda parte. Até que desconfiado dos guardas e de sua segurança, expulsou a todos e fechou as portas guardando a chave no bolso.
A moral da história é que o Rei, para sair da sua condição existencial de prisão, precisa lembrar que a chave está no seu próprio bolso.
A síntese veio então nesse sonho, da chave que está dentro da gaiola. Até aí, tudo bem, estranho, mas afinal, porque um pássaro livre levaria consigo a chave de uma gaiola?
Assim, essa síntese, me convoca não apenas a esparçar os atendimentos, mas dar alta ao paciente. Alta no sentido da altitude alcançada, da síntese cheia de sincronicidades, pois num dos relatos anteriores, ao final ele via uma pipa no céu, esse mesmo símbolo de liberdade.
A terapia é o processo de abrir nossas gaiolas com as chaves que estão lá dentro mesmo. O proceso de nos fazer soltar nossas pipas, sem medo, experimentar o céu, o vôo a liberdade e se sentir seguro e confiante para seguir viagem sozinho.
Claro que a viagem é infinita e podemos ir até a iluminação ou a realização e atualização do nosso potencial, é o caminho de todos, mais cedo ou mais tarde, nos ensina a tradição budista, nascemos para a beatitude bem-aventurada.
Mas para nós, terapeutas, nossos companheiros evolutivos escolhem sempre até aonde querem a nossa companhia, porque o final da terapia é como um princípio, um passo para a jornada do viver, superando o sofrimento e se abrindo para voar para fora das nossas gaiolas existenciais.
A Emergência da Clínica do Ser e Clínica da emergência do Ser
31/08/09
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Podemos resgatar o sentido etimológico de clínica, como posição daquele que se inclina perante o outro, mas acrescentamos aqui um inclinar-se para olhar com “um olhar mais nítido”, tanto para o mundo objetivo dos entes e das coisas, quanto um olhar com um “pasmo essencial” do homem diante do Ser. Reconhecemos estas possibilidades duplas no olhar, o atento e o desatento, o que se inclina e o que desvia o olhar, o que busca a objetividade do olhar que faz do outro sempre objeto e o da abertura essencial para o reencontro e desvelamento do Ser.
Acrescento a essa noção que se inclina sobre si mesma e sobre o outro uma dimensão emergencial. Chamaremos uma clínica da emergência, numa dupla acepção da palavra. Emergência enquanto urgência e emergência como ato ou efeito de emergir e, no caso, dar emergência ao ser.
Como observador com a lucidez poética em busca de “reparar que nascemos deveras” podemos dar nascimento ou facilitar a emergência de novos sentidos em todo lugar. Esta clínica de resgate do “pasmo essencial”, do encontro com a verdade desvelada ou aleitéia, segundo Heidegger, pode nos ensinar e sustentar um olhar mais generoso da dimensão clínica enquanto espaço facilitador da emergência do ser, ou melhor dizendo, emergência para o ser. Pouco importa a preposição com a qual nos aproximamos do essencial, pois de todas as posições é possível vislumbrar o ser-ai. Podemos mirar, “olhando para esquerda ou para a direita”, pouco importa, o Dasein não pergunta pelo Ser, mas é a própria pergunta pelo Ser para qual nós somos a resposta.
Encontramos o ser onde nosso olhar se encontra com o mundo. Um olhar “nítido como um girassol” que segue o sol no caminho pelo céu da existência, dos nascimentos, às mortes. Heidegger percebeu que há uma clareira, uma radiância própria da experiência do ser, uma nitidez como preferiu o poeta.
Mas como compreender isso? Talvez a via da intuição imeditata seja o caminho oferecido pela abordagem fenomenológica. Os caminhos do poeta e dos seus versos nos apontam também no mesmo sentido que ainda precisamos percorrer com nosso olhar, este olhar em busca do ser, podemos chamar de um olhar verdadeiramente clínico. Não por que traga consigo a verdade, mas porque não traz uma resposta, mas segue a pergunta no caminho de desvelamento dos sentidos. Essa aletheia, esse desvelamento do mundo, nos remove da letargia e nos coloca de pé perante as coisas como um “pastor do ser” como indica a imagem heideggeriana. Por isso, Ser, em Heidegger, é realidade que se identifica com o mistério. O Ser está a todo momento em estado de velar e des-velar. O Ser é justamente aquilo que se velando se des-vela, e se des-velando se vela, eis a clínica.
