reflexões sobre a arte de fluir a vida
Acupuntura
Por que médicos não poderiam (enquanto médicos) praticar acupuntura?
07/04/12
Caros leitores, esse blog tem se mantido congruente com os princípios de acupuntura no Brasil é livre e deveria continuar livre. Assim, embora defendamos uma graduação de medicina chinesa, nos moldes recomendados pela OMS, não acreditamos com isso que deveriam ficar, quaisquer outros cidadãos restritos no seu direito de usar acupuntura em praticas familiares ou terapêuticas.
Dois motivos para isso – acupuntura é simples e tem risco insignificativo para a saúde das pessoas. Você pode saber mais sobre risco da acupuntura neste artigo, ou saber sobre porque achamos que acupuntura deveria permanecer livre.
O que é acupuntura?
Acupuntura e moxaterapia, que são, em verdade, uma única prática clínica nascida na china e espalhada por todo o oriente à partida da unificação cultural da dinastia han é uma racionalidade médica autônoma, milhares de anos anterior ao modelo de medicina de base biomédico (aqui incluídos a medicina e suas especialidades, mas também a fisioterapia, odontologia e veterinária, biomedicina, educação-física). A psicologia tá de fora, porque sua prática clínica, exceto a terapias cognitivo-comportamentais não tem evidência científica, tem bases filosóficas e existenciais, fenomenológicas, podemos dizer.
O que é uma racionalidade médica?
Uma racionalidade médica é um conceito que nos chega da sociologia, que designa um sistema médico complexo quando contém as seguintes características. Uma cosmologia, uma dinâmica vital, um sistema de diagnóstico e uma terapêutica próprios desse sistema. Outros sistemas médicos complexos anteriores ao modelo científico e biomédico são por exemplo a medicina ayurvédica, a homeopatia, a medicina antroposófica e tantas outras.
Para saber mais sobre racionalidades médicas você acessar esse vídeo da palestra da professora Madel Luz.
O que precisa ficar claro é que estamos tratando de dois conjuntos absolutamente independentes. Lembra das aulinhas de teoria dos conjuntos? Nesse caso não há elementos que pertencem aos dois conjuntos sendo, por isso, considerados sistemas autônomos.
Com a clareza de que esses sistemas são autônomos não havendo nada que informe na formação de medicina, até o presente momento, e possivelmente até as próximas décadas, nada que faça com que um médico seja melhor acupunturista do que qualquer outro mortal, e que não cabe a afirmação de acupuntura possa ser, portanto, uma especialidade médica.
Mas também é verdade que não há nada na formação de fisioterapeutas, ou de odontólogos, ou de educadores físicos, psicólogos ou farmacêuticos e nutricionistas que os façam mais aptos que qualquer outra pessoa, com disposição e capacidade cognitiva de aprender acupuntura. Eis o verdadeiro problema, pois também a fisioterapia, e essas demais profissões, à exceção talvez da psicologia, que se aproxima da área de humanas nos seus fundamentos, estão sob a égide de uma forma de construção e validação de saber que é o saber objetivo, empírico, materialista, “flatland”, monovisão, reducionista.
Por isso, para um médico, ou qualquer outro praticar acupuntura ele precisa sair dos termos e fundamentos que se preparou e se abrir a um mundo novo. Tivemos e temos aqui estudantes médicos e é assim, uma surpresa boa, uma abertura de sentidos de possibilidade um novo corpo, uma nova fisiologia, um novo mundo de sentidos que se abre. E por isso mesmo, em sendo tudo novo, não há que se falar em especialização, pois, como sistema autônomo acupuntura só pode ser mesmo uma nova formação. O mais ridículos é que os médicos entre si, começam a dizer que acupuntura só pode ser especialidade de algumas especialidade médicas!!! Juro que isso é verdade pois passamos por isso com um aluno recentemente, pois só o clínico, homeopata ou pediatra poderia se também acupunturista na unimed local. Os demais alunos da turma brincaram dizendo que nem os médicos agora podem fazer acupuntura, só mesmo no Brasil mesmo. Preciso explicar que é a velha fatia de mercado das especialidade médicas?
Não acho que médicos, os que praticam acupuntura e são tão avessos aos demais acupunturistas, são bichos esquisitos já no seu próprio meio, no meio dos cirurgiões e de profissionais que estão sempre lendo o pubmed, ele se pegam lendo livros de milhares de anos, isso se realmente praticam acupuntura, coisa estranha, mas é verdade. Mas a visão de mundo que a prática da acupuntura convoca, ao fluir da energia, que faz da vida mais leve e possível; o alívio de sofrimento que acontece como mágica, antes de tudo, nos faz mais humildes com nossos saberes. Mas há quem pratique acupuntura e se forme sem nunca ter sido agulhado, e é o que há minha gente!!! E é típico do médico receitar o remédio que ele mesmo não tomou, tratar a ferida que ainda não se fechou em si, propagar o que não pratica e recomendar o que nunca faria em um familiar seu ou em si mesmo. A triste realidade é que médico nem sequer vai em médico, já ouviram isso? Pode ser um cacoete de psicólogo, mas aqui na multiversidade a gente pratica, sente, passa pelo processo, saca? Tamos afim de uma prática de vida integral, queremos viver essas práticas todas, realmente testá-las antes de passar adiante, pra ajudar outros e seguir junto no caminho.
VITA BREVIS, ARS LONGA
Um ditado antigo que gosto de repetir, atribuído a hipócrates que diz: A vida é breve e a arte é longa. Querer saber só medicina não é saber medicina alertavam os médicos mais lúcidos. Então o que está em jogo não é, como querem nos iludir, uma disputa de nós, acupunturistas contra eles, o inimigo lá fora, mas ao contrário, o problema tem muitas faces e se esconde em geral, entre nós mesmos.
O INIMIGO ESTÁ AO LADO.
Para então entender o problema vou fazer ao modo da minha aula de acupuntura, traçar um perfil cosmológico do que acontece, uma leitura grande de conjuntura e ir baixando do céu, pro homem e pra terra.
A SOMBRA - FREUD NOS ENSINA QUE A AMIZADE É A UNIÃO PARANÓICA CONTRA UM INIMIGO COMUM
Assim fazemos, centenas daqueles que antes não queriam uma graduação de acupuntura conseguem ver que esse é a única oportunidade e que talvez percamos, pois a grande maioria ainda não consegue ver além do seu umbigo. Esses que ainda não conseguem, estão no mesmo nível dos médicos que patrocinaram essa campanha difamatória e gananciosa. Provavelmente empresários da saúde, é claro, pois profissionais engajados na clínica, tem muito mais o que fazer com seu tempo do que bancar na mídia um desfavor desse tamanho à população e aos praticantes sinceros dessa arte.
Quero deixar claro, que há dessa mesma laia entre nós não-médicos, mas que se fossem médicos fariam a mesma coisa, só não tem a oportunidade e competência. São comumente fisioterapeutas que querendo ser médicos, avocam pra si o uso de fitoterapia e de acupuntura como sua especialidade e buscam da mesma forma restringir outros profissionais cerceando seus direitos, ou os nutricionistas, ou psicólogos, ou farmacêuticos contra os raizeiros tradicionais, patrocinam campanha contra os técnicos e fazem uso, com muito menos perícia é claro, que os médicos das mídias por aí. São faces da mesma moeda egocentrada. São as faces do mesma ignorância, ignoram o tiro que dão no próprio pé, mas são como os que se movem por medo, agora chegam para falar em UNIÃO, o medo une temporariamente eu recuso esses aliados. Busco meus aliados nos que se aliam pelo amor a essa arte, por preservar a sua essência e sutilezas que não cabem em nenhum livro, senão o livro da vida que cada um de nós encarna.
Saia de perto desses Zé Ninguém, como dizia Reich, essa gente que vive a apontar os dedos aos outros e não percebem que só atiram pedra nos seus própria sombra. Temos aqui na multiversidade outros propósitos sim, nos consideramos acima desse tipo de motivação e sim, somos melhores por isso em qualquer escala de desenvolvimento moral e não nos escusamos de vir tentar esclarecer, porque pra esclarecer é preciso outra coisa, estudo e dedicação.
Porque embora não se fale nisso, de ética e desenvolvimento moral, nem nos cursos de pós-graduação de acupuntura, onde se ensinam as técnicas, nem nos cursos de medicina científica, onde não se toca o paciente mais. Ainda mais difícil seria entendermos que assim como as capacidades cognitivas se desenvolvem com o estudo, e as capacidades cinestésicas também com a prática consciente, a capacidade ética de incluir outros também. Somos assim radicalmente à favor de TODOS E POR ISSO QUEREMOS UMA FACULDADE AUTÔNOMA. Acupuntura sem sentir o qi, sem perceber as curvas do corpo, sem conseguir tocar de nada serve. Vale lembrar da genialidade dos mestres japoneses que cegos levaram a arte de palpar o corpo a um outro nível.
Como não falamos de desenvolvimento moral nos cursos, como vamos querer um mundo mais saudável 0para todos? Que serviços de saúde queremos para nós mesmos e para nossa família, se não nos envolvemos na política, apoiando os ENAPEAS e por isso, os parasitas prosperam.
Não é um privilégio da acupuntura, é um certo nível de desenvolvimento e evolução sim, que ainda não alcançamos, vamos do egocêntrico, ao etnocêntrico à visão mais ampla. Esse saber sequer é seu, ou meu, ele é tradicional, transmitido e da forma que te chegou, por isso passe adiante de forma integra e integral, se puder.
