acupuntura e acupunturistas livres ou proibidos?

Acupuntura está prestes a perder de vez sua pluralidade, seu potencial e sua abrangência se tornando de vez uma especialidade e prática exclusiva dos médicos. O motivo disso não é tanto legal, embora também o seja, não é tanto político, embora também o seja, mas sobretudo é de ordem moral.

A acupuntura começou proscrita, ninguém queria saber de colocar agulhas nos outros para tratar doenças, só os praticantes de artes marciais, os místicos, os médiuns e terapeutas alternativos e os orientais que tinham aprendido de forma tradicional.

Mas na última década, fisioterapeutas definiram que acupuntura seria sua especialidade, psicólogos elegeram como prática complementar e várias outras profissões buscaram uma fatia, criando uma situação absurda que todos achavam que tinham seus direitos garantidos. Não foi até bem pouco tempo quando uma decisão judicial acabou com as especializações que não fosse a de medicina.

Apesar dessa autorização das profissões, a decisão recente da justiça foi uma resposta dura nos praticantes que estudaram nos cursos em busca de títulos. Tanto em empresas, como em planos de saúde, todos agora aceitam apenas médicos acupunturistas, sem falar da força da mídia e do SUS que informou a todos, mesmo com os gritos agonizantes nas redes sociais tentando dizer o contrário. Se a acupuntura sobrevive e tem um futuro é por causa dos praticantes tradicionais, que não se reivindicam títulos, mas que mantém com seus clientes, um espaço importante na construção do valor social da prática como sendo ato de todos diante da lei. Mas na prática, se pergunte: você faria com um médico referendado por seu plano de saúde ou pelo SUS ou com o japonês que você ouviu dizer que faz milagres? Seja sincero. Pra ajudar a refletir: SUS e planos de Saúde são de “GRAÇA”. É preciso argumentar muito mais?

O segundo e derradeiro passo será com regulamentação do Ato Médico, que vai legitimar ainda mais a prerrogativa suprema sobre a vida dos pacientes que os médicos se avocam. Mas culpar “os médicos”- que se organizam bem em torno dos seus interesses com respaldo amplo da dimensão legal e política – é não perceber as limitações morais, que precisamos também encarar nessa reflexão, e que faz dessa situação responsabilidade de todos os acupunturistas e também daqueles que sabem que acupuntura deve ser praticada por quem sabe acupuntura e que suas formas de transmissão são muito heterodoxas e variadas, pois guarda uma dimensão arte, uma dimensão centrada na terapêutica, mais do que no diagnóstico.

Politicamente, acupunturistas poderiam ser um grupo forte, poderiam se reunir os terapeutas de formação livre, todos os praticantes sinceros da sua arte em diversas categorias profissionais, mesmo os bons médicos acupunturistas. Mas não foi isso que fizeram: cada grupinho se reuniu defendendo interesses parciais. A campanha boa da “Acupuntura com Acupunturista Tradicional”, logo se tornou uma campanha de interesses de grupos a favor de especialistas e cursos de pós-graduação. Mais uma vez a falta de uma visão sistêmica e a manutenção dos interesses parciais nos fez perder o bonde da história.

Moralmente, perdemos o que nos unia que era a própria acupuntura como arte de cuidar e aliviar sofrimento e começamos a discutir sobre os requisitos do MEC, como se acupuntura fosse algo real do ponto de vista legal. Acordem, não é! Não existe lei sobre acupuntura, como não existe lei sobre a medicina.

Uma falta legal pelo motivo oposto do outro: como médicos podem fazer tudo que acharem que estão aptos a fazer, nunca acharam que precisavam de uma lei pra lhes restringir a atuação. Já os acupunturistas, que viveram e vivem no espaço vazio da lei, no principio da LEGALIDADE, como alternativa e complementar, não se deram conta de que quanto mais buscava dar caráter científico do discurso, mais o entregavam de bandeja o seu saber tradicional para a biomedicina (medicina ocidental empirista). Atualmente, acupuntura é LIVRE, absolutamente LIVRE e pratica estelionato quem vende título de especialista pra profissão inexistente diante da atual situação legal.  Qual você acha que virá primeiro, a regulamentação da acupuntura ou o Ato Médico regulamentando a medicina? Vamos lá? Reflita, veja se faz sentido, não aceite que outros pensem por você.