Estamos então, perante um mundo em contínua emergência. E contínua ameaça de obscurecimento, de esquecimento do ser, de alienação de si mesmo. Somos lançados a uma outra urgência nos acontecimentos atuais, seja uma ameaça ecológica e guerras, seja uma insustentável perda de sentido e angústia, explodindo em violência. E que pode a clínica perante estes envios históricos? Decorre uma ética desta visão clínica?
Em última análise, produzimos com a técnociência, e a neurose de progresso nossa principal ameaça. Somos nós, a forma de todo o pânico. Não apenas como psicólogos somos convocados por essa emergência, mas somos todos em essência convocados por nós mesmos. Por saber que como o ser do homem não se mostra na materialidade dos laudos médicos, ou nas imagens dos telejornais, então resta aos psicólogos deixar espaço para a escuta amplificada de abertura do homem no seu próprio Ser no horizonte e no tempo da clínica.
Falamos de emergência do mundo não como representações, das imagens de dor e sofrimento em toda parte, mas antes da “presentação” do fenômeno que testemunhamos, este é o sentido da verdade na clínica, não se trata de rememorarmos dados, mas de estar atento a quem nos bate a porta.
Apesar dos fenômenos atuais, fontes de terror e pânico, também quem nos bate à porta e podemos trazer à luz é uma outra questão ainda mais grave e emergencial, a da repressão e encobrimento da essência do homem.
Ser em Heidegger é realidade que se identifica com o mistério. O Ser não é conceitual, é necessário ter sensibilidade para perceber a clareira na qual ele se dá, a ausência das trevas no qual ele se mostra e se traduz pelo ente. O ente é o modo no qual o Ser se revela. E o ente primordial é o homem (Da-sein).
O homem, ente por excelência cujo ser é o cuidado. Ao falarmos de essência com Heidegger denotamos o modo histórico em que um ente revela a si mesmo ontologicamente e é entendido como Dasein. Assim, essência deve ser entendida em termos de ex-sistência do Dasain, ou seja, do ser como abertura de sentidos. Essa dimensão essencial, que é reprimida pela educação tecno-científica, que a clínica permite fazer emergir, dar espaço e deixar ser.
Podemos considerar que há assim uma emergência da clínica, como um modo diferente da técnica de se aproximar do essencial do homem. Como um caminho-sentido, abre-se, através da posição existencial que a fenomenologia nos oferece, uma possibilidade de falar do Ser enquanto tal, afastando-se da metafísica. Permitido um amplificação de sentidos, clareando a visão do que seja homem na experiência do devir.
Perdemos nossas raízes e somos levados no ritmo acelerado a viver uma existência sem um sentido. Victor Frank, um grande terapeuta do sentido nos alertava e dizia que toda experiência vale a pena ser sentida deste que tenha um sentido. E exatamente nesta busca de sentido que encontramos o homem e também onde nos encontramos na clínica.
Já no campo majoritário dos analistas, encontramos a afirmação de que o essencial ao homem deriva da natureza e das pulsões, este fechamento de sentido, esta objetivação, pelo qual estamos fadados devido a uma infância e suas tragédias gregas. Daí resta-nos poucos caminhos senão os já definidos pela profética tragédia do Édipo. É preciso lembrar que esta perspectiva estreita é muito pouco.
Outra adulteração do ser, na mesma direção, que nos afasta do mais próprio em nós mesmo, é a deformação gerada pela informação, da técno-ciência. Ela é capaz de nos possuir, reduzindo-nos à condição de objetos, apresentando uma visão parcial e míope.
A ciência é como alguém que persegue a realidade em certas condições experimentais testando a validade das hipóteses que correspondem à suas próprias previsões. Ora, veja que restam poucas possibilidades fora das previsões feitas. Espreme-se a realidade em um canto e se surpreende que dali só possa sair aquilo que estava previsto.
