Acupuntura e Arte de Cuidar

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Eu mal sei como começar a escrever sobre essa dimensão da acupuntura e arte por ser um tema tão central e que sequer tangencia o senso mais comum sobre o tema. Mas como professor, meu papel é facilitar o aprendizado, tal como os antigos, conto a seguinte situação:

Imagine alguém que vai buscar uma aula de Tai Ji Chuan, ou Aikido, ou mesmo Yoga e pergunta:
РDe quanto tempo ̩ o curso?
Aí o professor responde, não tem tempo.
O aluno perplexo pergunta:
РComo ṇo tem tempo, mas ṇo tem certificado?
РO professor, pacientemente, diz tem, tem sim, se voc̻ estudar comigo aqui um tempo eu te dou um papel dizendo que voc̻ estudou.
РMas ̩ reconhecido pelo MEC? Retrucou incr̩dulo o aspirante.
– O professor responde: Não, mas aqui temos faixas, reconhecemos quando você está pronto e é esse reconhecimento que lhe dá confiança e certidão, mais do que qualquer papel. Mas tem escolas que oferece curso de professores de Yoga em dois anos, e tem também os que oferecem cursos de acupuntura que ao concluir, no final, pós-graduado, você pode até começar a dar aulas.
O aluno vai buscar o seu certificado o professor fica sinceramente feliz, pois certamente não é este aluno que ele pretende conviver pelos próximos anos.

Na multiversidade.com, escola onde vivemos essa arte no dia-a-dia, partilhamos da certeza de que tais como as artes orientais marciais também a arte da acupuntura têm diversos níveis, “faixas” de compreensão; e que quase todos os níveis, só podem ser compreendidos através da prática. Não nos deixamos iludir achando que podemos aprender acupuntura com pós-graduados especialistas de cursos de dois anos com aulas de final de semana sem nenhuma experiência clínica. Nada contra qualquer dos cursos e seus esforços sinceros de propagar este saber, confiamos que todas as formas de propagar este saber são válidas, mas algumas, pelo próprio molde pedagógico, não consegue seu intento.

A cena é mais ou menos assim, a pessoa faz um curso e ganha uma faixa branca e lá está ela dando aulas, sem sequer um ano de prática, sem sequer ter experimentado em seus pacientes, sem sequer ter pacientes.

Tal como nas artes marciais, a acupuntura tem diversas graduações, e você só é reconhecido quando reconhecido pelos seus pares que detém o conhecimento, por isso, e fundamentalmente por isso chamamos e reconhecemos esse saber de TRADICIONAL, porque ele caminha junto da sabedoria que o orienta.

Respeitar seu professor, reconhecer as linhagens e ser reconhecido dentro dessa linhagem é fundamental e nos dá força de seguir adiante nessa transmissão. Embora hoje, a gente tenha cursos de yoga de final de semana, e não tema, os cursos na China são assim também. O dinheiro compra quase tudo não é mesmo? Mas cada um, com discernimento e lucidez, é bom saber o que está comprando.

Então, se você fez um curso de acupuntura e ainda tem a coragem, de mesmo que só pra você, com dignidade e consideração pelos seus pacientes, reconhecer que ainda não sabe nada, procure passar de faixa branca que é o seu certificado, comprado na china ou na escola mais próxima de você, para os níveis seguintes.

As pessoas que realmente detêm esse conhecimento passam por muitos sacrifícios para obtê-los, dedicar-se a cuidar das pessoas com seriedade não permite fazer atendimentos em série, trata-se de uma vida dedicada a uma ARTE.

E porque acupuntura é uma arte? Porque ela demanda uma atitude de cultivo que é a raiz da medicina oriental. Além disso, para quem ainda não compreendeu, saiba que conhecer a relação dos canais, saber que pontos inserir, saber inserir, saber a profundidade, direção e mais difícil de tudo ter a intenção correta capaz de mover o Qi leva muitos e muitos anos de estudo, desenvolvimento da sensibilidade e compaixão.

Mas o mercado não pode esperar tantos anos assim, não é? Precisamos “cair no mercado de trabalho”. Aí, acupuntura que é uma prática refletida, ou contemplada, um saber que emerge do encontro clínico, se torna uma teoria aprendida nos livros e aplicada num paciente hipotético com síndromes metafísicas, nunca, ou raríssimas vezes se encaixam tal como nos livros. Uma técnica a mais nos repertórios das especialidades.

Vamos precisar de todo mundo, de todos os acupunturistas, independente da sua formação anterior, de todos os cuidadores e terapeutas interessados em preservar a integridade e a integralidade desse saber.

Nossa arte, embora muito antiga, ainda é apenas uma criança no Brasil e vamos ter que criar uma massa crítica para chegar a uma futura graduação de acupuntura para aprofundar e levar adiante esse saber declarado patrimônio da humanidade. Sempre haverá, contudo, outros cursos destinados a outras transmissões de saber que não se aprende nos bancos universitários,  e também sempre haverá os que compram certificados e os que realmente aprendem, é a vida. O processo de ensino e aprendizagem é um mistério, o que se transmite depende do coração de quem recebe. Isso não é bom, nem ruim é assim.

Fico feliz de me manter com disposição de aprender sempre, de manter o meu pote meio vazio para seguir me surpreendendo sempre com as novidades de milhares de anos que a acupuntura me mostra no quotidiano. As fichas continuam caindo, iluminando meu coração, no silêncio das agulhas.

Esse texto foi escrito em gratidão a todos que participaram do ENAPEA-Niterói aos meus amigos, companheiros e maestros do caminho, alunos e professores.

Gratidão a minha primeira professora Maria Eugênia e ao meu primeiro professor Victor Lima, que me mostraram os primeiros passos do Caminho desta Arte de Cuidar.

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.