Assim, cuidado com esses que atacam demais os médicos, todos os bons médicos que eu conheço, que praticam uma medicina fora do sistema biomédico, aprenderam a desenvolver uma outra sensibilidade, e reconhecem os limites do que herdaram na sua formação, que absolutamente incrível, embora ainda uma monovisão, transformou e transforma a cada dia as possibilidades humanas nesse planeta através da ciência. Pontuamos que nada temos contra médicos, o que temos contra os maus acupunturistas médicos, temos também contra os maus acupunturistas de qualquer formação superior que defendem essas especialidades.
LEGISLAÇÃO
Outro tema relevante, ainda de ordem geral é a legislação. Eu sei, eu estudei direito na UERJ e me formei, por isso não me afeta nenhuma dessas picuinhas jurídicas e por isso enquanto não tivermos regulamentação, ensinamos acupuntura para todos, pois TODOS PODEM PRATICÁ-LA LIVREMENTE. Pra quem não sabe, a UERJ é a mais respeitada faculdade aqui do Rio. Pois bem, vou te contar do primeiro período de Direito Constitucional onde aprendemos o PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. Esse princípio está enunciado no artigo 5º da constituição federal:
“ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”
Talvez você não saiba o que isso quer dizer, tudo bem, nem todo mundo teve a infelicidade fritar o baço estudando direito por 5 anos. Mesmo assim, eu explico:
Isso quer dizer que a menos que tenha uma lei específica proibindo o cidadão comum de praticar acupuntura, qualquer cidadão poderá praticar acupuntura. Entendeu? Se não, leia de novo até entender.
Mas e as decisões dos conselhos?
Tentando explicar da forma mais simples, decisão do conselho de medicina só se aplica a médico, do de fisioterapia só se aplica a fisioterapia e assim por diante. Eu sou psicólogo, mas não pratica acupuntura como psicólogo, pratico acupuntura como acupunturista.
Mas e a decisão da liminar?
Decisão de liminar não é “sentença”, em direito, decisão se chama sentença e quando essa não cabe mais recurso, chamado de trânsito em julgado, faz lei entre as partes do processo, neste caso, os conselhos que brigam entre si pelas suas extrapolações de competência.
Os conselhos extrapolam sua competência, como?
Quando fazem de um saber muito mais vasto, antigo e amplo de uma racionalidade médica outra, sua “especialidade”.
Voltando à teoria dos conjuntos, se você tem o conjunto Biomedicina com (medicina, fisioterapia, biomedicina, odontologia, veterinária, nutrição) num conjunto, e outro conjunto com (qi gong, tui na, fitoterapia energética chinesa, acupuntura, moxabustão, dietoterapia energética chinesa, etc…) em outro conjunto, como pode um conjunto talvez mais abrangente, pois consideram outras dimensões e implicações da vitalidade ser “especialidade” desses aí de base biomédica? Saca, ou quer que eu desenhe?
Esse é o problema! Digo, o verdadeiro e único problema em jogo.
Bom, porque então a mídia brasileira fez essa campanha contra os acupunturistas não médicos?
Bom, eu preciso dizer que se você não sabe que uma revista e um jornal vivem de matérias pagas, ou você acredita em coelhinho da páscoa, se você acredita que a mídia brasileira é independente, que ela não está comprometida com as elites, neste caso com as máfias que vivem da doença dos brasileiros, que vivem desses processos superfaturados de saúde. Vamos ver: se acupuntura é barato e a consulta é cara, você pode ficar um ano fazendo e não ter melhora nenhuma e ainda ganha dinheiro do sus e dos planos de saúde. Puxa vida! Mário, esse negócio de acupuntura dá dinheiro mesmo, hein? É, facilmente na mão de pessoas sem escrúpulos, como as que já citamos, ela vira mesmo um bom negócio. Assim, se você faz acupuntura ou fisioterapia ou qualquer outro tratamento que não tem efeito, procure outro profissional, porque mesmo que a ciência diga o contrário, acupuntura funciona, e muito bem.
E isso, meu desabafo e desintoxicação necessária do fígado, espero ter ajudado alguns que ainda não entenderam com quem estamos lidando.
Numa frase para os acupunturistas:
ACUPUNTURA INDEPENDENTE, OU MORTE
Outros pontos em síntese são:
- procure seu representante político e apoie o projeto de lei que está buscando regulamentar a acupuntura, ou monte uma igreja para praticar acupuntura taoísta.
- procure o grupo acupuntura independente que tenta discutir esse tema de forma mais lúcida e fuja de grupos de pessoas que só tem uma agenda pessoal por traz do barulho todo, as que falam mal dos outros, as que atiram pedras demais.
- acupuntura é livre, é de todos, é patrimônio da humanidade e é fundamentalmente uma arte, isso que dizer que não se aprende em livros, ou em aulas teóricas, se aprende em anos de prática, desenvolvendo uma visão outra, uma outra tridimensionalidade do corpo, da vida, do universo do cosmos.
Sobre o futuro
- claro que médicos estudam mais, são 6 anos de formação e ainda tem pelo menos 2 de residência, por isso, o caminho de integração vai naturalmente acontecer, mas pra isso acontecer de fato, é preciso que todo um campo de energias sutis seja incorporado ao sistema biomédico, e isso está longe de acontecer, especialmente no Brasil que vemos a ortomolecular por exemplo ser proibida como especialidade. Por enquanto é bom saber, acupuntura não tem comprovação científica, nem florais, nem homeopatia, nem ortomolecular, nem diversos usos fitoterápicos. Você vai deixar de usar por conta disso? Eu não, pois existem muitas outras evidências que a ciência não alcança, mesmo assim, se medicina é ciência… complete a frase.
Claro que a briga é muito maior do que parece, porque uma vez que acupuntura seja regulamentada, os grandes laboratórios chineses de ervas vão querer entrar no país e aí, a briga vai começar mesmo.
- então, não vejo o futuro com olhos muito promissores, mas temos uma janela de oportunidade e perdemos muito por não termos lideranças comprometidas antes de tudo com a qualidade do ensino ou mesmo com o impacto dessa nossa arte da vida e na qualidade de vida das pessoas em todas, de todas as classes e formações.
- quero mais acupunturistas de pés-descalços, simplicidade, para todos, em todas as classes sociais, ensinadas como cuidados básicos numa cultura de promoção da saúde e não mais de pessoas doentes.
Gratidão pela leitura e indico outros temas sobre acupuntura no meu blog, pois não vejo muito sentido em ficar me repetindo.
Mário Fialho é também acupunturista, escreve aqui de vez em quando pra clarear e mente e tentar aliviar o coração e ensina acupuntura integral e japonesa na multiversidade.com
ACUPUNTURA E PARAGENÉTICA
30/01/12
ACUPUNTURA E PARAGENÉTICA
NADA É POR ACASO
Se considerarmos que o movimento do universo é fundamentalmente criativo. Que não existe um lugar, ou um tempo de acontecimentos que são palco desse movimento[i]. O próprio devir da vida e a emergência da variedade dos 10.000[ii] seres como se referiam os chineses. Ou seja, toda a pluralidade explosiva de viventes entre o céu e a terra traz consigo uma informação.
A essa informação de origem celestial os antigos chineses chamaram shén[iii]. Essa qualidade luminosa do espírito estabelece uma relação com a terra e sua fertilidade através da forma e da essência da forma que os antigos chineses chamaram jing.[iv]
Dessa união, entre memória na matéria ancestral que percorre todas as esferas genéticas e filogenéticas desde a formação dos prótons e elétrons e por toda a corrente de vida que se encontra e se transforma numa enorme dança criativa e evolutiva em todas as direções.[v]
A complexidade da simplicidade faz surgir a oportunidade da manifestação no mundo material do espírito criativo celeste, essa centelha de consciência que aprende, cria e recria ao mesmo tempo.
Mas como explicar a nossa condensação temporária de energia em matéria que cria, aprende e forma e novamente repete esse ciclo na luz dos planetas como viajantes do cosmos impulsionados pelo amor, compreensão e enredado nas tessituras de todo o universo.
“Cada um sabe com que linhas cose as próprias vestes.”[vi]
Jing mai em chinês refere a essa trama que não tem fim e que tecemos todos juntos.[vii] A harmonia da forma na relação com a energia e consciência é o que define a saúde, a vitalidade e a longevidade dessa manifestação.
No oriente essas redes luminosas e de vazios férteis se co-organizam umas as outras. Entre as tantas harmonias possíveis, há algumas mais curiosas. Esses 8 meridianos de reunião do qi original chamados também de maravilhosos marcam e recortam a forma humana.[viii] Desde a mórula embriológica, desde as tramas do código genético, desde as formas tetraédricas de sustentação bioquímica nos vamos atravessados de correntes e feixes de luz-informada,
Assim, nossos corpos são nossa autoria e nossa maior criação. Não recebemos um corpo geneticamente dado, interagimos na genética e paragenética o tempo todo. Dessa interação manifestamos as ressonâncias com as oitavas musicais ao nosso redor e dessas relações mais ou menos harmônicas fazem com que possamos ampliar ou diminuir a expressão do impulso criativo que repousamos juntos no fundamento da presença, assentamos.