Com isso, não se trata de dizer que a ciência e a técnica sejam ruins, mas lembrar que elas investigam uma parte da realidade e podem em suas perspectivas destorcidas e distantes do olhares do homem nos falar do microuniverso dos quarks e de macrouniverso dos buracos negros, retirando do homem essa posição de mediador de mundos de sacerdote da criação como dizia Meister Eckard ou de pastor do ser como chamou Heidegger. Perdendo a conexão, o enraizamento com sua posição e suas medidas perante o mundo.
Em poucas palavras, podemos dizer que não somos como são as cadeiras que são objetos para a ciência. Mas que mesmo a cadeira, que reune vários predicados, há algo que permanece, há na cadeira um ente, que perdura no tempo, que simplesmente é. É essa intuição ontológica comum a nós que escapa na ciência, pois não se faz objeto no ser do homem. O ser é tão insustentável, é tamanha a insustentável leveza do ser que ao falar dela já estamos “entificando”. Acudo-me do poeta novamente em busca de uma intuição:
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…
Temos então, diante do nosso olhar e para além do pensamento analítico, uma dupla mensagem emergencial que tentaremos superar: de um lado vivemos uma emergência no angustiante momento que atravessamos que nos convoca a uma resposta para estar no mundo de uma forma inclusiva, engajada e comprometida com a realidade. Mas junto desta, resiste uma outra emergência, a emergência do ser na clínica do ser no mundo, que “está no mundo, mas não é do mundo”.
Acolhimento de todas essas possibilidades se traduz em plenitude, em participação, em comunhão, em verdade. Não se trata de perguntar ser ou não ser, mas de ser a reposta desvelada para toda pergunta. Não se trata de dizer a verdade, mas de encarnar esse desvelamento, esta verdade. Eis mais uma noção importante para a clínica.
Mas como abordar a questão do ser, que quando falamos nos afastamos dela, pois não se trata de um conceito, mas antes de uma percepção imediata, uma intuição, não é uma meta a se atingir, ou um modelo ideal a ser alcançado. Podemos, contudo, nos colocar fenomenologicamente a “crer no mundo, não por que o vemos, mas olharmos e estamos de acordo” nas palavras do poeta. Como num mal-me-quer podemos dizer sim e não e deixar estar em serenidade repousando a realidade no lugar onde estamos.
Além disso, podemos superar esse aparente paradoxo e ir além do jogo entre um mal-me-quer e um bem-me-quer. Esse antagonismo, essa ilusão da separatividade, essa falsa escolha que cria oposição entre eu e tu.
A fenomenologia de Hurssel interpretada por Heidegger fez possível pensarmos sobre nossa ontologia, rompendo com a metafísica. Por isso quando falamos de ser, podemos intuir essa resposta. Perceber que diante de nós está o mundo e ele nasce a cada momento perante nossos olhos. O poeta nos fala de ter um coração capaz de acolher todos os sentidos, os paradoxos e as aparentes contradições, no mesmo lugar onde se encontram o eu, o tu e o mundo. A isso Heidegger chamou serenidade, o que Meister Eckerd reconheceu como a maior das virtudes.
Considerando o que expusemos, falemos ainda de clínica. É o “pânico” em suas variantes classificações que nos demandam nos consultórios e nos hospitais. Mas o que podemos escutar à luz da perspectiva fenomenológico-existencial em relação a essa emergência. Primeiramente, podemos ver melhor se antes nos despirmos da técnica. Pouco nos ajuda os rótulos e as categorias patológicas no encontro clínico, ao contrário, pode nos fazer desviar o olhar sob a lente nem sempre adequada ao paciente que chega.
Embora já tenhamos falado que não é o instrumento ou a técnica que é, em si, boa ou má, mas sabemos que mesmo um instrumento justo nas mãos injustas, traz consequências não justas. Por isso a necessidade de preservarmos o referencial do Ser e da abertura de sentidos sempre como ponto de partida e de chegada da atitude fenomenológica-clínica. Condição de possibilidade clínica que está além do terapeuta e do paciente e acontecem apesar da boa ou da má técnica.
