Acupuntura

Por que precisamos do ENAPEA – ENCONTRO NACIONAL DE PROFISSIONAIS E ESTUDANTES DE ACUPUNTURA


ninguém ensina ninguém e ninguém aprende sozinho.
Paulo Freire

O encontro é o sentido da minha prática clínica, aqui, todos os dias, cuidamos para que a vitalidade e encontre seu livre fluxo que chamamos vida. É sempre e mais diante do mistério, do não-saber, da falta de sentido que nos movimentamos na vida, que seguimos em frente e buscamos o encontro e o cuidado com o outro. Essa a minha prática e coerente com ela se faz acreditar na possibilidade do diálogo sincero de uma busca de compreensão da “multiversidade” de pontos de vista.

Encontros como ENAPEA, raros e preciosos,  nos permitem encontros reais, olho no olho, respirar junto com o outro em busca de um alento e um sopro que nos seja comum, um texto, uma voz, uma palavra de conciliação e de acordo que apazigue o medo e a desconfiança que a internet provoca, sabemos bem.

Dizem que a internet é a “forma mais fácil de fazer inimigos sem sair de casa”. Mas não é só isso, ela pode facilitar o encontro e como facilitadora, como meio, como rede ela é muito poderosa e revolucionária.  Como então vencer essa barreira das telas facilitando um encontro real e espontâneo, em que as respostas encontram o coração de todos os presentes e podem assim mandar um recado online para todo o país?

Você que lê esse meu texto pode não concordar, mas se ouvisse a música suave que toca e meus olhos transbodando de esperança de que possamos calar as nossas discordâncias e nos abrir para o encontro, ao menos mais sincero, você encontraria com mais facilidade todos os pontos que temos em comum, que convergem no mesmo caminho.

Então porque precisamos do ENAPEA?

Começo dizendo que eu preciso do ENAPEA porque quero encontra meus amigos profissionais e estudantes dessa nossa arte tão simples antiga e ao mesmo tempo tão nova, nascente e pueriu aqui no Brasil.

Também preciso do ENAPEA para aprender com quem pensa diferente de mim, para procurar não tanto convencer mas compreender, não tanto ter certezas mas formular novas questões, mais inteligentes e inclusivas de outras perspetictivas. Relembrar que sei pouco, mas que infelizmente tem muita gente que sabe bem menos que acha que sabe tudo  e isso é ruim para todos.

E você, você precisa do ENAPEA? Talvez precise porque os ambientes virtuais são muitas vezes muito áridos e pouco acolhedores e a acupuntura que tem tudo para se afirmar como um campo novo de pesquisas e avanços e que tem tanto a oferecer a esfera pública de serviços de saúde acaba sendo subestimada por grupos profissionais que defendem seus interesses particulares e isso mais cedo ou mais tarde vai prejudicar a todos.

Talvez você também precise, talvez porque somos um grupos com muito em comum, muito mais em comum do que diferenças e podemos sentar pra consciliar nossos saberes juntos buscando o interesses coletivos e individuais em harmonia possível.

Acredito que precisamos todos do ENAPEA para nos lembrar que a nossa arte é infinita e a vida é muito breve e que se formos verdedeiros poderemos orientar nosso coração para aprender sempre.

Fico feliz de depois de mais de uma década de prática, centenas de livros e alunos poder afirmar que sei que sei quase nada sobre o tema, mas fico feliz de saber que minha disposição de estudar e aprender aumenta a cada ano que passa. Uma das principais ameaças que vivemos são os os que já estão satisfeitos com o “estado da arte” em que nos “desencontramos”, que acham que não precisamos de uma graduação ou de mestrados e doutorados para aperfeiçoar e levar adiante esse legado das diversas tradições.

Por fim, precisamos do ENAPEA porque somos apaixonados por essa ato essencial de cuidar e precisamos cuidar desse saber não apenas para nós, mas para as para as futuras gerações.

No ENAPEA fazemos, construimos e conspiramos pela Acupuntura –  patrimônio da humanidade, direito de todos.

Infelizmente as inscrições presenciais para o ENAPEA – Niterói estão encerradas pois temos um espaço limitado, mas preferimos limitar o espaço e abrir para a sua incrição online através de teleconferência e assim fazer desse encontro um encontro nacional.  Participe, envie suas perguntas ao vivo e contribua para o debate. Sua opinião é igualmente importante.