É a partir dessa compreensão que podemos nos aproximar das reservas das nossas energias, beber do reservatório da vida para promover um realinhamento, uma afinação do nosso instrumento pelo qual sopramos a música que criamos e somamos a nossa nota única diante e perante o caminho.
Cada célula do nosso corpo traz toda essa informação, mas na composição de uma vida mais expressiva caminhamos da unicelular ao ecológicos e a grande teia da vida.
Sistemas entre sistemas, vidas, entre vidas, escolher entre as linhas de sangue *xue que percorrem de mãe para filhos ao longo de toda a experiênciia humana é uma casualidade?[ix]
Se não, o destino, ming,[x] tampouco se define de antemão, planejamos, damos forma mas principalmente testamos e experimentamos a nossa criação. Nosso corpo é enfim, nossa maior criação, escolher o momento, ter mais ou menos lucidez das condições necessárias para manifestar um veículo que cumpra as possibilidades do espírito é mais do que uma dádiva, é um impulso amoroso e radiante.
Cada doença que brota de uma desarmonia tem em si a semente da cura. Cada canto em desafino, tem em si o caminho da nota perfeita em um aperfeiçoamento constante, diário e permanente em cada pensamento, em cada energia que chega, em cada experiência que atraímos em cada evento que co-criamos.
Muito mais fácil será sermos saudáveis quando o mundo ao nosso redor estiver saudável, por isso, os que buscam em verdade a sua saúde ou a saúde do outro, não tem outra opção senão converter cada célula, cada linha, cada direção do seu corpo em uma rama que conecta o céu e a terra.
Daí ramos celestiais, daí troncos de luz, que fazem essa união de tudo que pode o espírito ver.[xi]
A luz que te habita é sua, faz dela brilho e amor em cada célula, cuida aceita e sorria, pois tudo está sendo filmado e o expectador é você.
Dedicado ao meu amigo pesquisador da paragenética Alexandre Carloni[xii] e que como as redes do universo, a nossa amizade possa seguir em frente em formais mais aprimoradas.
NOTAS:
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[i] Desde das proposições de Darwin que passamos a compreender e nos tornar auto-conscientes do processo evolutivo, fica mais e mais claro que a criação não é um “ops” um acaso, onde do nada temos tudo, mas um contínuo desenvolvimento que se dá tanto das num impulso de cima para baixo, de formas mais complexas para as menos complexas como das formas mais simples em direção as mais complexas. Wilber relaciona esse impulso do uno ao múltiplo chamando de ágape e de éros o impulso unificador in sex, ecology, spirituality – shambala, 2000. O palco do movimento se refere à dimensão de Ser e Tempo em que não há como relacionar um lugar ou um momento para o processo criativo, é no processo criativo que emergem o tempo e um lugar.
[ii] “O Tao deu origem ao Um, o Um ao Dois; o Dois produziu o Três que gerou os Dez Mil Seres” – a referência criativa na cosmologia chinesa indica o movimento criativo do uno ao mundo manifesto passando pelo tai ji, ou divisão entre yin-yang, a relação entre os dois, no três e enfim o mundo.
[iii] Shén – tem muitos sentidos na tradição oriental, para considerações gerais chamaremos de consciência . Shén tem origem celestial e tem brilho (bai) se se expressa no brilho dos olhos e da face, mas é também o mais yang, o mais luminoso dos aspectos da substâncias vitais chinesas. (jing, xue, qi, shen).
[iv] Jing é o mais yin o mais terreno e fértil aspecto das substâncias vitais, a semente potencial do impulso criativo, Se relaciona com a fertilidade, ancestralidade, longevidade e potencial de vida impresso no veículo físico de manifestação, diretamente ligado com a genética, cuja interação com o shén que o modela e aprimora ao longo da relação estabelecendo uma possibilidade paragenética. Por exemplo um dos irmãos muito diferentes em uma família que à partir daquela mesma “carga genética” operou uma manifestação muito diferente.
[v] Aqui é importante perceber que memória e matéria, ou seja a possibilidade de guardamos as memórias ou mesmo retomarmos memórias estão intimamente legados à qualidade da veículo de manifestação, no caso o soma, assim, recebemos memórias genéticas, filogenéticas e de toda a vida antes de nós em arquétipos e imagens culturais e coletivas, mas também trazemos as memórias das vidas anteriores no shén que evolui em méritos, virtudes e se aperfeiçoa em suas séries de existências.
[vi] A imagem das cordas está presente nas teorias mais modernas da física as “supercordas” ou mesmo na palavra karma que tem sua origem no ato de tecer. Na tradição chinesa jing que também se traduz como sutra, nessa referência à tessitura universal, à trama de relações, é usado para indicar os meridianos de acupuntura (jing mai). Essa trama de energias interage com todas as outras substâncias vitais, o sangue, o sopro, a essência e a consciência criativamente. Por isso o ditado que cada um sabe com que linhas cose, indica também uma atividade autoconsciente e evolutiva na atitude de tecer as tramas da vida. Quanto mais consciente desses nós, energéticos e sutis, mas escolha, liberdade e perícia adquiriram na arte de cuidar e de viver.
[vii] O que queremos chamar atenção é que não há apenas um destino, nosso destino é grupo-kármico, se relaciona com o destino de todos ao nosso redor, por isso, cuidar de si é cuidar do outro, cuidar do mundo é cuidar de si, o vínculo entre as redes de sentidos e tecidos que nos cercam são muito difíceis de compreender com nossa atual condição consciêncial, mas quanto mais evoluímos mais claro ficam esses vínculos e correlações.
[viii] Os 8 vasos maravilhosos guardam e circulam o yuan qi que é um reservatório da circulação das energias nos 12 canais, mas também formam as circulações extra-ordinárias, tanto a circulação celestial de Du e Ren mai, quanto os demais recortes que guardam vínculos com as primeiras divisões celulares e formações embriológicas. As formas dessas relações com os pontos de abertura podem ser estudados nas obras do professor Manaka.
[ix] O processo organizacional das múltiplas vidas passa pela mistura dos “sangues” no processo de maternagem e paternidade influindo também na mistura “das linhagem”, na formação dos mestiços e hibridizações, nas condições evolutivas e adaptativas que como rios que correm na árvore da vida, genealógica, possam transportar as condições mais purificadas e testadas para uma relação consciêncial no sistema familiar. (ver mais em terapia familiar sistêmica para compreender os vínculos e para-vínculos familiares).
[x] No clássico da fitoteapia, diz que se o médico superior ajuda o paciente a encontrar o seu destino. Essa seria então a finalidade última do tratamento, coloca-lo no seu caminho (dao) coloca-lo de volta no fluir da sua energia de acordo com a relação otimizada das suas substâncias vitais com o céu e com a terra. Assim, a programação existencial e completismo existencial são os maiores sinais de saúde.
[xi] Na medicina chinesa, o tempo e a dinâmica da energia celestial são fundamentais para compreender a teoria de canais e seus respectivos tratamentos. Há correspondências tanto no céu quanto na terra, e embora pareçam apenas abstrações metafísicas. Quando efetuamos tratramentos baseados nesses ritmos do céu e da terra, percebemos o qual eficazes são. Ou mesmo quando podemos ver e sentir com nossas parapercepções essas correntes de luz que se ligam à grandes centrais de energia ordenadora da vida.
[xii] A paragenética de outros mundos mais avançados que criam seus corpos, macrossomas a partir do seu paracorpo antes de encarnar ajudado sempre por outra consciência que lhe oferece novas experiências e cuidam para que as melhores e mais proveitosas oportunidades evolutivas sejam percebidas. Também chamado de sistema de transmigração da consciência contínua ao próprio avatar.
Acupuntura e Arte de Cuidar
20/11/11
Eu mal sei como começar a escrever sobre essa dimensão da acupuntura e arte por ser um tema tão central e que sequer tangencia o senso mais comum sobre o tema. Mas como professor, meu papel é facilitar o aprendizado, tal como os antigos, conto a seguinte situação:
Imagine alguém que vai buscar uma aula de Tai Ji Chuan, ou Aikido, ou mesmo Yoga e pergunta:
- De quanto tempo é o curso?
Aí o professor responde, não tem tempo.
O aluno perplexo pergunta:
- Como não tem tempo, mas não tem certificado?
- O professor, pacientemente, diz tem, tem sim, se você estudar comigo aqui um tempo eu te dou um papel dizendo que você estudou.
- Mas é reconhecido pelo MEC? Retrucou incrédulo o aspirante.
- O professor responde: Não, mas aqui temos faixas, reconhecemos quando você está pronto e é esse reconhecimento que lhe dá confiança e certidão, mais do que qualquer papel. Mas tem escolas que oferece curso de professores de Yoga em dois anos, e tem também os que oferecem cursos de acupuntura que ao concluir, no final, pós-graduado, você pode até começar a dar aulas.
O aluno vai buscar o seu certificado o professor fica sinceramente feliz, pois certamente não é este aluno que ele pretende conviver pelos próximos anos.
Na multiversidade.com, escola onde vivemos essa arte no dia-a-dia, partilhamos da certeza de que tais como as artes orientais marciais também a arte da acupuntura têm diversos níveis, “faixas” de compreensão; e que quase todos os níveis, só podem ser compreendidos através da prática. Não nos deixamos iludir achando que podemos aprender acupuntura com pós-graduados especialistas de cursos de dois anos com aulas de final de semana sem nenhuma experiência clínica. Nada contra qualquer dos cursos e seus esforços sinceros de propagar este saber, confiamos que todas as formas de propagar este saber são válidas, mas algumas, pelo próprio molde pedagógico, não consegue seu intento.