Para todos os interessados em terapias, em cuidar, é importante considerar as possibilidades emergenciais da clínica que aponta sempre para o algo mais, para além das explicações psicanalíticas ou modelos comportamentais pré-definidos desta ou daquela escola.
Podemos nos perguntar se haverá outros sentidos, no universo de sentidos humanos. Perguntamos se há para você e para mim, uma possibilidade de abertura e ampliação de sentidos?
Nunca tivemos tantas técnicas de viver, nos afastando do percurso de descobertas de nosso próprio sentido. Nunca tivemos tantas pesquisas e tantos saberes e talvez nunca tenhamos vivido mais alijados de nós mesmos.
Será possível abordarmos essa dupla condição emergencial da clínica de maneira nova? Não se trata de utilizar novas palavras, ou criar uma nova corrente de pensamento. Mas de dar ao pensamento uma fonte de renovação e autenticidade que lhe permita renovar os sentidos das palavras e colocar em suspensão e atenção, desidentificando-se do mundo para assim se aproximar ainda mais da verdade. Como observar a nudez do mundo como se o víssemos a cada momento como diz o poeta? Confio que tanto o poeta, como o filósofo nos falam de um conhecimento imediato, para além da razão, para além das representações. Portanto, prosseguimos com a poesia:
Podemos ficar anos fazendo esta ou aquela terapia, sentados ou não num divã e conseguirmos muitos e muitos pensamentos, alguns até bem sofisticados, a grande maioria apenas repetições. Mas podemos ficar até muito orgulhosos de todas as explicações que temos das causas de todas as coisas. É o que nos promete a ciência, conhecer as causas das coisas como se todas as descobertas já tivessem sido feitas. Quantos profetizaram o fim da história e o fim de todas as grandes descobertas, e quantos ainda encontrarão sentido em afirmar que a maior redescoberta do século XXI será o ser humano. Não o genoma, mas o ser do homem, descoberta da presença do Ser. O essencial do homem não se encontra em um laboratório, mais do que no seu labor e oratório.
Aprendi com a psicanálise que a análise, como o próprio do método analítico se define, pode ser capaz de gerar boas explicações. Mas não pode nos ensinar compaixão, ou a serenidade heideggeriana. Podemos dizer o mesmo sobre viver, sobre morrer, sobre a condição essencial do homem, podemos reconhecer que não sabemos. No sentido etimológico a palavra saber vem de saborear. Talvez ainda não tenhamos saboreado suficientemente nossa humanidade para descobrir que somos habitados pelo ser.
Na sua Introdução à metafísica Martim Heidegger nos ensina sobre o saber: saber, porém, significa: poder manter-se na verdade. Essa é a manifestação do ente. O saber é por conseguinte: poder estar na manifestação do ente, suportá-la. Possuir simples conhecimentos, por mais amplos que sejam, não é saber. Mesmo se tratando de conhecimentos “ligado à vida”.
Pascal, um homem do pensamento lógico e analítico, teve essa mesma intuição sintética, ele dizia em um trecho muito conhecido que “o amor tem razões que a razão desconhece”, mas também dizia, em outro trecho menos conhecido, “o amor está além da razão, mas não está contra”. Aqui, quero trazer e afirmar este segundo, pois não se trata de fazer uma oposição à epistemologia, à racionalidade ou a qualquer técnica analítica. Tratamos sim de compreender o pensamento como representação do mundo, mas ir além dele na condição de inocência, entendida como um não-conhecer. Não conhecer que é a própria condição para que possamos vir a conhecer sem projetar, sem identificar e como diz a poesia, sem pensar. A fenomenologia nos fala da epoché, da suspensão do juízo, que podemos compreender como uma posição ética perante o outro na clínica.
Diferentemente das impressões que nos deixam as palavras nas epistemologias, nas descrições dos experimentos científicos, nas terorias das ciências naturais, essa intuição compartilhada pelo poeta-filósofo e pelo filósofo-poeta, permite uma abertura para o mundo em sua multiplicidade.