PARTICIPE TAMBÉM SE INSCREVA NO SITE ENAPEA NITERÓI

Gratidão à companheira Roberta Blanco e ao companheiro Ephraim Medeiros que mesmo da China colabora tanto e de forma tão solidária com o avanço da acupuntura no Brasil.

“Aos 15 anos, orientei meu coração para aprender.

Aos 30, eu plantei meus pés firmemente no chão.

Aos 40, não mais sofria de perplexidades.

Aos 50, eu sabia quais eram os preceitos do céu.

Aos 60, eu os ouvia com o ouvido dócil.

Aos 70, eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, porque o que eu desejava não mais excedia as fronteiras da Justiça”.

(Confúcio, fisósofo chinês)

acupuncture of back

Acupuntura: ciência, saber, sabedoria e arte.

A intenção desse texto é tentar elucidar tantas aparentes contradições naturalmente decorrentes de visões parciais e pouco acolhedoras de uma dimensão mais ampla das possibilidades do conhecimento da acupuntura.

Aqui indico uma visão integral, que tenta tomar e conciliar os paradoxos e os vazios entre as teias discursivas, as redes de sentidos e as produções científicas, esta última, pela sua própria natureza, incompleta.

Para tanto, acolher diferentes visões em uma cartografia que nos prepare a um discurso novo, pois, a minha primeira proposição é que estamos em transição. A acupuntura que conhecemos hoje, hegemonicamente MTC, sintetizada no rastro da revolução chinesa e hoje expandida no rastro do capitalismo de Estado que se pretende e se torna realmente centro do mundo. (Zhong Guo)

A acupuntura, entretanto não chegou a modernidade. Não há comprovação científica que sustente uma publicação científica relevante (1), enquanto isso o campo da fitoterapia, este sim, cresce em níveis industriais que acompanham o crescimento da gigante economia. E é preciso entender que embora esses produtos de exportação cultural tenham sido associados numa venda casada, eles não foram sempre assim. Ao contrário, as terapias orientais encontram tantos ramos, raízes e frutos que jamais conseguiríamos dar conta de aprender tudo. Diz o adágio: – A vida é breve, a arte é longa. A arte é muito mais vasta do que alcança a nossa vã filosofia, porque na China não temos filósofos, temos sábios. E a diferença entre filosofia e sabedoria é radical, tão radical quanto o oceano que divide o campo das pesquisas científicas da prática clínica e sua base fenomenológica de saber aparente e manifesto.

Para entender melhor o tamanho do que nos separa basta se perguntar, se você é acupunturista pela fonte da sua prática clínica. Qual a fonte desse seu saber? Ele vem da ciência? Existe 1% do que você pratica que tenha vindo de um conhecimento produzido cientificamente?  Se for sincero e leva a sua prática a sério, no sentido de trazer resultados, ou seja, conforto e alívio em todos os níveis para seus pacientes você não se baseia em ciência (2) para fazer seus tratamentos. Você pode se basear em autores como Deadman que relaciona centenas de tratamentos clássicos, do Macioccia (que pouco funciona) porque se baseia em uma leitura da MTC orientada para fitoterapia, ou pode utilizar recursos baseados nos ensinamentos dos “laoshi”, dos anciãos, dos mestres mais velhos. E essa tradição, ou essa forma tradicional de produzir saber que nasce do encontro clínico que corresponde 99,99% do que sabemos sobre acupuntura, nasce da experiência no atendimento de milhares de pacientes ao longo dos milênios, e isso chamamos de tradição.

Os que têm muitas dúvidas são os que precisam ter muitas certezas e as evidências fenomenológicas vastas não bastarão, vão gritar aos quatro ventos: Acupuntura é científica! Estão como todos os que gritam errados. Acupuntura que você vai praticar pelas próximas décadas se você tiver sorte, terá aprendido de um mestre. Que aprendeu de outro mestre. Existem hoje livros escritos no rastro das sínteses de mestres. Temos Padilla na Espanha, temos Kiiko Matsumoto, temos os registros de Tung, Nagano, Worseley e tantos outros que fazem novas sínteses vivas, mesmo no Brasil temos o trabalho original do professor Marcelo Pereira e cito até mesmo Raul Breves pelas suas inovações. Todos centrados na prática clínica, na experiência viva da escuta da vitalidade (qi).