A cena é mais ou menos assim, a pessoa faz um curso e ganha uma faixa branca e lá está ela dando aulas, sem sequer um ano de prática, sem sequer ter experimentado em seus pacientes, sem sequer ter pacientes.
Tal como nas artes marciais, a acupuntura tem diversas graduações, e você só é reconhecido quando reconhecido pelos seus pares que detém o conhecimento, por isso, e fundamentalmente por isso chamamos e reconhecemos esse saber de TRADICIONAL, porque ele caminha junto da sabedoria que o orienta.
Respeitar seu professor, reconhecer as linhagens e ser reconhecido dentro dessa linhagem é fundamental e nos dá força de seguir adiante nessa transmissão. Embora hoje, a gente tenha cursos de yoga de final de semana, e não tema, os cursos na China são assim também. O dinheiro compra quase tudo não é mesmo? Mas cada um, com discernimento e lucidez, é bom saber o que está comprando.
Então, se você fez um curso de acupuntura e ainda tem a coragem, de mesmo que só pra você, com dignidade e consideração pelos seus pacientes, reconhecer que ainda não sabe nada, procure passar de faixa branca que é o seu certificado, comprado na china ou na escola mais próxima de você, para os níveis seguintes.
As pessoas que realmente detêm esse conhecimento passam por muitos sacrifícios para obtê-los, dedicar-se a cuidar das pessoas com seriedade não permite fazer atendimentos em série, trata-se de uma vida dedicada a uma ARTE.
E porque acupuntura é uma arte? Porque ela demanda uma atitude de cultivo que é a raiz da medicina oriental. Além disso, para quem ainda não compreendeu, saiba que conhecer a relação dos canais, saber que pontos inserir, saber inserir, saber a profundidade, direção e mais difícil de tudo ter a intenção correta capaz de mover o Qi leva muitos e muitos anos de estudo, desenvolvimento da sensibilidade e compaixão.
Mas o mercado não pode esperar tantos anos assim, não é? Precisamos “cair no mercado de trabalho”. Aí, acupuntura que é uma prática refletida, ou contemplada, um saber que emerge do encontro clínico, se torna uma teoria aprendida nos livros e aplicada num paciente hipotético com síndromes metafísicas, nunca, ou raríssimas vezes se encaixam tal como nos livros. Uma técnica a mais nos repertórios das especialidades.
Vamos precisar de todo mundo, de todos os acupunturistas, independente da sua formação anterior, de todos os cuidadores e terapeutas interessados em preservar a integridade e a integralidade desse saber.
Nossa arte, embora muito antiga, ainda é apenas uma criança no Brasil e vamos ter que criar uma massa crítica para chegar a uma futura graduação de acupuntura para aprofundar e levar adiante esse saber declarado patrimônio da humanidade. Sempre haverá, contudo, outros cursos destinados a outras transmissões de saber que não se aprende nos bancos universitários, e também sempre haverá os que compram certificados e os que realmente aprendem, é a vida. O processo de ensino e aprendizagem é um mistério, o que se transmite depende do coração de quem recebe. Isso não é bom, nem ruim é assim.
Fico feliz de me manter com disposição de aprender sempre, de manter o meu pote meio vazio para seguir me surpreendendo sempre com as novidades de milhares de anos que a acupuntura me mostra no quotidiano. As fichas continuam caindo, iluminando meu coração, no silêncio das agulhas.
Esse texto foi escrito em gratidão a todos que participaram do ENAPEA-Niterói aos meus amigos, companheiros e maestros do caminho, alunos e professores.
Gratidão a minha primeira professora Maria Eugênia e ao meu primeiro professor Victor Lima, que me mostraram os primeiros passos do Caminho desta Arte de Cuidar.
Acupuntura, tempo e destino – Ling Gui Ba Fa – arte dos oito métodos da tartaruga encantada
09/11/11
Quando paramos para ler os clássicos da acupuntura, boa parte do que se faz difícil de compreender é a sua relação com a temporalidade. O que é o tempo afinal? Ou melhor, o que é o tempo de afinar-se perguntaria o chinês?
Bem, no curso de psicologia e acupuntura ontem tivemos uma longa conversa sobre isso e certamente um dia estará tudo num livro, mas enquanto isso, peço sua gentileza para refletir comigo por algumas linhas sobre essas intuições tão poderosas do pensamento chinês.
“Do vazio original surgiu o tempo e o espaço”
Os textos taoístas podem trazer referências que traduzimos como se fossem evidente para nós ou seu significado simplesmente dado sobre o que seja a temporalidade. Assim, nas linhas seguintes, vou fazer algumas reflexões sobre o tempo na nossa própria tradição ocidental.
Os gregos por exemplo, tinham três temporalidades diferentes: uma se chamava kronos, isso mesmo, o Deus, saturno dos romanos, esse derivou o nosso tempo do cronômero, do crônico, do pesar e do decrepitude, mas os gregos sabiam bem que o tempo que marcamos está longe de ser o único tempo que… muito bem, talvez você já tenha intuído, o tempo que experimentamos, vivemos e sentimos.
Outro tempo, muito mais importante para nossa conversa é Kairós, o tempo oportuno, o tempo do acontecimento, o momento certo, o tempo favorável, o tempo eternizado no instante, tempo de presença tão raro nos dias de hoje.
Aliás, se tempo hoje é dinheiro, penso no quanto tempo perdemos na frente dos monitores, nos facebook ao invés de nos darmos conta do tempo de viver.
Mas o que isso tem a ver com acupuntura me perguntam alguns leitores furiosos que às vezes que vem aqui no blog buscar fórmulas de tratamentos e só encontram reflexões de uma pessoa sobre a vida no tempo. Calma, calma, a quem sabe espera as pérolas da sabedoria chinesa sempre chegam, os que tem pressa, que querem logo receber seu diploma, os que buscam cursos de final de semana, esses são como as sementes boas em terra ruim, não vingam, não florescem, porque não sabem esperar o tempo.
Em sua obra prima, Ser e Tempo, Heidegger, maior filósofo do século XX, nos ensinou que com o advento do cristianismo acabamos por impulsionar o temporalidade ao inverso, ou seja, esperamos o futuro melhor, as soluções que não temos, as tecnologias, as novas descobertas e também e principalmente uma vida melhor de redenção do mundo. Desde a idéia da chegada da “nova Jerusalém” a releitura new age do “calendário maia”, vivemos essa temporalidade pervertida que não honra suas raízes e tradições, que não aprende com a terra que nos cerca, que já não sabe em quais raízes buscar a cura para seus males, enfim, que não conhece o chão que pisa.
Se na tradição oriental e mesmo nas mais modernas teorias evolutivas nós somos o que existe entre o Céu e a Terra, poeira de estrelas, nascemos desta relação fundamental de duas forças, de dois Deuses (urano-céu e gaia-terra), de duas energias (yin-yang) e isso não é pouca coisa. Pare e contemplem as ordens celestes, os ciclos da lua, do sol, das estações, do dia e da noite, das horas, do tempo da batida do seu coração, do ritmo da vida e da circulação do qi pelos seu corpo. Aliás, não “pense”, no sentido metafísico do pensamento, viva, experiência, sinta, intua, conecte-se e perceba que há um relógio onde gravamos nossas experiência, onde consumimos nossos tesouros (shen, qi, jing) e com eles consumimos a vida na Vida.
Precisamos de tanto? Precisamos vender nossas horas de vida pelo dinheiro, precisamos ter mais do que precisamos, onde está o descompasso, onde estão as virtudes principais do taoísmo de compaixão, simplicidade e humildade? Eu que procuro e me pergunto, sinceramente todos os dias encontro difícil pois não somos muitos interessados em tudo isso.
Nos clássico de acupuntura, o tempo que está registrado no Nei Jing é o tempo circular, dos dias e noites, das estações e da lua. Tempo do femino e do masculino, num casamento raro de calendário solar com lunar.
Assim, o ritmo que se estabelece não é um ritmo qualquer os dias não tem nomes de generais (julho-agosto) mas refletem suas qualidades fundamentais que chegam até nós nos 6 meridianos unitários e nos 10 canais, ou 8 vasos. (12 veio depois)
E o que isso tem a ver com acupuntura? Bem, se víssemos ao lado de nossos pacientes quotidianamente e convivêssemos numa vida comunitária ia ser fácil perceber quando alguém está saído do ritmo da vida, quando está enfim adoecendo.
Tudo na acupuntura é tempo, tempo de permanência da agulha e inclusive o tempo mais “auspicioso” de agulhar. Hoje, em tempo em que ninguém mais tem tempo, não temos nenhum outro tempo senão o da nossa agenda, a do google e do celular onde ficam marcados os atendimentos e compromissos, exaustos depois de uma dia de trabalho e noites insones chegam à nossa porta em busca de reajustar o tempo. Difícil tarefa essa nossa hein? Isso senhores, sabemos, é causa de grande adoecimento.