Existimos num tempo em que nos parecem mais naturais os dados das ciências que nossa própria experiência de mundo. Somos expatriados de nós mesmos, estrangeiros em nossa própria terra.
Essas formas analíticas mediadas por palavras e fórmulas e modelos da técno-ciência nos oferecem as partes de um mundo que não se completam no quebra-cabeça, acabamos como objetos de uma taxonomia infinita, gerando especialistas, que sabem, cada vez mais, quase tudo sobre quase nada.
Imagine que você vê uma árvore e diz que conhece a floresta, como se fosse possível descrever a sensação de andar de carro estudando as partes de sua mecânica. Há muito mais em conhecer do que nos oferece a ciência e é uma mensagem importante no pensamento de Heidegger.
É preciso relembrar-nos, sob risco de um fascínio hipnótico que as técnicas exercem sobre nós, que há mais no mundo, mais entre o céu e a terra do que sonha a ciência. Mesmo porque, ciência, como objeto, cientificamente falando, não sonha.
Assim, seres de sonhos, colocados entre o céu e a terra, podemos nos colocar de pé e nos fazer humanos capazes de aletheia, dessa verdade. Pois encarnamos um projeto finito, de infinitas possibilidades. Assim vamos retomar os sonhos e sentidos do mundo como próprios do homem e não buscá-los fora de nós. As técnicas não têm as respostas, pois não se trata de ter respostas, mas de ser a resposta.
Mas seguimos reduzindo o mundo à condição de um objeto, e estamos, nesta visão, incluídos nessa classificação: homo Sapiens Sapiens. Porém, há, um outro sapiens, uma outra forma de “saber” no mundo, essa que intuimos ao nascermos, pois o mundo nasce no instante mesmo que nascemos para o o mundo e o mundo nasce para nós. Antes de ser povoados pelos entes que conhecemos, antes de dar nomes ao mundo, já havia o mundo onde todo encontro é possível, o palco do teatro da existência.
Este mundo em emergência, cujo sentido emergencial está presente no texto heidegeriano quando resgata o sentido grego physis, que significa esse “surgir emergente, que brota. O desabrochar e desprender-se que em si mesmo permanece. A partir de uma unidade originária se incluem e manifestam neste vigor repouso e movimento. É a presença predominante, ainda não dominada pelo pensamento.” In introdução à metafísica.
Voltamos a indagar se não será esse o sentido da clínica, o sentido mesmo do estarmos no mundo? O de conhecer e dar nascimento, fazer uma maiêutica do sentido do homem e um simultâneo parto do mundo e para o mundo. Que situação é essa onde podemos encontrar o Ser do homem? Que precisamos para fazer este casamento fecundo e deixar emergir o Ser como filho legítimo entre tu e o mundo que a tudo acolhe e concebe?
Podemos responder dizendo que há muitos lugares para a clínica , pois o ser está em todo lugar, tudo afinal, é palco de encontros e desencontros, o mundo enquanto physis brota, surge, emerge em todos os cantos.
Mas precisamos distinguir entre os entes e o ser do homem, pois há no homem uma condição existencial que é de dar nascimento às coisas do mundo. Homem, assim sendo, não é coisa, pois não segue sendo como as coisas que restam, mas se coloca perante o ser como um pastor que tem no cuidado sua atitude mais própria. Assim sendo, a clínica como uma inclinação para o cuidar do ser é a atitude mais radicalmente humana.
Assim, não existe um lugar ou um tempo em que possamos encontrar com certeza, uma técnica ou treinamento certo que possa nos dar o fórceps desta emergência do ser. Porém, este acontecimento, esse “lugar-instante-sendo” de emergência, recebeu muitos nomes, mas neste contexto o chamaremos de simplesmente clínica.
