Abundância e escassez e o sentido da falta

pinturas do passado

Outro dia eu disse num curso desses que deveria ser gravado, pois tem momentos que você fala coisas que realmente deveriam ser registradas. Há quem chame de inspiração, há quem chame de solidão.

Bem, o que eu disse nesse curso, que desde então me parece cada vez mais fazer sentido é que: SÓ HÁ CONFLITO ONDE HÁ ESCASSEZ. Tá, tudo bem, qualquer um com uma mínima noção de economia sabe disso.

Mas aí, vemos duas crianças discutindo, como eu vi ontem. Ela entrava no quarto chorando porque não deram o biscoito pra ela. Havia outras tantas caixas de biscoitos disponíveis, havia bastante, só que perceber isso, acabaria com a graça da escacess. Porque é na escassez que podemos viver a nossa dimensão especial, pois aquilo que é raro, mais raro ainda faz de nós.

Anos atrás, eu tinha um professor de pintura, ele ganhara muito dinheiro com a genialidade dos seus quadros, mas depois de se decepcionar com os seus então aliados, ele decidiu ir morar num “barraco” como ele mesmo definia. Foi ali, que depois de mais de uma década eu o reencontrei. Ele pintava os quadros mais lindos, como esse:

cezar monge

E também pintava as portas, pintava as paredes como se fossem mármores, e as portas como se fossem colunas de um templo dourado e celestial. Ali vinham os colibris se alimentar nos grãos despejados sobre seu chapeu.

cezar monge

Passei ali muitas e muitas tardes, como tinha sido aluno dele na infância e sempre partilhavamos conversas sobre as práticas espirituais, sempre me animava sua disposição pra superar as dificuldades. De transformar com a arte tudo ao seu redor.

Eu compreendia profundamente o que ele estava escolhendo passar, e via isso como um processo muito natural. Claro, num natal, não aguentei e levei lhe uma cesta de natal cheia de coisas boas, ele ficou também com minha máquina de lavar e as flores do jardim da minha casa na cinco de julho onde funcionou minha primeira clínica.

Saudades desse tempo de profunda abundância e de felicidade, minhas tintas todas se foram, pitávamos com o que tinhamos, paredes.

izabela mocaiber

Ouvíamos músicas envagélicas pois eram as únicas que sintonizavam bem, bebiamos água com luzes do sol. Pois era preciso colorir as águas com a imaginação pra receber os seus sabores aparenetemente insípidos.

Esse amigo teve dois grandes impactos na minha vida. Na juventude me ensinou a brincar com luzes e sombras. Até hoje eu me lembro da minha primeira aula de pintura, na quinta série. Eu tinha que desenhar uma esfera de isopor e fazer ela parecer uma esfera espacial. E não é que eu tinha jeito para o negócio. Passei aulas e aulas praticando perspectiva, acho que foi o que mais aprendi naqueles anos que alto demais sentava no fundo das salas de aulas com 50 alunos.

sombra e luz

Saudades desse tempo.

O que ficou, sei lá, meu gosto pelas imagens, não tenho muito tempo pra pintar pq hoje é tudo tão instantâneo, que acompanhar as semanas, as vezes meses que me levam a pintar um quadro não dá mais tempo. Vamos como podemos com photoshop mesmo.

Mas quem sabe um dia eu redescubro o prazer pelas texturas na tela e pela mistura das tintas. Das lições fundamentais sobre a luz e a sombra a profundidade e a perspetiva.

Outra lição importante que ele me ensinou recentemente é jamais vender sua arte, jamais vender seu espírito. Eu sei, nem todo artista precisa ser santo, e confesso que minha vocação ascética não é assim tão grande.

De qualquer forma, a escassez é muito melhor que a abundância, muito mais produtiva, muito mais criativa, multipla. Embora existam e as mais nobres motivações humanas são mesmo motivações de transbordamento, como o amor, a amizade e o bem-quere. O que nos move no dia-a-dia com muito mais força é mesmo a escassez. Astrologicamente é saturno, enforcando e nos deixando esperimentar nossos limites que se contrapões a força de Jupiter.

Eu e saturno somos velhos amigos, meu ascendente em capricórnio fez dele o regente do meu mapa.  E sinto cada transito dele com muita força e com profundas transformações e esse é um momento assim, mesmo sendo carnaval.

O que eu queria dizer afinal é simples assim: Viva a plenitude e viva a escasses, viva o yin e viva o yang, viva o belo e o feio, viva o homem e a mulher, viva toda a manifestação e sua multiplicidade todos os tons, todas as cores, todas as nuances, todo o espéctro da alma e das emoções.

Então, se você só tem um chocolate, guarde-o, para que no momento mais precioso, você possa saber o seu verdadeiro sabor.

Assim também, se você tem um amor, guarde-o, para que num momento de bem-aventurança ele possa se abrir, como uma flor na sua alma.

Uma elegia aos transitos de saturno pela vênus e pelo meio do céu. Triste, moral e lamentoso, mas pare inspirar guerreiros na batalha a contemplar a finitude e a falta.

Hahahah, risos!

ps. que título mais psicanalítico e retrô!

E essa pintada na parede era minha companheira na época, saudades também e bençãos sempre!

About The Author

Mario Fialho

Mário Fialho é pai do Miguel Luz, professor na multiversidade, clínica e escola em Niterói. Vive dedicado a escrever, ensinar e a cuidar de tudo que é bom, belo e verdadeiro com simplicidade. E agradece a sua visita.

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