Diz o clássico das perguntas simples
“Sedação se dá nos momentos em que a energia está em abundância, no momento em que a lua fica cheia, o momento em que o dia se torna quente, o momento em que o paciente se acalma a agulha deve ser inserida. No momento do paciente inala, se vira a agulha e quando o paciente inala uma segunda vez, a agulha é retirada lentamente no momento em que o
paciente expira.” (Su Wen)
Esses textos devem parecer estranhos, mas com o tempo percebemos os melhores tratamentos em acupuntura são paradoxais ao nossa forma causal de pensar o mundo. Aqui tratamos de relações e as correspondências e “co-emergências” e não de causas. Então fica simples ver como o extremo de um se encontra o com o outro, se transforma e converte. E que é a alquimia da acupuntura senão essa transformação de opostos.
Eu sei que essas ideias são muito simples, mas acupuntura é simples mesmo, mas demanda uma mente simples para apreciar e isso, caros amigos, é muito raro de cultivar.
Por isso tanta confusão por aí, não estranhe, a maior parte das gentes não vai mesmo aprender porque acha que já sabe, e eu só conheço bons acupunturistas quando são apaixonados por essa arte e dispõe de horas e horas e livros e livros além de uma vida dedicada a cuidar e viver em harmonia com esses princípios, por isso não há que se preocupar com a acupuntura no ritmo dos planos de saúde. Não é esse o tempo da vida, não é o tempo atento e disposto a escutar o momento oportuno. Sempre haverá boas receitas a seguir, na tradição dos mestres, e eu vou já ensinar uns truques, (para que esses não pensem que perderam seu tempo, rss, jamais) mas como toda boa arte, ela mesmo esconde seus tesouros de quem não pode entender, por isso não temo em ensinar, pois aprender não depende de mim, depende do coração aprendiz.
Apesar disso, me entristece quanta gente doente comparece querendo ganhar dinheiro com a acupuntura estética ao invés de tratar o sintoma evidente que isso representa: o medo do tempo e de uma vida mal vivida em que a essência madura não consegue colher seus frutos.
Depois do desabafo, voltemos ao Nei Jing
“Os dez troncos celestiais geram os 5 elementos,
que por sua vez geram três energias yin e três
energias yang. As três energias yin e os três
energias yang se combinam para gerar as seis energias de Céu,
seis energias da Terra, e seis energias do Homem.” (Su Wen)
Bom, não vou explicar tudo isso, vou apenas dizer que temos uma origem e uma conexão celestial, e isso na prática da acupuntura é absolutamente central (todo o sistema de meridianos deriva dessas idéias cosmológicas). Que temos ramificações no céu e nas estrelas que estamos enfim, estamos conectados com o tempo e com o movimento e do universo. Pode parecer filosofia, mas se trata de sabedoria que é outra história e toda a medicina chinesa e os modelos da vasos maravilhosos e canais unitários decorre dessa visão integradora que com o tempo foi aterrando e se modificando na história até os nossos dias, na busca dos neurotransmissores e ate de uma comprovação para os modelos tradicionais.
Quero então fazer um convite para que experimentem um tratamento baseado no tempo celeste, no tempo com o qual deveríamos todos estar conectados, no tempo em que cada um de nós deveria respirar, abrir-se e fechar, mudar, crescer e morrer com saúde.
O método da tartaruga mística, tartaruga sagrada, técnica como querem eu vou traduzir por arte dos oito métodos da tartaruga encantada, pois ela nos convida a isso, a um reencantamento do mundo, a uma visão de sincronicidade infinita com o universo e sim, como há evidências científicas para isso, e porque não? Cito também suas fontes científicas para os que acreditam que só que está no pubmed está no mundo. Já os que sabem que acupuntura científica é ficção científica, não precisam se dar ao trabalho.
O TRABALHO
Para perceber o ponto que está ativo você vai precisar só da longitude de onde mora, basta uma cidade próxima, ou se tiver um GPS.

1- Consiga a longitude (só a longitude) neste link
2- Insira a longitude e cheque a hora (por aqui estamos no horário de basília-buenos aires) neste site de calculos (tá em inglês, mas gente são os pontos de abertura dos 8 canais, se você não sabe isso, não tente fazer em casa sozinho).
3- Clique e gere um mapa de aberturas horárias (dê descontos de horário de verão)
4- Se você não sabe ou intui ou sente o que são ramos e troncos celestiais, use a sua intenção (yi) e faça o melhor possível, use em você primeiro o tratamento e abra-se para o mistério e reencantamento das energias do alto.
5- Ainda não convencido, leia o artigo do pubmed que mostra como essa técnica celestial é melhor que antidepressivos.
Os pontos da tartaruga mística ou encantada como prefiro, LingGuiBaFa estão na coluna da direita.
9 – 11 – 2011 – Pra quem está achando que vai se preparar para o novo tempo em 2012, aviso que a mudança só chega pra quem já mudou, seja a mudança que você quer ver no mundo e pare de espalhar miséria ao redor com esperanças de fim dos tempos. Os tempos terminam no instante do acontecimento, da cura e do encontro aí viveremos no agora.
Pra os que também oram ao tempo mais um presente.
Por que precisamos do ENAPEA – ENCONTRO NACIONAL DE PROFISSIONAIS E ESTUDANTES DE ACUPUNTURA
10/10/11
ninguém ensina ninguém e ninguém aprende sozinho.
Paulo Freire
O encontro é o sentido da minha prática clínica, aqui, todos os dias, cuidamos para que a vitalidade e encontre seu livre fluxo que chamamos vida. É sempre e mais diante do mistério, do não-saber, da falta de sentido que nos movimentamos na vida, que seguimos em frente e buscamos o encontro e o cuidado com o outro. Essa a minha prática e coerente com ela se faz acreditar na possibilidade do diálogo sincero de uma busca de compreensão da “multiversidade” de pontos de vista.
Encontros como ENAPEA, raros e preciosos, nos permitem encontros reais, olho no olho, respirar junto com o outro em busca de um alento e um sopro que nos seja comum, um texto, uma voz, uma palavra de conciliação e de acordo que apazigue o medo e a desconfiança que a internet provoca, sabemos bem.
Dizem que a internet é a “forma mais fácil de fazer inimigos sem sair de casa”. Mas não é só isso, ela pode facilitar o encontro e como facilitadora, como meio, como rede ela é muito poderosa e revolucionária. Como então vencer essa barreira das telas facilitando um encontro real e espontâneo, em que as respostas encontram o coração de todos os presentes e podem assim mandar um recado online para todo o país?
Você que lê esse meu texto pode não concordar, mas se ouvisse a música suave que toca e meus olhos transbodando de esperança de que possamos calar as nossas discordâncias e nos abrir para o encontro, ao menos mais sincero, você encontraria com mais facilidade todos os pontos que temos em comum, que convergem no mesmo caminho.
Então porque precisamos do ENAPEA?
Começo dizendo que eu preciso do ENAPEA porque quero encontra meus amigos profissionais e estudantes dessa nossa arte tão simples antiga e ao mesmo tempo tão nova, nascente e pueriu aqui no Brasil.
Também preciso do ENAPEA para aprender com quem pensa diferente de mim, para procurar não tanto convencer mas compreender, não tanto ter certezas mas formular novas questões, mais inteligentes e inclusivas de outras perspetictivas. Relembrar que sei pouco, mas que infelizmente tem muita gente que sabe bem menos que acha que sabe tudo e isso é ruim para todos.
E você, você precisa do ENAPEA? Talvez precise porque os ambientes virtuais são muitas vezes muito áridos e pouco acolhedores e a acupuntura que tem tudo para se afirmar como um campo novo de pesquisas e avanços e que tem tanto a oferecer a esfera pública de serviços de saúde acaba sendo subestimada por grupos profissionais que defendem seus interesses particulares e isso mais cedo ou mais tarde vai prejudicar a todos.
Talvez você também precise, talvez porque somos um grupos com muito em comum, muito mais em comum do que diferenças e podemos sentar pra consciliar nossos saberes juntos buscando o interesses coletivos e individuais em harmonia possível.
Acredito que precisamos todos do ENAPEA para nos lembrar que a nossa arte é infinita e a vida é muito breve e que se formos verdedeiros poderemos orientar nosso coração para aprender sempre.
Fico feliz de depois de mais de uma década de prática, centenas de livros e alunos poder afirmar que sei que sei quase nada sobre o tema, mas fico feliz de saber que minha disposição de estudar e aprender aumenta a cada ano que passa. Uma das principais ameaças que vivemos são os os que já estão satisfeitos com o “estado da arte” em que nos “desencontramos”, que acham que não precisamos de uma graduação ou de mestrados e doutorados para aperfeiçoar e levar adiante esse legado das diversas tradições.
Por fim, precisamos do ENAPEA porque somos apaixonados por essa ato essencial de cuidar e precisamos cuidar desse saber não apenas para nós, mas para as para as futuras gerações.
No ENAPEA fazemos, construimos e conspiramos pela Acupuntura – patrimônio da humanidade, direito de todos.
Infelizmente as inscrições presenciais para o ENAPEA – Niterói estão encerradas pois temos um espaço limitado, mas preferimos limitar o espaço e abrir para a sua incrição online através de teleconferência e assim fazer desse encontro um encontro nacional. Participe, envie suas perguntas ao vivo e contribua para o debate. Sua opinião é igualmente importante.
PARTICIPE TAMBÉM SE INSCREVA NO SITE ENAPEA NITERÓI
Gratidão à companheira Roberta Blanco e ao companheiro Ephraim Medeiros que mesmo da China colabora tanto e de forma tão solidária com o avanço da acupuntura no Brasil.
“Aos 15 anos, orientei meu coração para aprender.
Aos 30, eu plantei meus pés firmemente no chão.