Para entendermos algumas diferenças fundamentais no que tange essa noção que queremos traduzir, faço mais um convite a reexaminar com outras palavras nossa realidade vivida, que é a mais global e a mais concreta que todas as palavras. Compreendemos o homem em sua concretude, não se trata de dar nomes ou inventar outros lugares se não o mundo para os fenômenos que se dão. Nem se trata de ser iniciado em conceitos desta ou daquela escola filosófica.
Não falamos de inconsciente, de ego, de self, ou do sistema límbico. Pois quanto mais nomes damos às coisas do mundo, mais nos afastamos dessa intuição. Trata-se então, de investigar com as bases da fenomenologia aquilo que cada qual descobre na existência. Cada um tem um segredo, conhece o gosto próprio das coisas, e ninguém em nosso lugar pode nos transmitir sua qualidade. O paradoxo em relação às palavras ao falarmos de Ser, é que quanto mais definições de dicionários, menos conseguimos com que elas descortinem as correntes de vida que nos habitam ou visitam na vida.
Os versos dos poetas seguem nos apontando um sentido…
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Com Heidegger, o que chamamos pensar é estar diante do mundo e o mundo diante de nós e não guardamos do mundo representações mais do que o mundo guardaria de nós. Quando vemos a árvore, ou a borboleta, dizem os filósofo e o poeta, estamos fora do domínio da ciência e até mesmo da filosofia. Este salto para fora. Este salto que damos para o chão onde mesmo vivemos e morremos. Por mais estranho que possa parecer, precisarmos saltar de volta para onde estamos, deixando tudo para trás.
Que pode a ciência ou a psicanálise nos oferecer se o que nos oferece a flor e borboleta é aquilo que ela é. Nada de essencial resta nas explicações e análises, ao mundo e à nossa experiência de ser-no-mundo, as explicações acrescentam muito pouco. Ao contrário, podem acabar se convertendo em viseira que fazem tal como os animais obrigados a olhar em uma única direção e estreitando a experiência de mundo.
As viseiras muitas vezes são como os microscópios e telescópios que nos dão visões tão estreitas e tão amplas, que nos perdemos de vista. Não podemos ver o homem através dessas lentes. Embora cada qual tenha sua medida, podemos imaginar que talvez seja isso, essa enorme desmedida no olhar, que aos gregos chamavam de hybris, e lhes parecia o pior de males, a desmesura.
As conseqüências ecológicas para essa perda de visão, essa perda de perspectiva são emergenciais, mas seguimos com nossas viseiras, cegos ou no mínimo alienados da vida no planeta, do calor excessivo, das chuvas tóxicas, dos desequilíbrios da vida na terra onde estamos. Aprendemos a ver mais o que se passa em um país distante do que somos capazes de ver abrindo as janelas de casa. Será problema da televisão, da janela ou do nosso olhar?
Veja que se não podemos acudir a essa emergência planetária, eis o tamanho da nossa alienação com relação à vida, com o outro, com o mundo e como já dissemos, consequentemente, conosco.
Como vamos enxergar a nós mesmos se tudo que precisamos fazer para saber do mundo e de nós é buscar um especialista que nos diz o que saber. Assim, caminhamos com olhares estreitos sem ver a emergência ao nosso redor. Por isso há uma emergência para uma clínica que possa escutar essas contradições conspirar para uma ampliação de sentidos.
Toda a ciência psicológica ou filosofia que se converteu em epistemologia se afastando da questão ontológica colabora para nosso esquecimento de si. Tão fundamental aos filósofos originais do ocidente ou do oriente era falar do Ser, mas logo a ontologia se converteu em metafísica afastando a reflexão filosófica sendo a questão originária de porque “há simplesmente o ente e não antes o nada”, considerada uma impossibilidade epistemológica.
Tanto em Heráclito como em Lao Tse, encontramos essa busca original de falar do essencial do homem no mundo. A fenomenologia e Heidegger nos convidam a retomar essa que é a questão de todas as questões.