Moralmente ainda, vendemos como realidade uma profissão inexistente, formamos sindicatos inexpressivos que quando os idealistas fundadores, os artistas alternativos de décadas atrás, começaram a cansar, não conseguimos mais ver o que nos unia, porque com grupos muito heterogêneos, ficamos longe de uma identidade.

Ao contrário, brigamos entre nós em defesa desses grupinhos e de suas posições parciais e reducionistas. Faltou-nos um discurso integrador que pudesse didaticamente ensinar os princípios básicos das leis do Brasil, apensar do esforço de poucos.

Praticamos com os novos aspirantes a acupunturistas uma política de medo: insistindo que seria necessário ter que “comprar um papel” no promiscuo processo de vendas de chancelas das faculdades particulares que conseguiram do MEC autorização para pós-graduações. Se você é um desses, se pergunte quantos se formaram com você e estão hoje praticando acupuntura como profissão. Esse fenômeno de ordem econômica dispersou os interesses da coletividade em favor dos interesses dos “donos de escolas”. Rachamos os interesses dos empresários com falta de visão e os da população ou da nova geração que chegava, deixamos uma história vergonhosa que será lembrada pelas futuras gerações e que não vão poder praticar acupuntura em razão da nossa omissão histórica.  Claro que um dia, com a evolução da história, iremos finalmente entender o que quer dizer o reconhecimento da acupuntura como patrimônio da humanidade, hoje porem, isso é distante da maioria. Se você ainda não entendeu, quer dizer que ela é de todos nós, seres humanos e podemos todos praticá-la em nós mesmos, nos nossos amigos familiares e se somos terapeutas e temos vocação em quem quisermos. Veja os riscos da acupuntura, é menor do que beber um como d´agua e engasgar!

Só uma parcela muito pequena pode amadurecer por anos de discussões nas redes conseguiu entender que só uma faculdade de acupuntura poderia nos salvar. Só um curso superior e uma profissão independente poderiam legalmente se opor ao entendimento do senso comum de que “Medicina Chinesa é Medicina, logo…isso mesmo, só médicos podem praticá-la” Mesmo tentando construir academicamente discursos elaborados de racionalidades médicas alternativas, os quais parecem servir apenas aos “médicos alternativos” integrando ao SUS suas Políticas de Práticas Integrativas.

Mas esse entendimento amadurecido por uma década de debates, de que uma acupuntura como profissão independente é essencial tem sido ferozmente atacado pelos que tinham outros interesses mais imediatos ou incapacidade de compreender o problema aqui apresentado. Você e eu que já compreendemos o problema não conseguimos ou não quisemos fazer eco dessa dimensão óbvia e por isso também somos responsáveis.

Nesse meio tempo, quero dizer na metade do tempo, enquanto passamos uma década discutindo no Orkut e agora no facebook: A quiropraxia já tem FACULDADE no Brasil como na Europa; os Naturistas tem FACULDADE no Brasil (COM ACUPUNTURA NO SEU PROGRAMA), enquanto os acupunturistas ficaram a ver navios com os cursinhos particulares de formação lato-sensu que agora já não são mais de especialização. Perdemos a oportunidade de assegurar o futuro da arte e nos vemos chocados com a decisão da Justiça a favor do Conselho Federal de Medicina? Surpresos? Mesmo?

Finalmente, no apagar das luzes, reafirmamos que precisamos de uma Faculdade para Acupuntura também, se quisermos preservar este saber para as futuras gerações. Eu pelo menos quero uma acupuntura para todos os seres humanos. Isso deveria ser a principal demanda de qualquer acupunturista, inclusive dos médicos sinceros, mas  ao contrário, insistem os graduados que NÃO querem ter que estudar mais. Imagine!!! Insistem na queda de braço com a medicina enquanto pisam nos acupunturistas tradicionais que deveriam formar sua base de união entre os diversos profissionais.

Por isso, afirmo que o Ato Médico vai ser um tiro final na pluralidade de racionalidades da medicina no país. Mas que isso fique registrado na história: será e é NOSSA a responsabilidade. Nesse sentido a acupuntura não é nossa, nem deles, será preciso entender que ela é de TODOS, e isso, felizmente, também virá.

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Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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