Aos 40, não mais sofria de perplexidades.
Aos 50, eu sabia quais eram os preceitos do céu.
Aos 60, eu os ouvia com o ouvido dócil.
Aos 70, eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, porque o que eu desejava não mais excedia as fronteiras da Justiça”.
(Confúcio, fisósofo chinês)
Acupuntura: ciência, saber, sabedoria e arte.
04/08/11
A intenção desse texto é tentar elucidar tantas aparentes contradições naturalmente decorrentes de visões parciais e pouco acolhedoras de uma dimensão mais ampla das possibilidades do conhecimento da acupuntura.
Aqui indico uma visão integral, que tenta tomar e conciliar os paradoxos e os vazios entre as teias discursivas, as redes de sentidos e as produções científicas, esta última, pela sua própria natureza, incompleta.
Para tanto, acolher diferentes visões em uma cartografia que nos prepare a um discurso novo, pois, a minha primeira proposição é que estamos em transição. A acupuntura que conhecemos hoje, hegemonicamente MTC, sintetizada no rastro da revolução chinesa e hoje expandida no rastro do capitalismo de Estado que se pretende e se torna realmente centro do mundo. (Zhong Guo)
A acupuntura, entretanto não chegou a modernidade. Não há comprovação científica que sustente uma publicação científica relevante (1), enquanto isso o campo da fitoterapia, este sim, cresce em níveis industriais que acompanham o crescimento da gigante economia. E é preciso entender que embora esses produtos de exportação cultural tenham sido associados numa venda casada, eles não foram sempre assim. Ao contrário, as terapias orientais encontram tantos ramos, raízes e frutos que jamais conseguiríamos dar conta de aprender tudo. Diz o adágio: – A vida é breve, a arte é longa. A arte é muito mais vasta do que alcança a nossa vã filosofia, porque na China não temos filósofos, temos sábios. E a diferença entre filosofia e sabedoria é radical, tão radical quanto o oceano que divide o campo das pesquisas científicas da prática clínica e sua base fenomenológica de saber aparente e manifesto.
Para entender melhor o tamanho do que nos separa basta se perguntar, se você é acupunturista pela fonte da sua prática clínica. Qual a fonte desse seu saber? Ele vem da ciência? Existe 1% do que você pratica que tenha vindo de um conhecimento produzido cientificamente? Se for sincero e leva a sua prática a sério, no sentido de trazer resultados, ou seja, conforto e alívio em todos os níveis para seus pacientes você não se baseia em ciência (2) para fazer seus tratamentos. Você pode se basear em autores como Deadman que relaciona centenas de tratamentos clássicos, do Macioccia (que pouco funciona) porque se baseia em uma leitura da MTC orientada para fitoterapia, ou pode utilizar recursos baseados nos ensinamentos dos “laoshi”, dos anciãos, dos mestres mais velhos. E essa tradição, ou essa forma tradicional de produzir saber que nasce do encontro clínico que corresponde 99,99% do que sabemos sobre acupuntura, nasce da experiência no atendimento de milhares de pacientes ao longo dos milênios, e isso chamamos de tradição.
Os que têm muitas dúvidas são os que precisam ter muitas certezas e as evidências fenomenológicas vastas não bastarão, vão gritar aos quatro ventos: Acupuntura é científica! Estão como todos os que gritam errados. Acupuntura que você vai praticar pelas próximas décadas se você tiver sorte, terá aprendido de um mestre. Que aprendeu de outro mestre. Existem hoje livros escritos no rastro das sínteses de mestres. Temos Padilla na Espanha, temos Kiiko Matsumoto, temos os registros de Tung, Nagano, Worseley e tantos outros que fazem novas sínteses vivas, mesmo no Brasil temos o trabalho original do professor Marcelo Pereira e cito até mesmo Raul Breves pelas suas inovações. Todos centrados na prática clínica, na experiência viva da escuta da vitalidade (qi).
Acupuntura busca escutar a vitalidade, não tratar doenças (embora possa ser também encarada dessa forma), mas, ela está em ressonância com outras terapêuticas vitalistas, no sentido de promover a saúde ao promover a vitalidade (qi).
O campo da acupuntura não é idêntico ao da MTC (medicina tradicional chinesa) que se refere a síntese materialista recente. A acupuntura que cada vez mais ganha terreno próprio nas chamadas terapias de meridianos que quanto mais praticamos sabemos que guarda tantas correspondências holográficas. Seja nas mãos, nos pés, na orelha, no abdome, na face, encontramos correspondências, encontramos ressonâncias que atuam sobre o todo.
Por isso, me assombra ver a forma aguerrida como os que se proclamam profissionais da saúde, que são em geral, não por sua falta, mas consequência do modelo que estamos vivendo, profissionais da doença. Pois sabemos a saúde não dá dinheiro, não dá lucro, não movimenta a pesquisa. O que dá lucro é a doença, esse é o “negócio” dos “profissionais da saúde”.
Por isso fico feliz quando uma orientação maior das Nações Unidas declara a acupuntura e sua intuição original do sistema de meridianos de um patrimônio da humanidade. O Brasil é membro da ONU e suas resoluções embora precisem ser homologadas, são comumente citadas nas jurisprudências como fontes de direito.
Assim como monges budistas já comprovaram e descrevem a cada dia os benefícios da meditação, as máquinas, exames e testes não nos ensinam a meditar ou não nos mostram como é a experiência dos diversos níveis de consciência vivenciados pelo praticante. Assim também, mesmo que os testes venham a comprovar as hipóteses de modulação de dor, hormonais, neuronais, o que seja, ainda assim, não vão nos ensinar como praticar acupuntura, ou qual a experiência do qi, ou a surpresa que fica o paciente ao ver que sua dor no punho pode ser muito bem tratada pelo tornozelo. Para isso, basta ver, sentir e perceber, mas as nossas inteligências múltiplas talvez um dia se some a inteligência do qi, a capacidade e competência para mover o sopro, que não estará nunca na tela de um monitor ou nas páginas dos “papers” que virão. A isso, chamamos espírito da transmissão da nossa arte.
Sintetizo de forma simples. Acupuntura ainda não é ciência, pois não é a ciência que orienta a sua terapêutica, sua prática e as expectativas das milhares de pessoas no mundo inteiro que descobriram que podem ter também economia buscando uma terapia simples e efetiva como a acupuntura, deixando para trás as indústrias farmacêuticas e seus revendedores. Talvez um dia, ela possa ser científica, mas aí não precisaremos de acupunturistas, teremos roupas, como escreveu anos atrás o companheiro Ephraim no fórum, que irão automaticamente regular os meridianos do corpo. Aí, talvez possamos viver mais de 120 anos e teremos tempo de aprender tudo que deixamos para trás em nome da ciência.
Mário Fialho
Acupunturista, Pratica e Ensina acupuntura na www.multiversidade.com
Você pode ler outros de seus artigos em seu www.blog.mariofialho.com
Referências
Filme: O violino vermelho – ilustra o impacto da revolução cultural
Ephrain in Comunidade do Orkut: Discutindo Acupuntura
Um sábio não tem ideas – François Jullien
Martin Heidegger – A era da técnica
SOUZA, Eduardo Frederico Alexander Amaral de; LUZ, Madel Therezinha. Análise crítica das diretrizes de pesquisa em medicina Chinesa. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro,v.18, n.1, jan.-mar. 2011, p.155-174.
Notas:
(1) Claro que existem comprovações científicas para a acupuntura mas ela não orienta a prática, porque a ciência busca um mínimo possível. Não é baseado numa publicação científica que um praticante elege seus pontos, ele continua fazendo, e por isso acupuntura é uma arte e tradição que decorre da experiência clínica do ensinamento dos mestres.
(2) Nos referimos aqui a ciência no sentido da metodologia aplicada para testes e verificações de resultados típicos da farmacologia e da biomedicina como testes clínicos controlados e laboratoriais que pela sua natureza de “controle” nos dá uma visão muito estreita da realidade múltipla da clínica em acupuntura.
Acupuntura livre – como aprender acupuntura?
21/02/11
Acupuntura livre – como aprender acupuntura?
O tema da acupuntura no Brasil tem três instâncias importantes a serem compreendidas. Uma primeira de ordem legal, que é a mais simples, mas ao mesmo tempo problemática no que tange a formação da opinião pública e a forma autocrática como os médicos, atuando em benefício próprio, mentem e enganam a população. A segunda é a natureza da prática da acupuntura no contexto do saber científico e dos dilemas da sua prática e saberes enquanto arte e saber tradicional. O terceiro tema são as formações e sua tarefa árdua.
I- Da ordem jurídica
Natureza da acupuntura: Sociologicamente podemos compreender a acupuntura como uma prática de promoção da saúde, prevenção e terapêutica, cuja prática não oferece, em termos estatísticos da organização mundial de saúde, riscos à saúde.
Juridicamente: A acupuntura é considerada no brasil uma ocupação, a importância de ter esse reconhecimento como ocupação é apenas de ordem tributária, para o recolhimento de imposto devido da atividade.
Princípio da legalidade: O artigo 5º,II da CF explicita o princípio, “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Isso quer dizer que enquanto não houver uma regulamentação que poderá restringir quem pode ou não fazer acupuntura no Brasil, todos os brasileiros e brasileiras podem praticar acupuntura livremente.