Podemos então, falar de três possibilidades do olhar. Olhar o mundo apenas através de um único vetor, do observador para o objeto, é uma primeira maneira clínica e talvez a hegemônica. Através de uma segunda via, podemos também perceber que o sujeito e objeto não se separam, mas se interrelacionam, que dão nascimento mútuo, não são objetos, mas seres em relação, que a borboleta que passa também nos dá nascimento. Enfim a terceira possibilidade, e talvez a mais generosa, muito conhecida das tradições sapienciais e contemplativas está presente também nas filosofias de Heidegger. Esta se dá quando há um sujeito sem objeto, a dimensão noética, contemplativa e reflexiva do Ser. Heidegger nos fala de Gelassenheit, a serenidade.
A distinção de olhares está presente na metáfora do dedo que aponta a lua. O observador pode olhar o dedo e esquecer a lua, ou olhar para a lua atento ao que aponta o dedo pode mesmo, perceber além da lua, a luz da lua, não é a luz da lua, senão reflexo da luz do sol. Assim o poeta no fala da serenidade do lago, capaz de refletir a lua, assim como o pensamento em é capaz de reletir o Ser.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Essas três maneiras de olhar podem ser cultivadas e na maioria das vezes vivenciamos um pouco de cada uma. E também recebemos sobre nós estes olhares na experiência da clínica, podemos buscar um terapeuta que imediatamente nos dá um nome, um título, um número e sofremos ao ser reduzidos à condição de objeto. Podemos experimentar um encontro com um outro ser humano e isso nos fortalecer e talvez nos console, mas podemos também ser vistos por um completamente outro no olhar do outro, uma presença e uma abertura que nos lembra de nossa condição essencial. Podemos chamar isso de ética da benção, de não reduzir o Ser, mas de preservar e sustentar a abertura ao mistério.
Abrirmos-nos para o encontro de sentidos do homem, na sua dimensão cósmica de integralidade. Não há entre eu e tu ou terceiro no mundo, um excluído, há entre eu-tu-mundo tudo o que há.
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela
Na perspectiva ontológica, a integralidade, a unidade na diversidade, de tal modo parecem estranhos ao pensamento moderno, ao dualismo cartesiano que talvez seja preciso muito silêncio antes de encontrar uma palavra justa. Não se trata de afirmar o fundamento da existência no pensamento, mas além do pensamento e das dualidades, encontramos, sem cogitação, o Ser.
No horizonte da meditação heideggeriana sobre a questão do Ser, o universo do qual é posta esta questão é o da existência. Então, não podemos nos colocar uma questão como se estivéssemos fora dessa perspetiva existencial. Não somos um objeto distante de nós mesmos que possamos nos conhecer fora da existência.
Na antropologia materialista e na filosofia convertida em epistemologia excluiu-se e reprimiu-se o ser como se tratasse de uma questão metafísica, colocando o homem na posição central do pensamento. O homem como existência, como apresentado pelo pensamento heideggeriano, ao contrário, trata de indagar-se e resgatar o estudo ontológico sem converter-se em uma metafísica ou em um humanismo.
O essencial do homem escapa então do campo de estudos dessas técnicas científicas e epistemológicas, embora elas tenham sua função, e podem ser instrumentos valiosos na clínica. Mas, se nos limitarmos e ficarmos presos a elas, podemos passar toda a existência como aquele que perdeu a chave de casa e alguém lhe disse para procurar sob um poste na rua. “O sujeito foi e ficou sob o holofote de luz, procurando até que um outro passou e lhe perguntou se ele tinha perdido a chave ali, na rua. O sujeito que procurava atormentado respondeu: “- Não, perdi a chave lá em casa, mas aqui está mais claro.” Assim ficamos.
Sem perder a lição do homem que Heráclito viu mergulhar no rio, de onde, ao sair, não havia mais o mesmo homem que entrou, e já não há ou nunca houve um rio. Ambos estão de passagem. Assim também, certa vez, o terapeuta se viu espantado com a pergunta de que se já tinha visto um rio. Eu hoje afirma o terapeuta que nunca vi um rio. O que viu sempre foram partes de rios, pois ver o rio é ver o rio do lugar de seu nascimento até o ponto em que deságua num outro rio ou no mar. Assim, vemos apenas parcialmente os pacientes que chegam e testemunham essa passagem, confiante que há um oceano para onde correm todos os rios da vida. O que vemos num encontro clínico é também um rio que podemos desatentos tentar segurar. Não tente segurar o rio, ele corre sozinho, rios são sempre vir-a-ser, sempre rios que correm.