Acupuntura busca escutar a vitalidade, não tratar doenças (embora possa ser também encarada dessa forma), mas, ela está em ressonância com outras terapêuticas vitalistas, no sentido de promover a saúde ao promover a vitalidade (qi).

O campo da acupuntura não é idêntico ao da MTC (medicina tradicional chinesa) que se refere a síntese materialista recente. A acupuntura que cada vez mais ganha terreno próprio nas chamadas terapias de meridianos que quanto mais praticamos sabemos que guarda tantas correspondências holográficas. Seja nas mãos, nos pés, na orelha, no abdome, na face, encontramos correspondências, encontramos ressonâncias que atuam sobre o todo.

Por isso, me assombra ver a forma aguerrida como os que se proclamam profissionais da saúde, que são em geral, não por sua falta, mas consequência do modelo que estamos vivendo, profissionais da doença. Pois sabemos a saúde não dá dinheiro, não dá lucro, não movimenta a pesquisa. O que dá lucro é a doença, esse é o “negócio” dos “profissionais da saúde”.

Por isso fico feliz quando uma orientação maior das Nações Unidas declara a acupuntura e sua intuição original do sistema de meridianos de um patrimônio da humanidade. O Brasil é membro da ONU e suas resoluções embora precisem ser homologadas, são comumente citadas nas jurisprudências como fontes de direito.

Assim como monges budistas já comprovaram e descrevem a cada dia os benefícios da meditação, as máquinas, exames e testes não nos ensinam a meditar ou não nos mostram como é a experiência dos diversos níveis de consciência vivenciados pelo praticante. Assim também, mesmo que os testes venham a comprovar as hipóteses de modulação de dor, hormonais, neuronais, o que seja, ainda assim, não vão nos ensinar como praticar acupuntura, ou qual a experiência do qi, ou a surpresa que fica o paciente ao ver que sua dor no punho pode ser muito bem tratada pelo tornozelo. Para isso, basta ver, sentir e perceber, mas as nossas inteligências múltiplas talvez um dia se some a inteligência do qi, a capacidade e competência para mover o sopro, que não estará nunca na tela de um monitor ou nas páginas dos “papers” que virão. A isso, chamamos espírito da transmissão da nossa arte.

Sintetizo de forma simples. Acupuntura ainda não é ciência, pois não é a ciência que orienta a sua terapêutica, sua prática e as expectativas  das milhares de pessoas no mundo inteiro que descobriram que podem ter também economia buscando uma terapia simples e efetiva como a acupuntura, deixando para trás as indústrias farmacêuticas e seus revendedores. Talvez um dia, ela possa ser científica, mas aí não precisaremos de acupunturistas, teremos roupas, como escreveu anos atrás o companheiro Ephraim no fórum, que irão automaticamente regular os meridianos do corpo. Aí, talvez possamos viver mais de 120 anos e teremos tempo de aprender tudo que deixamos para trás em nome da ciência.

Mário Fialho
Acupunturista, Pratica e Ensina acupuntura na www.multiversidade.com

Você pode ler outros de seus artigos em seu www.blog.mariofialho.com

Referências

Filme: O violino vermelho – ilustra o impacto da revolução cultural
Ephrain in Comunidade do Orkut:  Discutindo Acupuntura
Um sábio não tem ideas – François Jullien
Martin Heidegger – A era da técnica
SOUZA, Eduardo Frederico Alexander Amaral de; LUZ, Madel Therezinha. Análise crítica das diretrizes de pesquisa em medicina Chinesa. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro,v.18, n.1, jan.-mar. 2011, p.155-174.

Notas:

(1) Claro que existem comprovações científicas para a acupuntura mas ela não orienta a prática, porque a ciência busca um mínimo possível. Não é baseado numa publicação científica que um praticante elege seus pontos, ele continua fazendo, e por isso acupuntura é uma arte e tradição que decorre da experiência clínica do ensinamento dos mestres.

(2) Nos referimos aqui a ciência no sentido da metodologia aplicada para testes e verificações de resultados típicos da farmacologia e da biomedicina como testes clínicos controlados e laboratoriais que pela sua natureza de “controle” nos dá uma visão muito estreita da realidade múltipla da clínica em acupuntura.