Especialidade: Especilidade é um reconhecimento de cada conselho de classe que pode ou não dar aos seus membros esse título, é uma regulamentação interna corporis e nada diz respeito ao cidadão comum, mas esses profissionais de saúde, que deveriam ser fiscalizados pelos seus conselhos, no exercício da sua atividade profissional regulamentada. Não são todos os conselhos que reconhecem o título de especialista, o de psicologia simplesmente autoriza a prática pelos seus profissionais no exercício das sua atividade como prática complementar.
Conselhos que reconhecem a prática dos seus membros: COFFITO (Fisioterapia e Terapia Ocupacional); CFM (medicina); COFEN (enfermagem); CFFa (fonoaudiologia); CFF (farmácia); CFP (psicologia); e CFBM (biomedicina). Isso não quer dizer que esses profissionais tenham, qualquer um deles, uma prevalência sobre os leigos, técnicos e outros que pratiquem acupuntura, simplesmente quer dizer que no exercício da sua profissão, podem fazê-lo.
Em resumo, quem pode fazer acupuntura no Brasil? Todos que se sintam capazes para tal, não é o estado ou sua instituição de ensino que lhe dá esse direito, no momento é um DIREITO DE TODOS.
Interesse público: É de interesse público a regulamentação da acupuntura? Pois é o interesse público que deve orientar o legislador na sua atividade. Não me parece que seja de interesse público por dois motivos: não há risco da prática, segundo a OMS, se a regulamentação viesse deveria visar assegurar a qualidade da formação, no sentido de garantir uma formação básica aos praticantes através de um exame de qualidicação.
Exame de qualificação: Embora advogados tenham que fazer prova para atuar no campo jurídico, ou seja protegendo o patrimônio da população a maior parte das vezes, ainda não ficou claro para a população a importância dos profissionais de saúde terem um mínimo exigido na sua formação. Faculdades particulares tem simplesmente vendido diplomas para todas as áreas da saúde como políticas claras de não reprovação de alunos-clientes.
II- Da questão epistemológica
Natureza do saber: A questão do conhecimento é ainda mais complexa, mas em linhas gerais, precisamos lembrar que o saber que orienta as práticas humanas em geral não fazem parte da formação da biomedicina, tratando de categorias e intuições que embora orientem a prática clínica, não podem ser cientificamente comprovadas. Ex. (qi, jing, shen).
Método científico: 99% dos saberes que orientam a prática da acupuntura tem raízes milenares, anteriores ao surgimento do método científico ou do pensamento cartesiano. Isso não quer dizer que esse saber não seja válido ou que haja evidências dos seus resultados, mas não sabemos “como funciona”. E as hipóteses atuais estão longe de explicar a abrangência da atuação da acupuntura.
Ciência médica: Medicina já foi considerada uma arte, hoje em dia o conhecimento reproduzível e testável laboratorialmente são hegemônicos e quase sempre os únicos reconhecidos. Assim sendo, sob orientação estrita da biomedicina na sua formação, deveriam médicos e outros profissionais da saúde trabalhar com acupuntura?
III – A formação em acupuntura
Aprendizagem tradicional: Muitas escolas de acupuntura, japonesa, coreana, chinesa e tantas ramificações são praticadas de forma familiar e ensinadas dentro de pequenos grupos. Essa forma, milenarmente testadas e legitimada é muitas vezes a melhor forma de aprender, mas infelizmente, raros são os que tem a sorte de uma formação dessa natureza.
Autodidatismo: Embora a prática da acupuntura tenha um componente arte, que se transmite com cuidado na ajuda de um profissional mais experiente, nada impede que você possa aprender e se auto-aducar em acupuntura. Até uma década atrás, existiam pouquíssimo livros em português e muitos aprenderam em livros por tentativa e erro e hoje são grandes profissionais.
Cursos livres: como o exercício da acupuntura é livre, existem cursos livres de formação, como o que ofereço.
Cursos de especialização lato sensu: A especialização não faz parte do Sistema Regular de Ensino no Brasil, não sendo avaliada pelos sistemas Capes e CNPq, mas pode, no caso do reconhecimento profissional do graduado, conceder-lhe o título de especialista.
Mestrados e doudorados: mesmo não tendo uma graduação em acupuntura ou medicina chinesa, existem diversas pessoas que seguem estudando o tema da acupuntura em nível de mestrado e doutorado.
Graduação: Apesar de ser a orientação da organização mundial de saúde, não temos ainda uma graduação de acupuntura ou medicina tradicional oriental no Brasil. Esse, entendemos é o caminho fértil para o aprofundamento e a pesquisa no futuro.
Atualmente: Temos formações boas e ruins de toda sorte, por isso o aluno deve buscar estudar sempre e buscar referências de profissionais que realmente sejam praticantes e qual foi a sua formação. Muita propaganda e muitos alunos não quer dizer que formação é boa por si só. Vivemos na era do marketing e embora não tenha abordado os aspectos comerciais da prática da acupuntura, para muitos ela se tornou a venda de certificados e de garantias, fomentando a insegurança e ignorância da população e até dos praticantes.
As questões que permanecem são:
Precisamos de uma regulamentação? Em que termos? Uma que limite a prática aos de nível superior? Aos médicos? Ou uma que oriente a população a assumir esses saberes tradicionais nos seus cuidados básicos da saúde e promoção social, como agentes de saúde, ”médicos de pés descalços”, terapeutas, técnicos, leigos, profissionais de todos os níveis incorporando a acupuntura como uma medicina do futuro, simples, barata, livre e PARA TODOS que queiram praticar e receber seus benefícios.
O que é acupuntura integral?
15/02/11
O que é acupuntura integral?
Acupuntura Integral é uma prática de acupuntura segundo uma visão integral. Por isso, precisamos apresentar o que é uma visão integral.
Visão integral é uma orientação que pode ser sintetizada em uma frase: “Está todo mundo certo.”. Só que as pessoas estão certas nos seus níveis de consciência e na sua capacidade de, em alcançando níveis de consciência mais elevados, assumir uma postura mais inclusiva na sua visão.
O que são níveis de consciência mais elevados?
Desde Piaget, sabemos bem que as crianças e adultos tem níveis de maturação do seu aparato psíquicos e cognitivo. Uma grande transformação de sua inteligência ocorre quando num determinado momento ela consegue ver a “perspectiva do outro”. Ou seja, apresentamos a ela um papel de um lado azul e do outro rosa, e ao perguntar que cor ela está vendo, ela, percebendo o azul, responde azul, e ao perguntar que cor está do outro lado – sendo vista apenas pelo entrevistador – ela responde rosa. Ou seja, ela conseguiu responder não sobre a cor que ela via, mas conseguiu incluir uma nova perspectiva. Essa capacidade de perceber novos pontos de vista, que se manifesta normalmente aos 4 anos de idade.
E como esse teste de Piaget nos ajuda a compreender a acupuntura integral?
Quando percebemos que todos os entendimentos parciais da acupuntura, seja a acupuntura médica ou científica, a acupuntura chinesa moderna MTC, a acupuntura taoísta, a acupuntura japonesa não são melhores ou piores que a outra. Na verdade cada uma privilegia uma forma de se aproximar do tema. Aliás, para compreender a acupuntura, precisamos de pronto, vê-la muito além de uma simples técnica de aplicação de agulhas em pontos.
Esse olhar que compreende a visão objetiva da ciência, a visão sociológica da acupuntura entre as racionalidades médicas, a acupuntura comunitária, os temas de ordem pública e legais no entendimento cooperativo das práticas e saberes, as visões fenomenológicas das práticas clínicas em geral, as leituras antropológicas e etnobotânicas, entender além que como tema de milhares de anos de história, a acupuntura sempre foi influenciada por budistas, taoístas e confuncionistas; curandeiros, médiuns e sacerdotes e hoje podemos dizer, com uma leitura cristã de como traduzimos a acupuntura moderna. Tudo isso, e muito mais, precisa ser considerado para uma visão mais ampla capaz de nos tornar menos duros nas nossas certezas e menos convictos dos nossos saberes reduzidos pela ciência.
Assim, a visão integral e uma acupuntura integral não é exatamente uma técnica mas uma atitude clínica de humildade e inclusão de todas as visõesm de todos os paradoxos. Uma visão integral nos faz ser capazes de reler os clássicos de acupuntura e sem os reducionismos que encontramos na literatura que busca comprovações empíricas e ceifa a acupuntura dos seus horizontes de sentido que lhes deram terreno fértil para crescer e se diversificar por dezenas de nações e centenas de diferentes e tantos e tantos mestres e suas linhagens.
A visão integral nos convoca a conciliar os paradoxos e com isso nos torna mais inteligentes por um lado, mas também mais compassivos na nossa capacidade incluir mais e mais entendimentos. Em chinês dizemos vem, vem, vem, acrescente! Lai, lai, lai!
Nesse campo, não há disputas por espaços entre especialismos, mas uma capacidade sistêmica de incluir todos os saberes parciais dos especialismos numa legítima visão integrada que o terreno fértil da tradição terapêutica que herdamos da dinastia Han onde a astronomia, a fitoterapia, o governo, a religião, as artes e a medicina compartilharam uma visão unificadora. Assim, muitos dos conceitos de uma área de saber eram transportados para outra numa busca de integração política e cultural.