O que foi nos dado e confiado na condição de ser do homem no mundo é a possiblidade de cuidar, de guardar e de pastorear o ser e o mundo. Mas que pensamento é esse que encontra o filósofo, o artista e o poeta e que escapa à tecno-ciência? O pensamento da clínica para emergência do ser pressupõe um olhar desinteressadamente atendo. Uma escuta da fala do rio sem esquecer da condição oceânica para onde todos os sentidos convergem e se abrem. Somos esses oceanos de sentidos e de relações, e podemos testemunhar estes rios que passam, como os passantes que nós encontramos na clínica. Eles nunca são os mesmos, mas nascem da possibilidade de seguir todas as possibilidades até o oceano.
Somos, enfim, nós mesmos seres no mundo, Dasein. Uma travessia de fluidos para o lugar do homem, que em si, somos nós mesmos na totalidade das possibilidades de que fala Heidegger. Sendo assim, a clínica não apenas pode ser uma atitude aberta a essa possibildiade, mas encontra aí mesmo, no próprio aberto, a condição de possibilidade da clínica.
Na clínica, o homem como abertura de sentido necessita de uma escuta generosa capaz de acolher esses novos sentidos ou um olhar que se prolongue em direção ao aberto. Assim, nitidamente, podemos afirmar que mesmo quando mediada pela técnica e mesmo apesar da técnica, sempre haverá emergência de novos sentidos decorrente dessa condição ontológica na clínica.
Essa condição essencial do ser humano se mantém, sustenta e permanece em abertura. Porém, mesmo se tratando da condição de possibilidade da clínica há também uma anti-clínica. Aquela que promove o desencontro, que reprime e reduz as possibilidades. Reprime o ser em função da hipertrofia da vontade. A vontade de poder do homem moderno, do tecno-homem,do homem máquina. Essa hipertrofia da vontade, esse obscurecimento ôntico, acaba subordinando outros seres e escravizando-os aos seus próprios fins. Ao invés de deixar o homem ser, de facilitar que redescubra sua condição ontológica e sua liberdade, acabam por aprisionar e em última análise, geram seres despotencializados do espírito sem vida.
Por fim, podemos dizer que a clínica da emergência do ser é uma clínica da síntese e não das explicações analíticas, uma clínica da intuição, mais do que da razão, da compreensão contemplativa que testemunha os acontecimentos, do que do voluntarismo traduzidos em ações para remediar.
O ser que oferece ao sujeito uma nova orientação e verdade, verdade como desvelamento, verdade como despertar, verdade como sair da letargia e se colocar de pé com um sentido, com um caminho onde ela mesma se apresenta no próprio caminhar. Esse é o caminho, que os orientais reconheciam como fundamento da vida, o caminho com um sentido.
Assim, nos chega em emergência o homem que se perdeu do seu sentido, do seu caminho, do seu desejo, ou de sua verdade, de sua autenticidade ou de sua sacralidade. Nascido cedo demais para o ser e tarde demais para os deuses.
A clínica pode ser o palco desse reencontro, percorrendo a floresta em busca da clareira de sentidos e clareza no pensamento, ajudando a investigar, a caminhar para a abertura, com espaço da criação presente a todo o momento.
A clínica do cuidar do ser, do reencantamento do mundo, das palavras e ações do homem. Eis porque falamos de uma emergência, de um lado, nos falta tempo na urgência dos acontecimentos, do outro nos falta Ser, na angústia e falta de sentidos. Mas é desse sujeito mesmo que podemos na travessia da clínica, nessa maiêutica de nós mesmos. Dar acolhimento, escuta e espaço para a re-descoberta do ser: o ser perdido na floresta do esquecimento.
Mário Fialho – psicólogo
Texto apresentado no Conpsi – Congresso Norte-Nordeste de Psicologia
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