Mas uma acupuntura integral depende fundamentalmente de um acupunturista com essa visão, que é um estado de desenvolvimento da consciência. De evolução, assim, as práticas integrativas de saúde que emergem da intuição desses indivíduos com essa visão integral são difíceis de serem entendidas por quem ainda pensa com um pensamento moderno e padece, como quase todos, de um olhar cartesiano e metafísico, tanto na compreensão como na linguagem. Apesar disso, precisamos estender nossas pontes de sentidos, abrir nossa mente para a compreensão mais do que a explicação.
E qual a expressão dessa compreensão? A partir de uma visão mais integrada, começamos a perceber que nossa filosofia, nossas teorias, nossas ideias precisam se converter não apenas em palavras mas em práticas congruentes. Que o que pensamos se torna o que fazemos e o que fazemos o que somos-no-mundo.
Assim, como diziam os antigos, os que sabem apenas a arte da medicina, não sabem medicina.
Uma acupuntura integral te convida e entrar no coração do “caminho”. A cultivar e a pratica qi gong, não para “curar” melhor seu paciente, mas para se “tornar a cura” para nossos pacientes, relembrando a célebre frase, “torne-se mudança que você quer ver no mundo” . Assim, nós transmitimos aos pacientes e lhes lembramos que não precisamos estar doentes, que não precisamos de um acupunturista pra sempre, que podem eles também, encontrar um espaço amplo de saúde sentando e meditando. (e não se preocupem, a tarefa é grande, não vão ficar sem pacientes os mais incautos
Por fim, uma acupuntura integral considera o homem nos seus aspecto biopsicossocial, mas também somático psíquico e noético, porque se os gregos nos deram tanto a dividir e classificar e catalogar e filosofar, os orientais nos lembram que tudo é um, tai yi, que os céus e as estrelas se refletem em pontos de luz nos corpos, que vales e rios correm em nossas veias, que as estrelas brilham em cantos do corpo e que tudo ressoa em busca de harmonia e evolução.
Wu wei, uma não-ação é a melhor ação, o bom combate e desviar-se e abrir-se para o claro e o escuro, para integração da luz e da sombra, do fogo e da água, céu e da terra.
Tudo muito antigo, tudo muito novo, assim é a acupuntura integral, que fundamentalmente informa uma prática integral de vida, uma atitude compassiva por todos os saberes parciais e principalmente por valorizar as perguntas e as incertezas mais do que as respostas que já temos.
Pra compartilhar e lembrar-me de tudo isso e muito mais que nascerá do encontro é que eu ofereço mais um curso em 2011 de acupuntura integral começando em 12 de março na multiversidade.
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Diz o poeta em síntese
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.Fernando Pessoa
Tratamento dor de cabeça pela MTC Medicina Tradicional Chinesa Acupuntura
12/02/11
Tratamento Dor de cabeça de acordo com a Medicina Tradicional Chinesa com Acupuntura
Padrões de desarmonia / Diagnóstico:
1. Vento Exterior / ataque frio
a) Manifestações Clínicas
- recentes, de curta duração.
- geralmente com cefaléia com rigidez occipital e na nuca.
- dor aguda lateral poderia indicar o Fogo do Fígado,
- dor aguda na frontal poderia indicar calor no estômago.
- umidade dor de cabeça fraca na testa com sensação de cabeça pesada.
- sal em excesso pode levar a dor de cabeça em toda a cabeça ou occipital.
- alimentos azedo pode afetar o fígado.
b. Pulso: flutuante e apertado (em corda) ou lento
Língua: desviada
c. Princípios de tratamento: Liberar o Exterior
d. Plano de Tratamento
- Principais pontos: P7, IG4, VG20, DU16, B10/13
- Apoio: DU20, ID3/B62, B60, 66/67 e DU8
Recomendações aos pacientes:
- Atenção ao que agrava o sintoma e gatilhos da dor.
2. Qi ou deficiência de Yang
a. Manifestações Clínicas
- Pior com a atividade e tempo frio.
- Geralmente pior durante o dia dor mais amena.
- Dores de cabeça crônicas frequentemente são devido à deficiência de Yang Qi ou umidade.
- Se dor de cabeça melhora com a alimentação, isso indica deficiência de Qi ou de sangue.
b. Pulse: Yang Deficiência: lento, fraco, vazio
Língua: pálida, inchada, cobertura molhada e grande
Pulso: Qi Deficiência: vazio, fraco
Língua: fino e / ou estreitos, flácida ou mole
c. Princípios de tratamento: tonificar o Qi e o Yang
d. Plano de Tratamento
Pontos de tratamento para Deficiência de Yang: VC4, DU4 (moxa), DU20, E12, DU14, R7
Pontos de tratamento para Deficiência de Qi : BP6, E36, CV6, 12, B20, 23, CV17, Pontos Fonte
3. Yin ou deficiência de sangue
a. Manifestações Clínicas:
- Pior ao anoitecer ou de madrugada
- Geralmente uma dor mais branda
- Pode piorar com a atividade e melhorar com o repouso, se for deficiencia de sangue
- Se melhora com a alimentação, isso indica deficiência de Qi ou deficiência de sangue.
- Se piora no final da menstruação pode indicar deficiência de sangue
- Pressão no local da dor é agradável
b. Pulse: Deficiência de sangue: fraco, fino, irregular
Língua: pálida seca, camada fina, flácida ou mole
Pulso: Deficiência de Yin: vazio, rápido
Língua: rachaduras horizontais ou geográfica, seca, fina, estreita
c. Princípios de tratamento: tonificar sangue e nutrir o yin
d. Plano de Tratamento
- tonificar o sangue: BP4, 6,10, E36, R6, VC4, F8
- Deficiência de Yin: BP6, R6, VC3 ou 4, Pontos Shu
4. Deficiência de Qi e do Sangue
a. A manifestação clínica
- Dor de cabeça duradoura
- Tonturas
- Visão embaçada
- Lassitude
- Rosto sem brilho
- Dor aliviada pelo calor e agravada pelo frio
- Piora com excesso de esforço
- Melhor com descanso
b. pulso: fraco
Língua: pálida, camada branca fina
c. Princípios de tratamento: tonificar o Qi e nutrir o sangue, fazer com que o qi puro ascenda
d. Plano de Tratamento: DU20, VC6, B18, 20, 23, E36
5. Estagnação do sangue
a. Manifestações Clínicas
- Dor aguda como em facada e fixa.
- Dor piora durante a menstruação
b. Pulso: áspero, duro
Língua: azulada ou roxa manchas roxas
c. Princípios de tratamento: Revigorar o sangue / resolver a estase
d. Plano de Tratamento: BP6/10, IG4, B17, R3, E36
6. Umidade ou Fleuma obstruindo a cabeça
a. Manifestações Clínicas
-Peso na cabeça
- Piora em tempo úmido
- Dificuldade em se concentrar e pensar especialmente no período da manhã
- Piora ainda quando deitado
- A umidade pode levar a dores de cabeça crônicas.
b. Pulso: deslizante
Língua: deslizante e com cobertura gordurosa
c. Princípio de Tratamento: Transformar, dissolver ou expelir a fleuma
d. Plano de Tratamento: BP9, E28, 40, B20, 21, 39, VC3, 6, 9, 12
7. Retenção de Fleuma e Umidade
a. Manifestações Clínicas
- Dor de cabeça com tontura ou sensação de peso e de “névoa” na cabeça.
- Sensação sufocante no peito
- Distensão epigástrica
- Falta de apetite
- Náuseas
- Vômito de catarro e saliva
- Fezes soltas
b. Pulso: deslizante
Língua: branca, oleosa, camada espessa
c. Tratamento Princípio: dissolver o catarro (fleuma), descer o Qi turva e aliviar a dor
d. Plano de Tratamento: VC12, E36, E40, IG4, DU20, Yintang
8. Ascenção do Yang do Fígado ou Fogo do Fígado
a. Manifestações Clínicas
- Dor de cabeça
- Visão turva
- Dor severa nas laterais ou de um lado da cabeça
- Rubor facial
- Início recorrentes
- Resulta frequentemente em alteração emocional
- Irritabilidade ou agitação
- Gosto amargo na boca
- zumbido, insônia = deficiência de Yin
- Dor de cabeça crônica com rigidez no pescoço e ombros
- Pode ser pior à noite (devido à deficiência de yin subjacente)
- Piora ainda com o calor e pode melhorar (temporariamente) com bolsa de gelo
- Piora com a raiva e também quando, relaxamento ou excitação súbidos
- Se melhorar com a atividade sexual, isso indica fogo do fígado
- Se a dor de cabeça apresenta no início da menstruação, é geralmente do Yang do Fígado Rising
- Se dor piora durante o período pode ser o Fogo do Fígado.
b. Pulso: cheio, em corda, rápido
Língua: vermelha, especialmente nos lados, cobertura amarela
Princípios de Tratamento: acalmar o fígado, controlar o yang
d. Plano de Tratamento: F2, 3, IG4, VB20, F14
Combinações de pontos:
Dor de cabeça Occipital (Tai Yang) : VB20, B60, ID3, B10,
Dor de cabeça Frontal (Yang Ming) : E8, Yintang, DU23, IG4, E44, VB14
Dor de cabeça Temporal (Shao Yang) : Taiyang, VB8, TA5, VB41
Dor de cabeça Parietal (TAI / Jue Yin Yang) : DU20, ID3, B67, F3
Fontes:
1. Os Fundamentos da Medicina Chinesa, Giovanni Maciocia
2. A Prática da Medicina Chinesa, Giovanni Maciocia








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